Revista Recre@rte Nš7 Julio 2007 ISSN: 1699-1834      http://www.iacat.com/Revista/recrearte07.htm

 

A leitura e minha sede

José Jacinto dos Santos Filho
Mestrando em Teoria da Literatura – Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Professor da Rede Pública Estadual

 

Ler me tem provocado muita sede. Sim, uma sede que não sei se posso explicar para não cair no óbvio do dito. Meu dia é extremamente exaustivo, quanta leitura, quanta sede, quanto calor. Será o calor da expectativa de concluir a leitura? Ou será da sede que me atormenta? Não sei se terei respostas para tais incertezas. Mas continuo com muita vontade de beber água. Por que será que ela se evapora se a deixo exposta ao relento? Melhor bebê-la antes que ela se vá com o tempo.
Minha leitura! Ah! Minha doce leitura, que delícia! Que bom sua companhia! Acho que para aliviar este calor vou tirar minha roupa, assim poderei ler mais à vontade sem o desconforto disto que me cobre. Pronto! Acho que já estou mais fresco. Mas continuo com sede. Um copo, água. Será que tudo tem essa relação de dependência como a água e um copo? Preciso voltar a minha leitura e parar de fazer conjecturas.
Nossa! esse capítulo é imenso, como estou cansado em lê-lo. Só me deixa mais com sede. Está um poço sem fundo, não me leva a nada. O quê? Não escuto o que ele me diz. Será que não estou mais sabendo ler? Não, devem ser as janelas que estão fechadas; preciso de ventilação. Que brisa lá fora! Esse sol, então! Água, copo. Este texto está me dizendo que há leitor que se compraz com a leitura que, por sua vez, regozija-se com o prazer da produção desenvolvida pelo escritor. Mas nem sempre o prazer do escritor ao ter desenvolvido seu texto será o do leitor. Então, cabe ao escritor buscar este leitor que conjugue do mesmo enlevo em que a obra fora produzida. Nossa, que jogo! Preciso mais de água. Puxa! Peguei um copo sujo. Contaminei a água. Preciso ver um outro copo, um que esteja pronto para ser usado. A água potável é tão limpa. Mais salutar é a água do regato ou da fonte, pois não está manipulada. Só bebo da água que confio.
Esta leitura me está deixando tonto; tirando-me de órbita. Será que vou me perder? Tenho a sensação de que estou no meio de um labirinto. Quero mais água. O rio próximo a minha casa é de água cristalina, adoro me banhar nele. Suas margens. Uma encontra-se enfileirada de casas e a outra só em flores perfumadas e belas árvores. E, ao meio, suas águas. Quantas águas! Que prazer imaginá-lo agora quando paro um pouco a leitura.
Retomando minha leitura, às vezes me bate uma sensação de que estou sendo um leitor precipitado, falo isso porque há momentos em que passo por cima de alguns pontos importantes do texto, mas às vezes é porque este não me disse o que eu queria que me dissesse. Noutro, é por estar querendo ansiosamente chegar à conclusão do texto. Quero água. Mais água. Detesto texto que me considera um leitor sem conhecimento de mundo. Ou aquele texto cujo autor me trata como medíocre. Quero um texto que me mostre o mundo, não o defina. Que eu possa com ele sonhar em plena consciência de meus atos. Com esse texto, construo o mundo. Jung sonhou e fez o seu mundo. Nossa! Mas água. Fui ao médico, e esta sede não é diabetes. É calor mesmo. Scholes diz que “o mundo inteiro é um texto ”. Se o consigo ler, concordo.
Quando estamos diante de um texto que nos remonta as lembranças primeiras, belo será o cenário onírico por ele proposto. Minha sede fica amena. Sinto até vontade de fazer poesia. Mas temo fazê-la. Será isso fruto de alucinação? Mas como a água me conforta, tranqüilizo-me. E deixo vir minha leitura da leitura.
Um dia, fui ao Shopping comprar um livro e, com sede, fui tomar um copo d’água e, ao sentar-me, e começando a beber da água, e ler as preciosas páginas do livro, vi a minha frente uma linda figura que, de súbito, prendeu-me a atenção. Inquieto, volto à leitura. Mas o arroubo de meu outro texto me faz “ler-sonhar”, como declara muito bem Barthes . Assim, o meu devaneio poético se fez:

Teu cigarro

Cheguei,
Chegaste
Bela e escultural.
Teu corpo fala ao meu,
Que trêmulo de desejo
Sinto até o hálito de tua boca
Carnuda e doce.
Teus gestos e teu sorriso
Me provocam um torpor,
Deixando-me frio e quente
Numa febre louca de prazer.
Quem dera ter sido o cigarro
Que acendeste em teus lábios
E em brasa satisfazer
A vontade do trago
Prazeroso deste momento tão teu.

Acho que agora vou precisar de um banho gelado, pois um copo d’água não será o suficiente para aplacar o calor e sede desse momento. A leitura de um texto de prazer faz o prazer do texto nos tomar por inteiro. Não sei se racionalizando o texto serei tão feliz com sua leitura. Acho que isso fica para os Teóricos. Por vezes me pego como se eu fosse o texto. Parece estranho. Mas é tanta intimidade que se manifesta, que vejo nisso uma cumplicidade, uma animada cumplicidade. Não creio no texto que se arregimenta de pudores.
Quando leio, tenho sede de imaginação, fluem daí imagens felizes, mas é um sonho em vigília. Este sonho é construtor. Copo e água. Parece que começo a compreender sua relação. É de forma e conteúdo. Por que preciso do copo? A água não me basta? Não vou ousar aqui responder. O que quero mesmo é aplacar minha sede. E, quando o frio chegar, enrolar-me no tecido aveludado e com ele me aquecer.

 

SCHOLES, Robert. Protocolos de Leitura. Lisboa, ed. 70, 1991. p. 18.

BARTHES, Ronland. O Prazer do texto. São Paulo, Perspectiva, 2002. p. 47.

 

www.iacat.com

www.micat.net

www.creatividadcursos.com