Revista Recre@rte Nš7 Julio 2007 ISSN: 1699-1834      http://www.iacat.com/Revista/recrearte07.htm

 

WELTANSCHAUUNG DO VAGABUNDO SOCIAL NA ARTE.

O parto inacabado do verdadeiro Artista

MANUELA RICHTER
LISBOA

Mudanças sociais radicais

O estado de arte da Arte no ensino português na visão filosófica da Escola de Frankfurt, implicaria de imediato mudanças sociais radicais!
 
Mudanças Sociais, termos estes, que de imediato me remetem, como causa – efeito, duma causa nobre, a da minha sobrevivência, para a minha vida profissional de mobilidade docente constante, imposta ao longo de vinte anos. Permita-se-me a aletheia do actual mosaico da política de colocação docente. Virtude universal? Reconcilia o princípio de prazer e o princípio de realidade? Isso é a Arte!
Mudanças sociais, sempre hão-de haver e ainda bem, se forem em benefício da maioria. Mas imponham-se Novas Perspectivas de Intervenção, imponham-se rápido, antes de sufocarmos nos gases poluídos da fermentação bélica, que em nada tem de belo, mas de representação trágica, como a visão actual da tutela ministerial que se prepara para o funeral dos cursos artísticos.
Mas até se poderá admitir uma arma bela, como condição do prazer que se segue à posse do objecto. Quantas se encontram em casas pacíficas, penduradas nas paredes das lareiras, cujos donos nunca lhes haviam pegado com o seu real sentido, e se não dispararem, possuirão ordem e simetria, talvez uma, em casa de Aristóteles…
Estamos perante o Belo ontológico, a perfeição intrínseca do ser e Belo artístico (Barros, s/d) não somente porque é atracção, mas porque sustém a Expressão e esta capacidade é uma realização humana, perante o Homem na Sociedade, naquilo a que considero o palco social em que todos os seres vivos habitam e onde representamos um papel, infelizmente para alguns, bélico.
Pena é, que muitos só representem um papel social, quando lhes apetece por vocação, a representação de um ou mais e muitos de mais… mas não o fazem pela repressão que as organizações sociais admoestam.
Sente-se o descontentamento, o desencanto pelo acto repressivo, condicionante da legitimidade de jovens artistas poderem ser eles mesmos, dentro do ensino português, que os desvaloriza. Mera chantagem económica, não porque deveria ser, mas porque o é por exigência, por imposição!

Esta exigência coloca-me perante o estatuto de mendiga. O acto de pedir, é digno, desde que não condicionado. Se dou livremente, também recebo.
A dádiva permite o crescimento, importa percebê-lo. Refiro-me ao crescimento pessoal e social, ultrapassando a imaturidade.
Trata-se de uma longa caminhada convidativa ao verdadeiro crescimento humano, ao “conhece-te a ti mesmo”délfico, pela liberdade de acção. Os gregos expressaram bem a percepção da realidade humana, tentando cumprir essa máxima (Esquivel, 2000).
O diálogo pode ser a melhor esmola que se pode dar ao mendigo que tem tanto de humano, como de formiga, no global social, com um pedido de desculpa para Pitágoras, e a todos os defensores da teoria de metempsicose, ainda se assim fosse, um dia seria apelidado de humano...refiro-me à ausência de compromisso e de respeito pela liberdade individual, na forma de opinar, de ajuizar, de decidir, de poder livremente exprimir os pensamentos artísticos e ser meritório do respeito pelos seus actos, desde que justificados e inseridos no bem comum.
Somos e mendigos, até de nós próprios!
No seguimento desta análise, permita-se-me ajuizar a existência dos chamados, sem- abrigo, mas que desígnio tão inumano...Será justo? Vagabundos? Excluídos?
Justiça seja feita, amigo Sócrates. Feita, ensinada ou aplicada?! Afinal o mundo em si não é injusto, os homens é que ainda andam na busca incessante de amontoados de legislação no sentido de a procurar, por ora apenas aplicam, a justiça in da moda, aplicada por um grande líder (grande na sua pequenez) punindo e conduzindo o indivíduo à conduta do fracasso, à frustração e enfermidade, ao recalcamento e decadência, como ajuizaria Freud.
Importa uma justiça capaz de formar pessoas livres e autónomas, porque ainda não me foi permitido sê-lo, sou uma mendiga, face à libertação criativa da arte no ensino!

Enquanto professora defensora de todas as formas de expressão artística em Portugal, simplesmente me é permitido alugar a minha força de trabalho, para receber um salário à custa desse aluguer, serei livre ou alienada? Senhora de escravos ou escrava? Sócrates ensinou-me a valorizar a pessoa do escravo, e lá me vou contentando a ser escrava de senhores legislantes, pois que outra “factividade”?!
Eis a resposta: serei livre se me for permitido participar em todas as tomadas de decisão artística, e se o que eu produzo, o justificar no salário que recebo... o que acontece no estado de arte da Arte em Portugal, é que se produz muito mais do que receber, então, estarei ou não a ser desapropriada em prol duma Mais-Valia Absoluta?
Talvez a eudaimonia (felicidade) pessoal e social seja aquela em que todos trabalhem em prol da comunidade, com benefício directo para esta, que terá de suportar uma infra-estrutura económica que determine a superstrutura composta por todas as esferas criativas, sejam sociais, políticas, religiosas, filosóficas…
As artes, onde estão? Artista procura-se na sua liberdade, na sua aisthesis.
Enfoca-se de imediato a riqueza dos maiores bens, a liberdade e a igualdade!

 

Da censura de Rousseau ao admirável mundo da cunha

Vivemos numa sociedade onde algumas opiniões deveriam ser legisladas, porque reflectidas e bem aplicadas, se transformam em bem comum.
Citando Rousseau (2003: 126)
“do mesmo modo que a declaração da vontade geral se faz pela lei, a declaração do juízo público faz-se pela censura; a opinião pública é a espécie de lei de que o censor é o ministro, e que outra coisa não se faz senão aplicá-la aos casos particulares, a exemplo do príncipe”.

Neste contexto, atrevo-me a falar da cunha, não no sentido que um honrado sapateiro, lhe atribuirá, mas aos padrinhos dos duelos políticos e sociais, da actualidade, senão veja-se o valor da aplicação da cunha, vulgarmente referida como a ajuda de acesso imediato para benefício particular, se ela se tornar uma lei universal, ou se o favoritismo se tornar legislável, os laços de parentesco, tornar-se-ão um bem ao cidadão e ao Estado, porque desvinculada de constrangimento.
Desta feita, concordo com a aplicação regulamentada da cunha, (enquanto Boa Vontade), à maneira Kantiana.
Importa pela relação que se estabelece entre indivíduos, suprimir os conflitos que surgem da ausência contratual, emergente da sociedade, o que me permite concluir que o conflito social pode advir da ausência do cumprimento de um dever, do compromisso. Estaremos certamente perante um abuso que se oculta sob a falácia de um sistema desumano (Huxley, 2003), como se tratasse duma sociedade a viver sob o efeito de hipnose colectiva.
Na consciência do dever, há a necessidade de realizar um regulamento, por respeito à Lei, como elemento fundamental da própria moral.

A História diz-nos que, o homem sempre esteve em luta permanente, Marx, por exemplo, fala-nos que a história do homem tem sido uma luta de classes, antagonismo absolutamente irreconciliável de senhores feudais e servos, burguesia e proletariado. Ora, aqui está criada a condição para a revolta social e com ela, a revolução!
Nas artes expressivas é óbvio o obstáculo das relações de produção para as forças produtivas. Os artistas são apolíticos porque só eles têm capacidade de politizar da forma mais criativa.
Políticos somos todos...até no gesto! É voz no silêncio que ressoa! Para o mimo, o gesto é linguagem.
Quando digo que não gosto de fazer política, já estou a fazê-la, porque não sou um ser isolado, Aristóteles tem razão, somos seres combinados de acções e de actos, em palco social, porque somos sociais. O próprio homem, enquanto psiquê, na sua conformação psicológica, é um produto social. Sociologicamente pessoa, é o “socius”, dentro dum complexo social.
Cogito e como tal pretendo transformar algo porque sonho em fazê-lo e é este que me vai comandando na vida, é o segredo da pedra filosofal…
Ora se eu transformo o real, se eu transformo o noumenon (númeno, a coisa em si, na visão Kantiana), transformo-o em fenómeno, algo cognoscível e acessível!
E os desejos, os sentimentos, as emoções? Estarão desligadas da moralidade? Pois se esta é unicamente um puro respeito ao dever, não concordo!
Kant tenta resolver isto com o imperativo categórico, que não seja condicionado, nem dependente, isto é, no agir, para que o motivo da acção se torne uma lei universal da natureza. Já concordo! Grande máxima para todos, entendo-a de referência para os artistas, para o ser criativo, que constrói, destrói e reconstrói, como o defendia Derrida.
Há portanto uma subjectividade que transforma as coisas, que as recria e justifica, que as transfere da esfera da razão pura meramente teórica, para uma prática racional, para uma metafísica do concreto.
Não há dúvida que Kant é uma catedral intelec-(a)tual. A liberdade encontra-se no cerne da sua filosofia prática.
Quem Sou Eu? Não um eu coisificado, pronominal, mas um Eu transcendental capaz de criar, construir e reconstruir!
Então o que vai ser de mim, encontrando-me numa sociedade política e culturalmente alienada?
Não terei direito a exprimir a minha própria Expressão? Onde aplico meus sentimentos? O conceito de Eros em Platão, enquanto impulso vital do homem para a descoberta, e o conhecimento de si, perdeu-se com a erotização de tudo à nossa volta, como sustenta Herbert Marcuse (1898-1979) E o tempo?!
Este tempo presente irredutível, coloca-me perante um devir, que importa transformar em ética, não permitindo que a máquina desvalorize o meu trabalho, evitando a minha coisificação, reduzindo-me unicamente a uma mera mercadoria alienada frente a mim mesma, como a uma televisão!
O amontoado de legislação e burocracia portuguesa castra as mentes dos artistas criativos.
Tomando consciência disto, os artistas tornam-se mendigos, é a classe dos sem classes (volto-me para a praxis revolucionária), isto é, lutar contra os impedimentos da minha emancipação artística expressiva, espiritual e intelectual, como o fez Marx de Treves (1819-1883), que também viveu os seus problemas económicos, sociais e religiosos e enquanto filósofo, não se limitou a interpretar o mundo, também o transformou, aqui está ele, actual e de mãos dadas com Engels.
Será que os sindicatos dos professores apoiam os professores artistas, ou estão lavados pela tutela? Ou simplesmente exercem guerrilhas de escaramuças?
Se é verdade que o artista precisa de comer, beber, vestir-se, de educação e de educar, de se abrir para ao outro, em suma ser cidadão, só poderá Ser na plenitude se tiver tempo e harmonia para criar. Se não, onde está a sua felicidade? Onde está a sua obra?
Conseguirá manter o seu estado de bondade natural, bom selvagem, sem abrigo, ou não? Trata-se do seu status ôntico, conseguirá nesta sociedade, manter o seu estado natural?
A verdade é que, se não produz aquilo que a instituição lhe estipula, sente-se culpado, humilhado, super-reprimido (Marcuse, 1984).
Com a desnaturação, tem que conviver com os outros, sofre mu-danças, estas danças em palco social, só serão benéficas se lhe ajudarem a conservar a integridade da sua natureza criativa, a de ser integrada e parte integrante dum pacto socializante, de respeito pela liberdade de criar sob todas as formas de expressão, ser humano, em suma, cidadão.
Isto é, legislar para a construção fortificada do homem moral, sair da encruzilhada para a ordem social, é a concertação daquilo que parecia desconcertante.
Tudo isto, não é senão, a busca incessante pela unidade do ser. É uma questão de educação, bom senso e cultura, caso contrário se o não fizer, ou será deus ou bruto...

Não posso fugir à paideia de deveres, que aprendi com Rousseau; isto é, a construir uma tábua de valores do permitido e do proibitivo, através dos costumes e leis, onde não abdico das minhas paixões, mas posso aprender a controlá-las na sua génese, direccionando-as para o espírito social.
Nesta perspectiva, é necessária uma convenção que regule os deveres e os direitos para que se cumpra o objectivo da justiça. (Rousseau, 2003).

Se Sou cônscia, sou Pessoa, na qualidade de humana, produzo e intervenho, situando-me na temporalidade do meu eu pessoal (do Ser) face a uma intervenção social (no Tempo) de forma intrínseca. O Ser da pessoa com a intervenção no Tempo, numa visão de relance por Heidegger, a existência só tem sentido na temporalidade, no momento expressivo da criação.
Para Heidegger, o ente é um modo de ser do Ser, do Homem! O homem afigura-se-lhe como um ser inacabado, que se vai fazendo no seu devir, na sua caminhada, e à medida que vai existindo, vai-se expressando.
Também Kant, foi um homem inacabado…construindo-se com sonhos e despertares, dando a cara, num baile de máscaras dogmáticas!


A face da Personae social

Subjacente a esta reflexão, está a revolta pela ablação do NEA (Núcleo do Ensino Artístico) do Ministério da Educação, primogénito do curso tecnológico de acção, apoio e animação sociocultural de minha responsabilidade enquanto professora requisitada.
Não tenho a pretensão de me alongar nos procedimentos exaustivos, morosos, cansativos e dispendiosos que a tutela o levou a fazer, nem contabilizar a quantidade de técnicos e de professores que se viram repentinamente no desemprego, tão só partir desta ideia, para apresentar de forma filosófica, alguma (s) face (s) que reveste (m) a personae social e política portuguesa, como que tratar-se do ressoar de algumas máscaras.
Pretendo contextualizar uma pedagogia participativa, enfocando a expressão estética, como forma metodológica na transversalidade das práticas educativas em Portugal, passíveis de serem aplicadas, por exemplo, em países de expressão portuguesa.
Tomando como exemplo, o microcosmos de um Curso Tecnológico de Acção Social e Animação Sociocultural, do qual sou técnica, humildemente responsável (a humildade do humildemente toma a feição dum trabalho conjunto no Ministério da Educação em Portugal, quer na revisão, quer no acompanhamento dos programas, em colaboração de toda uma equipa de autores, colaboradores, consultores, ordens, professores do terreno, assim como o enriquecimento do contributo social, que a própria crítica enceta, uma vez que todos os projectos de programa estão disponíveis na Internet, no sentido de auscultar a opinião pública, sendo esta, uma mais – valia para a sua implementação).
Este curso, que sustenta uma permeabilidade entre outros cursos e com o Ensino Superior, destina-se a alunos dos 10º aos 12º anos do Ensino Secundário, de forma a reconhecer de imediato, diplomados ou técnicos sociais e animadores, já ambientados com a actuante presença nos seus estágios directamente nas empresas, tais como hospitais, centros de saúde, lares de terceira idade, berçários, ou animador sociocultural, ensinando-lhes o que é viver com e sem máscara, a utilização da fala gestual, da comunicação não verbal, a ajudar a exprimir os sentimentos, a sua vontade, a sua liberdade, como tal a ordem, no caos do momento... no mercado de emprego em sociedades recreativas e de lazer, entidades camarárias, teatros, etc., mas capazes de intervirem, de agirem.
Desta feita, um animador é também um actuante, constrói a sua praxis no meio duma política social, estabelecendo uma dialéctica a partir do Estado, com específicos segmentos da população, o que lhe permite operar em contextos de necessidades sociais e humanas, quer sejam individuais, quer colectivas (Nunes, 2003).
Seria desapropriado centralizar este pensamento num processo cerrado, ou circunscrito a uma única esfera ou perspectiva disciplinar, uma vez que no seu palco se encetam múltiplos campos de actuação, de difícil atribuição a uma faixa etária, uma vez que a descoberta de si e do outro per si, se tornam estádios de crescimento a quaisquer faixas etárias.
Pretende-se exemplificar o contributo dos pensadores aqui citados, no reconhecimento e valorização de sua ratio. Partindo do seu cogitar, transposto em modelos criativos e energéticos que propiciem oportunidades sob forma de mais-valia para enfrentar o actual estado de acção social global, (acção, do grego, drâma) permitindo o contributo para o despertar real ou imaginário social e enriquecimento do universo simbólico.
Desta forma, apura-se a emoção e a razão (acrescentando-lhe uma pitada de humor ou ironia socrática que em nada altera o bom pensamento da Escola de Frankfurt).
Trata-se de uma tentativa de intervenção, de mãos dadas com a acção, enquanto vector de conduta transformadora da actual estagnação dolorosa que atravessa o mundo bélico e que se distancia do equilíbrio pacífico, promissor da ética e de respeito pelo equilíbrio da personalidade humana, interesse comum dos homens, versus, interesse egoísta de estado de guerra que paira no ensino...
O estudo da realidade aqui manifesta, porque transversal, sustenta a travessia da esfera social, num trajecto removedor de algumas barreiras familiares acomodadas, (como forma de divisão do trabalho, por força do trabalho de outrem, primeira forma de escravatura), assim como pertença à igualdade de direitos, quer no combate à falta de oportunidades educativas e de empregabilidade, quer à promoção da saúde, (actualmente tão patológica), quer ao respeito próprio de um si, confrontado com a manifestação artística, enquanto acção possível, pela representação das acções humanas no palco social.
A expressão artística, infelizmente ainda actualmente debelada num sentido de comédia aristotélica (kómas= aldeia), onde a comédia estaria diferenciada da tragédia, por esta suster o estilo solene, tão nobre, logo elevado do homem superior, diferenciado daquela que usava a linguagem vulgar do quotidiano e como tal não tolerada na cidade, o que propiciava aos comediantes o deambular de aldeia em aldeia, sem paradeiro fixo (ocorrendo-me momentaneamente a imagem institucional que cria desrespeito pelo professor provisório).
Não tem esta reflexão, o propósito de se deter nalguma concreta representação performativa, tão pouco permanecer no contraste enigmático do apolínico e do dionisíaco da tragédia sustida por Nietzsche, ou numa visão de comédia ou da tragédia aristotélica.
A educação não existe sem poesia, ou poiesis, é a produção (criação) patente na Poética, ela tem de perceber a valorização da “mimesis”, do conceito aristotélico, porque esta nasce com o Homem, é isso que o torna diferente dos outros animais; à semelhança da importante força sofística do discurso, como forma de Expressão e de Comunicação (disciplina trienal do curso em referência), capital para a formação moral da pessoa, análoga à do médico para o corpo, (Saúde e Socorrismo, é também uma disciplina trienal), onde importa seguir as regras a preceito, de um contrato social, sustentado pela igualdade de direitos e de deveres legais. (Pinto, 2002).
Sendo óbvia a desvelação de situações que confortavelmente não deveriam ser desocultadas, (aletheia grega), porque reveladoras da desordem socialmente imposta, sob forma repressiva, por corromper os brandos costumes da organização social e política da época, eleva-se-me o pensamento para o eco da mágica sedução da conduta socrática, do seu palco social, na polis grega e na humanização dada ao escravo, (não no sentido de piedade religiosa), mas pela valorização e respeito daquele enquanto pessoa, sob persona justa, apelativa à sua consciência.
O Homem justo (e o livre) é o que condena ou o que bebe a cicuta? Estaria Sócrates (469-399), como criminoso do Estado, condenado a ser livre daquela forma, num processo que teve como principal acusador, o homem forte do novo regime, Anito? Ou simplesmente se pretendia pôr fim ao inimigo da ideologia conservadora e dogmática que sustenta a predeterminação de normativas, a partir de modelos acriticamente interiorizados? (Pinto, 2002).
Na herança socrática está patente uma forte pedagogia educativa…com a denúncia do falso saber, doutamente ironizado.

O parto inacabado do verdadeiro Artista

Estamos simplesmente condenados a acreditar em Platão, discípulo bastardo do seu precursor, escalonando a ordem lógica deste, ao plano ontológico do homem, porque as teorias da reminiscência e das Formas nada têm de socrático, afirma-o também Aristóteles. (Pinto, 2002).
E saber até que ponto Platão reproduziu as ideias de seu percursor, é uma vexata quaestio (uma boa expressão).
O famoso mito da caverna platónico, relatado na República, explicita bem a actual panorâmica de ensino face à valorização das Artes, o modo como homens vivem nas sombras, longe da luz, isto é, ainda não se operou naqueles, o parto, o nascimento ao mundo Ideal, a emancipação! Por isso sentimo-nos mais á vontade em dizer, o homem das cavernas e não pessoa; assim como no direito romano antigo, os escravos eram homens, mas não considerados pessoas (patrícios).
Ter-se-ia respeitado o perfil de artista que habitava o pensamento socrático, herança do escultor Sofronisco, ou da importância do vislumbramento da luz do dia, estampado no rosto das crianças, por uma maiêutica doutrinária, difícil parto pedagógico, contributo de Fenareta?
Se tivesse a honra de o ter como aluno, certamente teria esses factos em consideração superior. De contrário estaria a ser ímpia e má conselheira desse jovem com a repressão de ideias impostas…como prestação de serviços forçados, da forma esclavagista da desigualdade social!
Uma vez abordando Sócrates, sofista da caricatura teatral aristofânica, democrata exemplar pela sua crítica aos maus governos, detenho-me socraticamente numa outra questão, será justo ou não, a organização social atentar à mentalidade e ao respeito pelo ethos da pessoa? Porque arte é est-ética, pelo bem e belo estarem ligados.
Talvez me detenha na analogia do “conhece-te a ti próprio, não no sentido de ignorância, mas enquanto homem inacabado” sustido por Kant.
Elevo a minha recordação, para o término de vários anos lectivos, quando termino as últimas aulas, com a frase “sigam uma conduta partilhada que vos permita fazer o possível para ser feliz”, considerando-a altruísta, como tal imbuída de senso e de agir social, sob a aplicação de um paradigma de Justiça.
Com a extinção do núcleo das artes, a tutela estará a designar o que verdadeiramente é útil ou justo para jovens criativos?
Provavelmente serei “bastarda” neste contexto, quando os ventos não favorecem a maré, e os náufragos, poderão vir a ser os alunos e é inegável que tenho bebido alguns goles de cicuta, que me permitem com mais celeridade ir ao encontro do meu Ideal. Tomando um caso concreto, por exemplo, a panóplia de licenciaturas que existem no actual Guia das Habilitações para a Docência e a incongruência de nenhuma perfazer o perfil do docente à leccionação das disciplinas do Curso aqui mencionado.
Detenho-me aqui no conceito aristotélico da comédia, como o é por exemplo a corrupção e total ausência do princípio do valor moral, da verborreia ministerial de domínio ético-político, face ao mérito educativo.


Ressoar da máscara social

Há que repensar no sentido axiológico da Forma-Acção da própria formação e é através da reflexão que a Filosofia se torna o caminho para conhecer o Homem, o Ser, a Pessoa.
O ressoar, da persona (per + sonare, do latim) é o eco da máscara que os antigos actores teatrais usavam em Roma durante a representação, o eco cristalino da voz do actor, espalhava-se pelos vastíssimos anfiteatros, essencialmente por causa das lâminas de metal, de que era munida, com o decorrer do tempo, a palavra persona, passaria a designar o papel representado pelo actor.
Um grande crítico teatral, fundador da escola peripatética, foi Aristóteles, propondo uma estética na Poética, decisiva para as tragédias renascentistas francesas. Tenta definir o Belo através de regras da ordem e da grandeza, da simetria, e da determinação, embora tenha empreendido no campo da estética a uma sistematização da doutrina platónica, por admitir o Belo, como universal e necessário, ideal absoluto, superior à realidade. (Bellei, s/d).
Na Grécia, era atribuída grande importância ao palco social, pela sua forma de expressão artística, nomeadamente pelo livre debate de ideias, aos poetas, dramaturgos, arquitectos, escultores, a eles se atribuía um grande reconhecimento social.
Encontro Theodor Adorno e Walter Benjamim (representantes da Escola de Frankfurt) numa discussão crítica em torno da obra de arte na contemporaneidade, porque vivendo numa era da pulverização dos modelos e categorias antigas do Belo, pela referência da obra estética na esfera industrial da cultura (Silva, 1997).
Para Adorno, a transformação ocorrente no universo da cultura, dá-se como um acidente repressivo.
Profundamente influenciado pelos alvores do Iluminismo, num dos vários momentos do seu pensamento, Kant, conclui que a beleza se manifesta como forma da finalidade de um objecto percebido, sem representar um fim.

Considero a Arte, como algo que transcende o Homem, pelo que ao trabalhar temas como o da animação sociocultural, e suas variadas formas de apresentação e de representação, faço-o com o intuito de inserção de forma sublime, artística, como o teatro, dança, música, escultura, pintura e outras formas de expressão artística, denominadas “Belas Artes” afastando-me do conceito de belo natural, não querendo, por ora, entrar nos limites de fronteiras entre a arte erudita, ou dos povos primitivos actuais; entre arte naif, e influência publicitária… (Fontes, s/d). Importa aqui reflectir no conceito aristotélico de arte, separando a beleza da arte, e de que o belo não pode ser desligado do homem, da personalidade da persona, da sua medida justa, da sua proporcionalidade.
Hoje, a máscara, afigura-se também com o sentido moral da personalidade, dando ao homem a possibilidade de possuir direitos, o que o caracteriza como pessoa, ser digno de direitos e de deveres (Amaral, 2002).

 


Revelação da Identidade

A tutela da educação portuguesa está anos luz de distância do conceito de justiça kantiano. Kant realça a ideia de justiça, entrelaçada com os conceitos de liberdade e de igualdade, culturalmente falando, do homem livre!
Tal como a razão prática, deve ser pura, também as manifestações artísticas alcançam a perfeição, quando se auto-reflectem, percebendo-se a sua essência, livre de todos os caracteres.
Talvez seja urgente um contrato social no ensino português!
Apesar das diferenças do pensamento filosófico kantiano, das de Rousseau, a liberdade que legitima o contrato social, embora este se situe numa visão histórica e social, em ambos há uma identidade, uma convergência da liberdade absoluta para a paz perpétua.
Trata-se de uma questão ética, de solidariedade entre os homens, Rousseau, no Contrato Social, forma sociedades, para enfrentar a adversidade da Natureza, tal como as acções sociais, precisam do bem comum e hoje as adversidades, colocam-se ao nível da própria humanidade (Filho, 2003).
Princípios de pedagogia que permanecem actuais, na medida em que Rousseau sustenta que a educação tem como finalidade ensinar a criança a viver e a aprender a exercer a liberdade na busca da sua essencialidade, evitando que a sociedade a corrompa (Souza, s/d).
Sendo parte de um todo, tento contribuir com a inclusão dos excluídos, através de práticas sociais, sejam elas através da Arte, porque o artista não copia a realidade, simplesmente a recria, expressando a sua visão do mundo, a sua Weltanschauung.
A emancipação do homem é aquela onde ele pode Ser e Exprimir-se autonomamente num Eu autêntico, portanto na dimensão da racionalidade estético-expressiva (Pinto, 1996).
Em conclusão, tal como o homem, no processo constante de aperfeiçoamento das condições da realização das suas possibilidades, também a Acção Social, e a Arte, buscam o Homem, através das diversas formas, no sentido de o apreender na totalidade, processo num princípio de realidade ainda inacabado…

 (Richter, M.; in: Persona Social e Intervenção Artística)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Amaral, I. (2002). O Direito à Palavra, s/d, In http://incomuns.home.sapo.pt/direitoapalavra.htm
Apresenta-nos o sentido ético, jurídico e moral da palavra, enquanto pertença da pessoa.

Barros, G. Rousseau e a questão da cidadania, s/d, In

http://www.hottopos.com/convenit2/rousseau.htm

Foca a educação, enquanto processo de abertura ao outro.

Bellei, R. Epítome de Introdução à Estética, s/d, In http://www.geocities.com/slprometheus/html/rb16.htm
Expõe a concepção objectivista da Estética para Platão e Aristóteles, et al, s/d.

Esquivel, L. (2003). O Livro das Emoções. O Som da Razão. Porto: Edições Asa.
Esta obra é uma espécie de diálogo entre emoção e pensamento.

Filho, A.(2003). Literatura e inclusão, s/d, In htp://www.geocities.com/argemirogarcia/textos/literainclui.htm
Centraliza os problemas inerentes aos inclusos, contextualizando a sua reflexão numa passagem pela história da Filosofia, com incidência nos pensadores da Escola de Frankfurt.

Fontes, C. Breve História da Estética, s/d, In http://afilosofia.no.sapo.pt/histestica.htm

 

Huxley, A. (2003). Admirável Mundo Novo. Lisboa: Livros do Brasil.

Romance extraordinário, causando uma inquietude pelo poder de análise dos caracteres humanos sendo uma lição para a alma dos indivíduos em si e como componentes do todo social, denúncia do perigo que ameaça a humanidade.

Marcuse, H. (1984). Eros e Civilización. Barcelona: Ariel.

Nunes, L. A Sociedade e a sua Velocidade, Filosofia da Educação: Influências Internas e Externas na Formação de Professores s/d, In Instituto Superior de Estudos Interculturais e Transdisciplinares. Portugal.

Retrata a “des-construção”do indivíduo face ao caos psíquico e social da globalização.

Oliveira, C. (1997). A Técnica no Pensamento de Marx: Reflexões em Torno de O Capital e Manuscritos Económico Filosóficos, s/d, In http://www.geocities.com/carlaoliveira.geo/marx.html
Centraliza-se na visão que Marx construiu acerca da relação técnica/trabalho e suas implicações.

Pinto, F. (2002). Sócrates Um Filósofo Bastardo. Lisboa: Instituto Piaget.

Obra de referência onde o autor revela de forma invulgar quem é o verdadeiro Sócrates, e a verdade em Platão e muito mais, devidamente fundamentado e justificado...

Pinto, F.(1996). A Formação Humana no Projecto da Modernidade. Lisboa: Instituto Piaget.
Fornece todas as pistas para a construção social e humana integral, partindo do sentido antropogenético da história até à reconstrução do projecto da modernidade, enquadrando-o na perspectiva pedagógica, tendo como suporte os pensadores da Escola de Frankfurt, entre outros. Enquadra-se na pedagogia, psicologia e na antropologia filosófica.

Rousseau, J.- J. (2003). O Contrato Social. (5ª ed.).Mem Martins: Publicações Europa América; p.126.
Obra de grande fonte de inspiração filosófica, versando o tema da organização da sociedade, apontando para uma meta ideal de convivência social onde a igualdade e a liberdade são tónicas dominantes.

Silva, J. (1997). Já não se sonha mais com a flor azul -A Estética de Theodor Adorno e Walter Benjamim, In http://ubista.ubi.pt/comum/silvajmadornobenjamim.html

Souza, A.(2002). Rousseau: A arte da Filosofia, Literatura e Educação. In http://www.unicamp.br/jmarques/cursos/rousseau2001/acs.htm.

Sproviero, M. Os Transcendentais e sua Negação - O Belo e o Bom/O Mal e o Feio, s/d, In http:www.hottopos.com/collatio/ostranscendentaisesuanegacao.htm
Importa referir o paralelismo e suas implicações existenciais.

 

 

 

 

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