<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> ETICA EMPRESARIAL E RESPONSABILIDADE SOCIAL
Revista Recre@rte Nº3 Junio 2005 ISSN: 1699-1834                                 http://www.iacat.com/revista/recrearte/recrearte03.htm

 

ÉTICA EMPRESARIAL E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Francisco Gomes de Matos

BRASIL

Consultor de Liderança, Cultura Corporativa e Estratégia

fgmatos2000@uol.com.br

 

É certo ligar o sucesso ou fracasso de uma organização ao seu comportamento ético? Tenho convicção de que sim! Ser ético, hoje, não é mais uma opção. Para pessoas e organizações, é questão de sobrevivência. Com a velocidade com que se processam as transformações, há necessidade de valores internalizados para que haja alinhamento no momento das decisões, que exigem rapidez. Hoje não se pode avaliar uma empresa com os padrões tangíveis de ontem, pois referenciais intangíveis, como marca, imagem, prestígio e confiabilidade, decidem a preferência e garantem a continuidade.

A ética ganha respeitabilidade como forte diferencial de qualidade e conceito público, mas será que já se formou a consciência ética no comando das organizações?

Algumas questões básicas precisam ser devidamente equacionadas para um melhor entendimento sobre a eficácia da ética nos negócios. A ética é determinada pela cultura ?

Numa tribo de canibais, é ético comer o semelhante. Por ser lei, é ético? Por ser costume, é ético? Justifica-se uma "ética de conveniência"?

O discurso ético e a prática das organizações fazem lembrar o axioma popular: de boas intenções o inferno está cheio.

No entanto, julgo estarmos vivendo um momento importante de renascimento moral, no esboçar de uma nova conscientização. Nesse sentido, as boas intenções são válidas como início de processo.

A conscientização tem esse mérito: provoca desconforto com relação às situações negativas vigentes. É imprescindível, todavia, que existam alternativas concretas, atitudes e comportamentos que denotem mudanças significativas. Surge daí o compromisso das lideranças.

COMO CARACTERIZAR A CONSCIÊNCIA ÉTICA?

-         Impossível a vida em sociedade e a continuidade de um grupo sem um mínimo de estrutura ética, ou seja, de valores, princípios, limites, respeito à pessoa, sentido de bem comum.

-         Para tanto, é preciso distinguir:

. a Predisposição Ética que se refere a sensibilidade social, a percepção de valor, a relevância do bem moral e a

. a Consciência Ética que corresponde a capacidade de avaliar e julgar.

A falta de predisposição ética está na indiferença e no fastio quanto ao comprometimento dos preceitos morais e as restrições que afrontam os bons costumes.

Hoje, as empresas em ritmo crescente introduzem programas de responsabilidade social. Houve acréscimo real na predisposição ética?

E quanto a conscientização ética, que é o passo além, referente à compreensão e decisão em Ser Ético?

Exemplo de insensibilidade ética está no descomprometimento e desconscientização da mídia televisiva promovendo programas totalmente deseducativos, verdadeiros lixos morais, como:

-         exploração patológica do grotesco e do monstruoso

-         exploração da criança em entrevistas e exibições maliciosas

-         vocabulário chulo e pornográfico

-         exibição de anormalidades sexuais e licenciosidades de todo tipo.

Tudo é permitido e bem patrocinado por empresas, cujo critério é o nível de audiência. Será que o poder econômico está isento da ética?

TRAÇOS CULTURAIS

Há traços culturais em nossa realidade organizacional que exigem substancial revisão:

  • ·        Autoritarismo - concentração do poder, a dominação, a tendência à fragmentação [ ilhas de poder nas organizações]
  • ·        Paternalismo - corrupção do poder, privilégios, assistencialismo opressor.
  • ·        Individualismo - competição predatória, egoísmo, falta de visão social.
  • ·        Consumismo - possessividade, canibalismo social, a ânsia de possuir sempre mais.

 

Subjacente a essas manifestações egocêntricas está a desvalorização humana, justificando manipulações tecnocráticas, tipo senhor/escravo, casa grande e senzala, que hoje ganham colorações novas, mas que intrinsecamente revelam uma mesma realidade. Daí a mudança ética tem que ser organizacional, passando pela revisão dos valores culturais. O foco deve ser o homem, em dignidade e oportunidades. O homem em equipes inteligentes, integrado e interagindo.

A consciência ética resulta dessa sinergia. O homem não subsiste sozinho. Sem a equipe, sem o outro, torna-se uma abstração social, manipulável e excluído.

É a ética da solidariedade que dá sustentação a uma equipe e a torna indestrutível. Não há vida social autêntica sem fundamentação ética.

Todo trabalho de conversão pessoal precisa estar apoiado por uma estrutura cultural adequada, sem o que as "recaídas" serão fatais. Vale aqui, como ilustração, o fato histórico envolvendo o Padre Anchieta e o terrível chefe canibal Cunhambeibe, que se tornara o maior desafio ao santo evangelizador. Afinal, depois de várias tentativas, o extraordinário jesuíta imaginou ter conseguido seu intento: converter a tribo ao cristianismo. Mas só por algum tempo, pois, não tendo internalizado nos indígenas o valor da abstinência de carne humana, logo a antropofagia ressurgiu com toda a força.

Trabalhar a cultura das organizações é fundamental para que as pessoas possam se converter autenticamente. O treinamento convencional, ministrado nas empresas, sem que a cultura se transforme, significa "rios de dinheiro" jogados fora. Com a agravante de reforçarem o sentimento de frustração e negativismo. Criam a convicção: "é muito bonito, mas não funciona".

A ÉTICA PRESSUPÕE :

·        Liberdade - numa "cultura de escravos", não há ética que resista.

  • ·        Dignidade/Responsabilidade - sem que se valorize o homem, abrindo espaços à sua participação criativa, é inútil pensar na ética.
  • ·        Igualdade de Oportunidades - o estabelecimento de privilégios, decorrentes de indefinições políticas e preferências, inviabiliza qualquer intenção ética.
  • ·        Direitos Humanos - sem que se regulem, com precisão e clareza, direitos e obrigações, que consultem o bem comum, ser ético torna-se um milagre que, graças a Deus, ainda existe.

Ser competente envolve ser ético. Você quer, para sua empresa ou relacionamento pessoal, um indivíduo extremamente competente, mas sem ética? Profissionais competentes e aéticos freqüentemente ganham negócios... e perdem a empresa. É o oportunismo - aventureirismo – que mata a oportunidade. Realizam o "feito memorável", que não resiste ao desafio seguinte, pois não se respaldam em credibilidade.

A visão imediatista é anti-ética, pois não respeita valores. Vale tudo para obter resultados: o concorrente tem que ser eliminado,. o cliente tem que ser "encantado " a qualquer preço. Esses valores estão fortemente expressos no inconsciente do marketing massificado. Daí os apelos publicitários que se veiculam na mídia e as concessões à popularidade, na subversão dos valores transmitidos em novelas e programas sensacionalistas. Embarca-se na onda do ganho fácil até o naufrágio inevitável. Que ocorre, sem que se aprenda, por inconsciência ética.

A educação ética – certamente um pleonasmo, pois ambas são intrínsecas, senão tornam-se excludentes – é condição imprescindível ao processo de renovação e de continuidade civilizatória.

ÉTICA DO LUCRO

 

É condição à perpetuidade da empresa a ética do lucro, para que não viva as contradições que atormentam seu espírito e a levam a toda sorte de equívocos operacionais.

O lucro - fator de sobrevivência na dinâmica do modelo capitalista – é, em geral, um valor mal resolvido, pois não claramente equacionado sob o ponto de vista ético.

A Ética do Lucro importa em que se contemplem quatro condições essenciais:

•  ·       Empresa – reinvestimentos que assegurem a sobrevivência e o seu desenvolvimento[Renovação Contínua].

•  ·        Capital – justa remuneração aos investidores, que bancaram o risco[Retribuição Societária].

•  ·        Trabalho – remuneração, com justiça, aos agentes produtivos[Salário Justo].

•  ·       Comunidade - retribuição à sociedade pelo sucesso do empreendimento[Solidariedade Social].

A visão sobre a Ética do Lucro significa limpar a consciência empresarial da confusão de conceitos e práticas distorcidas, responsáveis pelo fracasso em seus posicionamentos. O conceito público tende a se deteriorar quando não há convicção firme sobre a missão da empresa. E o lucro é a parte sensível do iceberg organizacional.

A função da empresa, seu objetivo essencial, não é o lucro, mas prestar serviços. Existe empresa, pois existe demanda: clientes que têm necessidades a serem satisfeitas.

Para isso surge a empresa e a qualidade em servir é a sua responsabilidade básica.

O lucro é objetivo dos negócios, que a empresa desenvolve para realizar sua missão de servir ao cliente. O lucro é exatamente isso: remuneração pelos serviços prestados.

É importante que essa distinção seja clara, pois suas distorções são evidentes no mercado. Muitos são os empresários que praticam o discurso radical: "o objetivo de nossa empresa é lucrar". Com isso induzem ao "vale tudo pelo lucro" Este conceito introduz-se no espírito do empregado e torna-se princípio de cultura, e a ética vai para o arquivo morto, desenterrada em momentos de festa, em arroubos oratórios. Mas os tempos estão mudando.

Ética dá lucro?

Afirmo que sim, pois o bom conceito traduz-se em confiabilidade, e esta é fundamental para efetivar negócios.

Vou querer trabalhar com pessoas e produtos não confiáveis?

Vou me arriscar a estabelecer vínculos com empreendimentos duvidosos?

- Certamente não, se tenho bom senso.

O lucro, em geral, ganha força e significado puramente financeira. Essa é uma visão estreita que não contempla a riqueza social e psicológica do resultado positivo, como indicador de saúde institucional.

O lucro, em sentido maior, referenda o projeto coletivo vitorioso, compartilhado, mutuamente usufruído como bem comum. É a realização pessoal, onde está embutida a auto-realização. Não estou falando de uma ideologia política meramente socializante, mas de humanismo e cristianização da sociedade empresarial.

A obsessão pelo lucro acaba por gerar o não-lucro, pois desgasta parceiros e inibe clientes, donde dificilmente a Ética sai imune.

O lucro é motivação para o empregado?

-         O lucro, imprescindível para a continuidade da empresa, não é necessariamente um motivador forte para o empregado, mesmo quando ele participa formalmente dos resultados. Fica sempre, no inconsciente das pessoas, a suspeita de que os verdadeiros beneficiários são "“eles" e não “ nós”

-         Mesmo porque há um sentido utilitarista desenvolvido que condicionou as pessoas a pensar: - “ o que eu ganho com isso?”

Quando a perspectiva de retribuição é dinheiro, sua aceitação é sempre restritiva. Jamais alguém vai achar que está sendo remunerado à altura, fica sempre o sentimento de que se é explorado.

O que motiva as pessoas é saber que estão comprometidas com um projeto de vida. O que engaja vontades e inteligências são valores, sentimentos e idéias. Preservados esses, o ganho financeiro faz sentido como estímulo positivo. Não é mais a “compensação à vamperização” a que se sujeitam, na percepção distorcida do trabalho como “ meio de morte”, compelidas a empenhar a saúde e a alma na conquista da remuneração. A materialidade dessa constatação é frequentemente camuflada pela teatralidade das mordomias e dos altos ganhos.

Assisti um empresário afirmar para um alto executivo: -“ você, aqui, vai ganhar muito dinheiro, mas terá que deixar seu sangue” e eu pensei: sua alma, também.

ÉTICA APLICADA

A prática da ética nas organizações vem se caracterizando por manifestações concretas, dentre as quais destacamos:

  • ·        Filosofia Empresarial - clara conceituação de missão, princípios e orientações.
  • ·        Comitê de Ética - grupo definidor e de controle de políticas e estratégias.
  • ·        Credos - divulgação das crenças institucionais para funcionários e clientes.
  • ·        Códigos – coletânea de preceitos sobre comportamentos.
  • ·        Ombudsman - ouvidores ao alcance dos clientes para atenderem aos seus reclamos .
  • ·        Auditorias Éticas - avaliações periódicas sobre condutas empresariais.
  • ·        Linhas Diretas - circuito aberto à críticas, reclamações e sugestões.
  • ·        Programas Educacionais – aproximação da empresa com seus públicos através de iniciativas que eduquem.
  • ·        Balanço Social - divulgação dos investimentos da empresa em benefício do público interno e da comunidade.

Para que essas práticas tenham um sentido verdadeiramente ético e co-responsabilizador é vital que se apóiem na atitude dos dirigentes. Se as lideranças não confirmarem a lógica da atitude, a lógica formal não garante a necessária credibilidade.

Ser ético, como atitude na gestão, significa, em essência: reconhecer necessidades, reconhecer o desempenho funcional, propiciar participação nos resultados, estimular o compromisso social e favorecer a educação continuada.

Ser ético no comportamento de gestor significa: dar a informação relevante, avaliar e fornecer feedback, abrir espaço à contribuição criativa, institucionalizar canais de comunicação, delegar, delegar e delegar (pois além de instrumento eficaz de gestão, implica dignificação do homem, pelo poder decisório), comemorar o sucesso e recompensar.

Tais práticas irão transformar a ambiência de trabalho numa cultura ética, na qual se realiza a comunidade vivencial de aprendizagem, em que todos realizam função educativa, num intercâmbio enriquecedor em que a solidariedade torna-se valor espontâneo. Aí há equipe, pois exercita-se a liderança integrada.

Os desafios da era tecnológica exigem essa postura de liderança: todos são potencialmente líderes, a serem motivados ao aprendizado contínuo.

Só assim a empresa responderá com eficácia aos múltiplos compromissos que fazem de cada empregado um agente vivo da organização. Qualquer empregado, ao decidir, está comprometendo a empresa como um todo. Caso não tenha consciência ética, está agravando o conceito empresarial. E pondo a perder conquistas importantes.

A ética na era tecnológica é a estratégia para tolher males que vêm minando as organizações, como:

  • ·        Robotização social - a tecnologia condicionando o comportamento humano.
  • ·        Sociedade estressada - pela velocidade acachapante, é exigido esforço redobrado para acompanhar as exigências de rapidez nas decisões.
  • ·        Desemprego e violência - o ganho obsessivo como meta sacrifica valores humanos e gera o comportamento violento.
  • ·        Empresa infeliz - o ambiente de insegurança e injustiças induz à competição predatória e à cultura egocêntrica.
  • ·        Infelicidade social - o caos reinante, quando falta a consciência ética, enfraquece o espírito.

Tais indicadores negativos mostram a importância vital das empresas investiremem seu conceito público, através de manifestações concretas de responsabilidade social.

RESPONSABILIDADE SOCIAL/ VOLUNTARIADO

A Responsabilidade Social é uma exigência básica à atitude e ao comportamento ético, através de praticas que demonstrem que a empresa possui uma alma, cuja preservação implica solidariedade e compromisso social.

A imagem institucional é um bem que significa para a empresa a aceitação pública de sua atuação e propostas. São seus ativos intangíveis, a força que garante sua perpetuidade.

Uma das linhas de ação empresariais mais significativas, nesse sentido, vem sendo o Voluntariado , ou seja, a disposição dos empregados em se disponibilizarem à acões solidárias de assistência.

Vem crescendo o apoio efetivo das empresas ao engajamento de suas equipes em projetos e obras sociais. Isso é excelente, mas requer organização para que não se percam esforços e motivações.

Recomendamos, para tanto, a formação de Clubes de Cidadania nas Empresas .

O Clube de Cidadania consiste em criar uma espécie de “ ong interna”- grupo que se organiza para o esforço integrado e coordenador das ações sociais. O Clube do Cidadão, preservado em sua autonomia, deve ser estimulado e apoiado pela empresa.

Cabe ao Clube de Cidadania:

1.     Estabelecer estratégias e programações sociais na empresa

2.     Promover Campanhas Motivacionais ao Voluntariado

3.     Cadastrar as adesões, planejar ações e as escalas de atendimento

4.     Selecionar as obras sociais

5.     Debater idéias, buscar soluções criativas

6.     Avaliar resultados

7.     Treinar voluntários

O Clube de Cidadania é um esforço concentrado e uma inteligente estratégia de criação do espírito solidário na empresa, que certamente influenciará concretamente no trabalho empresarial, em reforço ao sentido de equipe e a produtividade.

Concluindo

Ética empresarial não é assunto para as horas vagas, é filosofia e prática de empresa. Significa não ao individualismo e aos seus subprodutos: egocentrismo e corporativismo. Não ao autoritarismo e suas subdivisões: o totalitarismo político, com a centralização do poder; o totalitarismo organizacional, com o comportamento burocrático; o totalitarismo emocional, com o paternalismo.

Ética é vida! Sem princípios éticos é inviável a organização social.

Ética Empresarial é a alma do negócio. È o que garante o conceito púbico e a perpetuidade.

Francisco Gomes de Matos é consultor de estratégia empresarial e

vice-presidente do Conselho Empresarial de Ética e Responsabilidade Social

da Associação Comercial do Rio de Janeiro

e-mail: fgmatos2000@uol.com.br

 

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               > Master (para titulados)
               > Doctorado (para masters)

Julio 2005. INTENSIVO.    www.micat.net