Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834      http://www.iacat.com/Revista/recrearte056.htm

 

CRIATIVIDADE E PSICOTERAPIA:

TECENDO PARALELOS E DESTECENDO COINCIDÊNCIAS

COS ATIVADORES CRIATIVOS

 

Mary Lúcia Marinho Costa[1]

 

 

INTRODUÇÃO

 

          Existe, entre a criatividade e a psicoterapia, uma realidade intercomunicada, ou seja, existe algo implícito entre a criatividade e as práticas psicoterápicas que advém dos seus objetivos e que pode ser explicitado quando se utilizam os fundamentos, procedimentos e técnicas da criatividade e da psicoterapia. Para explicitá-lo e aprofundar o estudo dessa inter-relação, convém ter em mente as perguntas: para que serve a psicoterapia e a criatividade? Como funcionam? O que produzem? Elas promovem mudanças?  Quais são seus resultados?

 

De acordo com Edgardo Musso, 1999, em seu texto “Criatividade e Intuição”:

 

 “Não existe um trabalho de transformação sobre um paciente que nos apresente uma queixa a ser resolvida clinicamente, que não tome o desenvolvimento de sua capacidade criativa, que fuja do entendimento do por que lhe acontecem as coisas. Um conceito importante é que a “intenção terapêutica, mais que produzir o descobrimento de alguma verdade, produz subjetividade em nossos chamados pacientes”.

 

          Paralelos, relações e coincidências podem ser estabelecidos entre os processos que envolvem a criatividade (cognição, linguagens, expressividade, indicadores da criatividade atuante, bloqueadores, etc.) e os processos que envolvem as psicoterapias (energia vital, energia psíquica, cognição, memória, percepção, habilidades, emoções, sintomas, problemas, restrições, saúde, doença etc).

 

          Dessas relações e paralelos, pode-se concluir de modo amplo e geral, que criatividade e psicoterapia tenham como tarefa comum, inconfundível e inadiável provocar e promover as condições para o desenvolvimento e a manutenção da vida saudável em cada um e entre todos os seres humanos; a relação entre ativadores criativos e as técnicas psicológicas ativas atuam, muitas vezes, sobre o mesmo estrato mental e afetivo, promovendo mudanças desejáveis direcionadas ao bem-estar e ao desenvolvimento dos indivíduos.

 

          Os temas criatividade e psicoterapia indicam muitas oportunidades de pesquisa. Ou seja, há sempre uma fluidez muito grande de idéias e possibilidades ainda não pesquisadas, que permitem vários desdobramentos direcionados a objetivos terapêuticos em ambientes clínicos e não clínicos.

 

 

 A UTILIZAÇÃO DE ATIVADORES CRIATIVOS EM PSICOTERAPIA

 

É através da percepção criativa, mais que qualquer outra coisa,

que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida.

Em contraste, existe um relacionamento de submissão com a

realidade externa, onde o mundo, em todos os seus pormenores,

é reconhecido como algo a que se ajustar ou exigir adaptação".

D.W. Winnicott, O brincar e a realidade.

 

Por que e para que utilizar ativadores criativos em psicoterapia?

 

          Através da ativação criativa, é possível tornar disponível ao uso o potencial criativo das pessoas, tornando-as mais aptas a se desenvolverem de modo geral ou específico. Quer dizer, resgatando ou desbloqueando a fluidez, a flexibilidade, a agilidade mental, a capacidade de elaboração, de análise e de síntese, o uso da multicomunicação e expressividade, dentre outros indicadores da criatividade, as pessoas estarão acessando o “substrato mais firme para realizar qualquer aprendizado, formação ou desenvolvimento” (Prado, 1966).

 

          Isso é especialmente útil na situação clínica, pois paciente e psicoterapeuta poderão contar com recursos que lhes vão indicar novos enfoques e originais possibilidades para se cuidarem em suas dificuldades e necessidades.

 

          A expectativa quando utilizamos ativadores criativos em psicoterapia, é que haverá benefícios para o processo, para o cliente e para o terapeuta: a) ativando os recursos criativos saudáveis a ambos, investindo cada um na capacidade ilimitada para aprender e criar; b) ressignificando sintomas sem suprimi-los, utilizando e descobrindo a imensa reserva de energia psíquica que está latente em todos nós, ou seja, a parte plástica do nosso inconsciente que está à nossa disposição; c) apoiando técnicas e recursos psicoterápicos específicos, dentre outros benefícios.

 

          O Quadro 1, transcrito de Prado (1996) indica o impacto da estimulação da criatividade no contexto pessoal e profissional, dois lados da relação psicoterápica, e pode servir para a nossa reflexão.

 

Quadro 1. Impacto de la estimulación de la creatividad

 

En el desarrollo personal

En el desarrollo profesional

1.  Mente abierta, flexible y creadora

ü   Aprender a pensar y crear por si mismo.

ü   Integración de los múltiples estímulos sensoriales.

ü   Mente más libre y desinhibida: creación de nuevas ideas.

ü   Uso técnico de la imaginación com visualizaciones (como Einstein)

ü   Pensamiento categorial e integral (no parcial) que abarca la totalidad del objeto.

1.  Mente abierta al futuro: prospectiva

ü   Mente atenta y proclive a los cambios e innovaciones tan numerosas y radicales del nuevo milenio.

ü   Imaginación y flexibilidad aplicada al trabajo para ver las cosas de mod o nuevo y desde múltiples perspectivas.

2.  Corazón sensible y comprometido com:

ü   Un sentido estético y moral.

ü   La tolerancia a los opuestos y a las diferencias, que integradas, enriquecen.

ü   El optimismo esencial: siempre hay muchas salidas y alternativas para el imaginativo.

2.  Corazón empático y enérgico

ü   Sensibilidad tolerante y abierta a nuevas ideas y propuestas

ü   Aprecio de los colegas y sus diferentes visiones y alternativas

ü   Energía creadora para salir de apuros y callejones sin salida.

3.  Voluntad en múltiples propósitos, alternativas e ideas nuevas

ü   La constancia y persistencia son autogeneradas y mantenidas por la pasión de hacer algo original y único.

ü   Las muchas ideas generadas mantienen y crean nuevas ilusiones y propósitos: te hacen emprendedor en la vida.

3. Voluntad motivada y emprendedora

ü   Motivación intrínseca porla curiosidad, la liberdad de iniciativas y las nuevas ideas.

ü   Diversificación de intereses, propuestas y propósitos: nuevas empresas.

 

 

4.  Lenguajes integrados y claros

ü   El lenguaje verbal y visual-plástico se apoyan y clarifican.

ü   El lenguaje muscular y corporal favorece la comprensión lógica y simbólica de todo.

 

4. Lenguajes combinados

ü   Comunicación más clara, viva y eficaz por la combinación de dos o más lenguajes expresivos.

Prado (1996:15)

 

          Observar o impacto da estimulação criativa faz com que tomemos consciência da importância dos ativadores e da necessidade de estarmos continuamente apefeiçoando o seu manejo, para aplicação em âmbitos diversos.

 

 

OS ATIVADORES CRIATIVOS

 

          Estudos realizados por professores e alunos da Universidade de Santiago de Compostela, durante vários anos, permitiram sistematizar dez ativadores criativos. Foram descritos objetivos, procedimentos, resultados e sugestões para aplicação em diversos âmbitos. Tais estudos são objeto de dissertações de mestrado e teses de doutorado, interconectadas a diversas áreas e disciplinas.

 

“Los activadores creativos son básicamente estimuladores eficazes para desencadenar de modo fácil y operativo diversos procesos y actividades divergentes, innovadores e inventivas, que de un modo nuevo y original fomentan la utilización de todo el cerebro” (Prado, 1996).

 

          A finalidade geral dos ativadores criativos é desenvolver a criatividade global das pessoas. No entanto, cada ativador desenvolve algum aspecto específico e parcial da criatividade pessoal e profissional.

 

          De acordo com o ativador escolhido, observam-se as etapas, a justificativa, o sentido e exemplos para aplicações em diversos âmbitos. Prado (1996) recomenda que “en cada activador habrás de poner con tus propias ideas su justificación, sus objetivos y sus etapas y dedicar un amplio espacio a las aplicaciones varias con todas las ideas y detalles que se te hayan ocurrido, ahí como los productos y obras derivadas”.

 

          Portanto, para eleger um ativador e aplicá-lo a um determinado contexto, é preciso ter em conta o propósito, o objetivo a alcançar.

 

          O Quadro 2 descreve os ativadores criativos e seus objetivos e exemplifica aplicações em psicoterapia. Nem todos os ativadores citados foram experimentados na situação clínica. Nesse sentido, o que se mostra é um exercício analógico do estudo da criatividade aplicada a algumas abordagens clínicas.

 

Quadro 2. Utilização de ativadores criativos em psicoterapia – um exercícío analógico

 

Ativadores Criativos

Objetivos

Aplicação em psicoterapia: um exercício analógico

Torvelinho

de

Idéias

Ø   Fomentar a liberdade de expressão (fluência ideacional, agilidade e flexibilidade mental)

Ø   Desinibição grupal/interpessoal (clima de liberdade, de expressão de respeito, tolerância)

Ø   Desbloquear expressões advindas do sintoma, queixa ou outras dificuldades

Ø   Flexibilizar a atividade mental

Ø   Promover clima favorável ao vínculo/relação terapêutica

Jogo

Lingüístico

Ø   Romper a rigidez estrutural e significativa da palavra: flexibilidade semántica e morfológica das palavras.

Ø   Ampliar os recursos da linguagem como “comunicação terapêutica”

Ø   Jogar com os “significantes e significados” das palavras e frases no contexto clínico

Ø   Jogar com as palavras, sentimentos, sintomas e queixas para aproximar, conhecer e produzir melhores elaborações.

Decomposição

de Frases

Ø   Decomposição da frase: fomentar a análise e revisão dos processos que facilitam a fluência de pensamento e expressão.

Ø   Ampliar os recursos da linguagem como “comunicação terapêutica”

Ø   Trabalhar com as “expressões verbais típicas” do cliente, buscando aprofundar na estrutura linguística como possível determinante da “estrutura do sujeito”. Decompor, desconstruir, escrever, descrever, inscrever. Ressignificar criando novas “frases inspiradoras” para uma vida saudável.

Ø   Desenvolver a fluência mental e verbal

Análise Recreativa

de Textos

Ø   Desenvolver e estimular o processo de leitura implicando o sujeito crítico e criador do texto.

Ø   A partir de: “textos da vida do cliente, de vidas próximas ou distantes”, dos capítulos, parágrafos, frases, títulos, criar e recriar novas propostas para a leitura de si mesmo. Ademais de compreender melhor o “texto primitivo”.

Ø   Compreender o “texto, o pre(texto), o metatexto com os quais estamos implicados de modo particular e único, num universo intercomunicado.

Ø   Desenvolver a segurança e autonomia

Leitura Recreativa

de Imagens

Ø   Desenvolver o pensamento visual.

Ø   Compreender as entrelinhas e elementos da comunicação visual.

Ø   Transformar a mensagem e seu veículo visual em expressão verbal e em novos desenhos do mesmo.

Ø   Ampliar os recursos/objetivos das técnicas psicoterápicas que trabalham com imagens mentais e métaforas

Ø   Ampliar as possibilidades de leituras, associações livres e interpretações

Ø   Possibilidade de fazer trocas imaginativas com os personagens e vivenciar situações a uma distância segura em termos de espaço e tempo (acercar, dessensibilizar, ressignificar)

Busca Interrogatória

Ø   Potenciar e estimular a capacidade de descobrimento, de preocupar-se pela indagacão em um tema

Ø   Provocar a curiosidade sobre a dinâmica pessoal de sentir e viver os problemas/sintomas/queixas

Ø   Aprofundar no conhecimento de si mesmo, no potencial pessoal, buscando os recursos saudáveis que podem ser mobilizados em direção ao tratamento e à cura

Ø   Ensinar a formular perguntas divergentes e respondê-las de forma produtiva, buscando criar algo novo, original e único, com relação à problemática específica do cliente.

Solucão Criativa de Problemas

Ø   Acostumar-se a descobrir, planejar e resolver problemas de toda índole, adaptando-se à realidade ou transformando-a, na medida do possível.

Ø   Sensibilizar o sujeito ante os problemas: perceber defeitos, deficiências situacionais, comportamentos etc

Ø   Tentar “objetivar o subjetivo” inserido em muitas queixas/sintomas, de forma a torná-lo um problema apto a ser solucionado.

Ø   Buscar soluções para as dificuldades/sintomas/queixas, utilizando novas formas de percepção e enfoques de pensamento

Ø   Envolver o cliente na obtenção dos resultados, o que aumenta a auto estima e auto-conceito

Analogia Inusual

Ø   Desenvolver a associação lógica de fenômenos muito díspares.

Ø   Acostumar-se a ver a realidade intercomunicada, criando uma curiosidade permanente que fomente a compreensão, comparação, crítica e o poder de síntese.

Ø   Estimular as operações mentais relacionadas ao pensamento visual, figurativo ou imaginativo e raciocínio analítico/analógico.

Ø   Diagnóstico de situações conflitivas

Ø   Reelaborar as razões e proporções dos sintomas, sentimentos ou pensamentos vividos pelo cliente

Ø   Ajudar o cliente a conceber “mudanças fantásticas” em seu modo de pensar e viver

Ø   Ajudar o cliente a converter o “estranho em familiar” (viver as polaridades, por exemplo)

 

Metamorfose Total

do Objeto

Ø   Visualizar e estimular a fantasia e o pensamento visual

Ø   Flexibilização transformativa e agilidade frente ao processamento da realidade

Ø   Estimular a ação de intervenção criativa do sujeito sobre o que lhe ocorre, numa perspectiva de transformação e mudança

Ø   Buscar a dinâmica oculta atrás de um sintoma ou sentimento

Ø   Impulsionar visões mentais inovadoras e transformadoras para ressignificações úteis ao processo terapêutico

Proyecto Vital

Ø   Familiarizar o sujeito com uma prática sistemática que integre: idealizar, planejar, desenhar e executar pequenos projetos pessoais.

Ø   Estimular processos mentais, agindo sobre comportamentos acomodados sintomáticos, típicos de várias patologias

Ø   Organizar o “caos” (quando ele já não é mais benéfico), planejando, priorizando tarefas, num processo de auto-gestão de vida e qualidade.

Ø   Apoiar e estabelecer vínculos com a realidade em clientes muito dissociados.

Ø   Reformular, reprogramar, redefinir conceitos, atitudes, criando propostas que correspondem ao desejo.

Ø   Sintomizar com a missão pessoal e com a essência de viver e sentir criativamente

Ø   Exercitar a disciplina e a persistência, para o alcance dos objetivos de vida propostos

 

          Reconhecer que as potencialidades criativas podem ser desenvolvidas através de estimulação adequada, dar importância aos valores, às peculiaridades, à unidade de cada indivíduo, dentre outros aspectos, são pontos em comum entre a proposta dos ativadores criativos e de várias técnicas ativas utilizadas na situação psicoterápica.

 

 

A UTILIZAÇÃO DE TÉCNICAS ATIVAS EM PSICOTERAPIA

 

          O uso de técnicas ativas destinadas à situação clínica é bem antigo. Entre essas práticas, observa-se muitos pontos em comum, porque adotam o método de buscar dentro de cada sujeito, em suas vivências, em suas memórias, dando grande importância ao conceito e experiência de identidade.

Algumas dessas técnicas, como exemplo, o hipnotismo, a sugestão e a auto-sugestão, foram descritas e usadas inicialmente pela escola de Nancy, por Liebault e Bernhein, estando mais relacionadas à hipnose clássica. Por hipnose clássica, de modo sucinto, podemos entender a indução de transe formal associada às sugestões diretas.

 

          Erickson (1943) criou um método de trabalhar com hipnose, o qual denominou hipnose naturalista, em que utiliza uma seqüência de procedimentos e técnicas que incluem relaxamento, sugestão indireta e imaginação dirigida.

 

          Nas palavras de Erickson (1980) “a indução e a manutenção do transe servem para promover um estado psicológico especial, no qual os pacientes podem reassociar e reconhecer suas complexidades interiores e utilizar suas próprias capacidades em manejá-las, de acordo com suas experiência de vida”.

 

          Desse modo, as técnicas utilizadas por Erickson eliciam e potencializam os recursos internos dos pacientes, fazendo com que eles participem e também conduzam o seu processo de cura. A terapia ericksoniana se baseia em três letras M: motivar, metaforizar e mover  e em duas R:  responsividade e recursos.

 

O relaxamento, associado a outras técnicas, também é amplamente utilizado em psicoterapia.

 

          O relaxamento progressivo muscular, de Jacobson (1934), o treinamento autógeno de Schultz, década de 20, a técnica de meditação, de Happich, o psicodrama, de Moreno, a psicossíntese, de Assagioli, e, mais recentemente, os trabalhos de Eric Berne, Análise Transacional e os de Daniel Goleman, Inteligência Emocional, são alguns exemplos da grande utilização de técnicas ativas em psicoterapia.

 

          Uma característica da psicossíntese Assagioli (1982)  “é o uso sistemático de todas as técnicas psicológicas ativas existentes, que são dirigidas a: 1) transformação, sublimação e direção das energias psicológicas; 2) fortalecimento e amadurecimento de funções fracas ou subdesenvolvidas; 3) a ativação de energias superconscientes e a estimação de potencialidades latentes”

 

          Já Daniel Goleman reuniu critérios psicobiológicos na síntese de recursos diagnósticos e técnicas denominada Inteligência Emocional, que permitem várias contribuições ao trabalho psicoterapêutico, conforme avalia Edgardo Musso (1999), em seu texto “Criatividade e Intuição”. Diz o autor que a inteligência emocional sintetiza técnicas, muitas delas bem simples, tomadas da sabedoria popular para saber lidar, identificando, controlando e administrando nossas emoções.

 

          A sabedoria popular se expressa através de muitas linguagens e é uma forte confirmação de que, ao utilizarmos o potencial criativo e intuitivo, estaremos, ao mesmo tempo, desenvolvendo o conhecimento, a aceitação e a administração das leis do inconsciente individual e coletivo.

 

          Ainda dentro desse enfoque, a utilização de imagens e metáforas em psicoterapia é sumamente importante, conforme destacaremos a seguir.

 

                    

IMAGENS E METÁFORAS

 

          Imagens e metáforas são utilizadas, desde a antigüidade, em diversas culturas, para diagnosticar, prevenir, tratar e curar os distúrbios que acometem a saúde das pessoas. Freud utilizava metáforas em suas interpretações psicanalíticas e é citado por Epstein (Imagens que curam, p. 17) que o único caso de cura narrado nos 24 volumes de suas obras completas se deu através de uma técnica utilizando imagens. O caso foi relatado por Freud, em 1899, no livro “Interpretação dos Sonhos”.

 

          Bettelheim (1984) sugere três razões para que Freud tenha usado metáforas ao explicar a natureza da psicanálise. Primeiro, a psicanálise utiliza a interpretação imaginativa para explicar as causas escondidas por detrás dos fatos. Segundo, por causa do recalcamento ou da censura, o inconsciente se revela através de símbolos e metáforas, falando em sua própria língua metafórica. E, finalmente, as metáforas são capazes de tocar as emoções humanas (Bauer, 1998).

 

          Para Freud (1923) “pensar por imagens é somente uma forma incompleta de se tornar consciente”. De algum modo, também, está mais perto do processo inconsciente do que pensar por palavras...” (Freud, 1923).

 

          Assim, através da associação livre, o cliente é encorajado a explorar e elaborar uma representação de um sentimento, questão ou problema, numa forma de pensar (imagem sensória) que está mais próxima do processo inconsciente. E há uma integração com a metáfora da imagem (processo primário) e da palavra (processo secundário). Assim, se o processo primário do pensamento é expresso essencialmente através de uma linguagem de imagens e o processo secundário é expresso através de palavras, então a metáfora pode ser vista como uma integração dos dois processos, como uma “ponte”.

 

          Roberto Assagioli utiliza metáforas e imagens, em sua psicossíntese, associadas a diversas técnicas ativas.

 

          Jung era adepto da teoria da imaginação ativa, dos símbolos e do trabalho com a interpretação dos sonhos, em que dava enorme importância às metáforas.

 

          Milton Erickson foi especialmente hábil na arte de criar e usar metáforas em seus atendimentos com psicoterapia breve e hipnose. Utilizava estórias, casos, piadas, enviando ao cliente metamensagens – mensagens sutilmente embutidas dentro do conteúdo das narrativas. Assim, o cliente podia absorver as semelhanças com o seu próprio caso, problema, dificuldade, mobilizando seus recursos internos a agirem em seu favor. O elenco de técnicas hipnóticas utilizadas por Erickson aumentava a eficácia do uso da metáfora, “afrouxando a atenção da mente consciente e sua censura (que ficam absorvidas pelo uso da técnica hipnótica), enquanto as mensagens são dirigidas à mente inconsciente, que está muito mais próxima do pensamento por imagens do que o pensamento por palavras” (Bauer, 1998).

 

          A metáfora é uma linguagem comum a todas as pessoas. É uma forma natural e espontânea de estabelecer analogias, de expressar sentimentos, de conectar a experiência interna às vivências externas de forma criativa e imaginativa.

 

          Porém, em psicoterapia, é muito comum a utilização do corpo como linguagem metafórica, como exemplo, quando o cliente instala ali um sintoma, que fale do sentimento que não consegue ou não sabe comunicar de outra forma.

 

          Desta forma, o porquê de se utilizar imagens em psicoterapia, também pode se fundamentar em Hanhemmann.

 

          “La imaginación puede producir una perturbación suficiente de la fuerza vital, dando origem a una enfermedad grave, la cual puede curarse por el mismo medio”. “Una afección dinámica más débil es destruida permanentemente en el organismo vivo por outra más fuerte, si la última (aunque diferente en espécie) es muy semejante a la primera en sus manifestaciones” (Hahnemannn).

 

          As imagens e metáforas são extremamente úteis ao psicoterapeuta e ao cliente, permitindo que se estabeleça entre os dois a comunicação adequada ao processo terapêutico.

 

          Utiliza-se a metáfora para interpretações, na forma de analogias. Utiliza-se também a mesma metáfora utilizada pelo cliente, ressignificando-a positivamente.

 

          As metáforas e imagens colocam o cliente a uma distância emocional segura em relação ao material a ser trabalhado. Ajuda o processo terapêutico a caminhar no ritmo de cada cliente e respeitar sua inteligência e auto-estima, fazendo com com que ele se torne parte ativa, ao mesmo tempo que integra muitos elementos necessários a uma boa ressignificação.

 

          A habilidade do psicoterapeuta em criar uma metáfora precisa estar revestida da percepção da proporção suficiente e necessária ao que está sendo trabalhado. Nem mais nem menos.

 

          “Como no sonho, a metáfora consiste do significado manifesto em conjunto com o significado latente, e particularmente a jornada criativa entre eles. É importante para a psicologia reconhecer o componente criativo feito pelo indivíduo para criar uma metáfora”.

 

          Outra relação importante em psicoterapia é a que se estabelece entre as imagens e a emoção, que abordaremos no próximo item.

 

 

IMAGENS E EMOÇÃO

 

          O uso de técnicas terapêuticas com imagens é importantes para regular processos emocionais, servindo tanto para desencadear estados emotivos como para controlá-los. Inclusive, a imagem e a emoção se apóiam no mesmo substrato cerebral, ou seja, o hemisfério direito onde são tratadas as informações figurativas e o conjunto da vida emocional.

 

          Em Campos (1996) há uma síntese de estudos feitos por Plutchik (1984) o qual afirma que a relação entre imagem e emoção existe porque:

Ø      as imagens são parte do mapa verbal que fazemos do ambiente para nos adaptarmos com maior êxito.

Ø      as imagens refletem estados emotivos

Ø      as imagens podem intensificar esses estados emotivos

Ø      as imagens podem reduzir a intensidade desses estados emotivos

Ø      as imagens podem ajudar o sujeito a ganhar destreza sobre uma situação

 

          Decorrendo das conclusões de Plutchik (1984), podemos considerar que as imagens permeiam a nossa vida objetiva e subjetiva e que as emoções estarão contactadas nesta via de comunicação. Dessa forma, poderemos ter comunicações com muitos ruidos e bloqueios entre as imagens e as emoções, como poderemos ter também um canal desobstruído, onde imagens e emoções possam fluir livre e saudavelmente, colaborando para que a pessoa obtenha êxito em alguma situação especial.

Estudos de Denis (1984) classificam as imagens de acordo com os sentidos com que se relacionam (imagens visuais, auditivas, táteis, cinestésicas, olfativas e gustativas) ou em função das características extrínsecas da imagem, das condições de sua produção e de suas propriedades intrínsecas.

 

          Assim, o sentido de se utilizar imagens em psicoterapia se conecta a grande possibilidade de se trabalhar as emoções e sentimentos, ressignificando positivamente tanto as imagens quanto as emoções que lhes fazem companhia.

 

          As imagens são como veículos que transportam informações, emoções e sentimentos; podem viajar no passado, no futuro ou no presente; em estado de vigília ou no mundo dos sonhos e também nas terras do consciente e do inconsciente pessoal e coletivo.

 

          As técnicas que utilizam imagens aproveitam as relações entre emoção e sentimentos; com a classificação em relação ao órgão dos sentidos com que se relaciona; com o tempo; com a atividade consciente ou inconsciente; com o conteúdo das imagens dos sonhos ou da vida manifesta. Dentre elas, citamos: imaginação ativa (Jung); imaginação dirigida (Erickson e outros); psicossíntese (Assagioli) e a psicanálise, nas imagens produzidas pela associação livre.

 

          O processo para utilizá-las com objetivos terapêuticos quase sempre se apóia em padrões ou guias, previamente desenhados para cada cliente.

 

          Em psicoterapia, trabalhar as imagens dos sonhos nos oferece auxílio, orientação, esclarecimento, pois, concluindo com Stanford (1988) “A cura é aventura de cooperação entre a personalidade consciente e o inconsciente”.

 

 

O INCONSCIENTE E O SONHO

 

          Na teoria psicanalítica, duas proposições são fundamentais a respeito do funcionamento mental: a lei da causalidade psíquica e a proposição de que a  atividade psíquica é principalmente inconsciente. Dessa última, resultou o termo “psicologia profunda”, isto é, psicologia do inconsciente, para fazer referência à psicanálise, durante muitos anos. “Era uma psicologia que dizia respeito, principalmente, aos conteúdos e processos da mentes que são impedidos de atingir a consciência por alguma força psíquica” (Brenner, 1975).

 

          Em seus estudos, Freud dividiu os fenômenos mentais inconscientes em dois grupos: pré-consciente e inconsciente. O primeiro, denominado pré-consciente, compreende pensamentos, lembranças, etc. que podem se tornar conscientes por um esforço de atenção, sendo mais fácil o seu acesso à consciência. O segundo, o inconsciente, requer um considerável esforço para que os elementos psíquicos se tornem conscientes e, sendo inconscientes, exercem significativa influência no funcionamento mental, manifestando-se em muitas atividades conscientes.

 

          Um grupo de fenômenos que podem demonstrar como as atividades inconscientes podem influenciar nosso comportamento consciente são os sonhos, os lapsos da linguagem, da escrita, da memória e similares, conhecidos como atos falhos. Também nos sonhos, Freud demonstrou que existem pensamentos e desejos ativos, e assim pode estabelecer,  como regra geral, que, quando se produzem sonhos, estes são provocados por uma atividade mental que é inconsciente para a pessoa que sonha.

 

          Nos sonhos, os processos inconscientes da mente são revelados de forma  clara e acessível ao estudo. “Os sonhos são, verdadeiramente, uma estrada real que leva aos recessos inconscientes da mente” (Brenner, 1975).

 

          Além de favorecer a compreensão dos processos e conteúdos mentais inconscientes em geral, os sonhos revelam principalmente os conteúdos mentais que foram reprimidos ou, de qualquer forma, excluídos da consciência e de sua descarga pelas atividades defensivas do ego.        

 

          Em psicoterapia, “as atividades mentais inconscientes podem ser examinadas pelos seus efeitos, enquanto expressos nos pensamentos e sentimentos do paciente, como ele nos comunica, e em suas ações, que podem ser relatadas ou observadas“ (Brenner, 1975).

 

          Como nos sonhos, alguns lapsos são claros o bastante para nos indicar o significado inconsciente e, em outros casos, técnicas psicoterápicas e criativas podem ser utilizadas para favorecer o acesso dos conteúdos inconscientes à consciência e na interpretação e elaboração do material acessado.

 

 

OS PROCESSOS PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO

 

          As expressões processo primário e processo secundário são usadas na literatura psicanalítica para caracterizar dois fenômenos relacionados.

 

          Processo primário refere-se ou a certo tipo de pensamento que é tipico da criança cujo ego ainda é imaturo ou ao modo pelo qual a energia do impulso, quer libidinal quer agressiva, se desloque e descarregue no id ou no ego imaturo. O processo primário é considerado o modo original ou primário pelo qual funciona o aparelho psíquico.

 

          Processo secundário refere-se a um tipo de pensamento característico do ego maduro ou a processos de associação ou mobilização da energia psíquica que ocorrem no ego maduro. O processo secundário desenvolve-se gradativa e progressivametne durante os primeios anos de vida.

 

          Em muitos casos de enfermidade mental grave, é evidente o pensamento do processo primário. No entanto, ele não é patológico em si. A anormalidade está na ausência relativa ou no desaparecimento do processo secundário, mais do que na presença do processo primário. O predominio ou a atividade exclusiva do processo primário é que constituem uma anormalidade (Brenner, 1975).

 

          No pensamento do processo primário, é frequente a representação por analogia ou alusão e parte de um objeto, lembrança ou idéia pode ser usada para representar o todo e vice-versa. Além disso, vários pensamentos diferentes podem ser representados por um só pensamento ou imagem. A representação verbal não é usada no pensamento de processo primário de maneira tão exclusiva quanto no secundário.

 

 

CONCLUSÕES

 

          As técnicas ativas buscam, de modo geral, transformar, sublimar e direcionar as energias psicológicas; fortalecer e amadurecer funções psíquicas/psicológicas fracas ou subdesenvolvidas e ativar as energias super-conscientes e estimular as potencialidades latentes.

 

          Os transtornos/distúrbios psíquicos, psicosomáticos, psicossocias etc. têm nos mesmos cenários a sua fonte de pressão para a formação e manutenção do sintoma.

 

          Os ativadores criativos podem estimular o potencial criativo das pessoas, atuando principalmente sobre o pensamento, expressões e comportamento. Eles transformam a maneira habitual de pensar, expressar e agir, fazendo emergir a originalidade, a fluidez, a flexibilidade, a análise, a síntese, a abertura mental, as múltiplas linguagens e expressividade, dentre outros indicadores da criatividade.

Os inibidores ou bloqueadores da criatividade se definem a partir dos fatores psicológicos, sócio-educativos, grupais, organizacionais e sócio- culturais.

 


 

CRIATIVIDADE APLICADA ÀS PSICOTERAPIAS

 

          Serão apresentados, a seguir, três exemplos da utilização de ativadores criativos, focalizando a análise, a discussão e os resultados.

 

TORBELLINO DE IDEAS – T.I.

 

          A partir da técnica “Brainstorming”, de Alex Osborn, 1953, esse ativador criativo foi desenvolvido por David de Prado Diez e ficou conhecido como método docente, a partir da publicação de seu livro, em 1982: El Torbellino de Ideas. Hacia una ensenãnza más participativa. Depois, seu autor promoveu contínuas aplicações em outros âmbitos, desenvolvendo novos estudos. Hoje, o T.I. já está na sua quarta geração de estudos e pode ser aplicado como técnica para desenvolver a fluidez do pensamento e gerar idéias originais, em diversos âmbitos e com variados propósitos.

 

          Para utilizar esse ativador criativo, leva-se em conta que o pensamento é livre e precisa ser expresso sem nenhuma censura. Para impedir a crítica, no momento de geração de idéias, é necessário proceder com rapidez, sem refletir demasiadamente ou discutir interna ou externamente, registrando todos os pensamentos e sentimentos que queiram tornar-se conscientes. Somente na etapa posterior é que se permite analisar o conteúdo de nossa mente, distinguindo entre os pensamentos próprios e os apreendidos pela educação e meio em que vivemos.

 

          Quando se planeja uma sessão de T.I, grupal ou individualmente, é necessário colocar o problema, o objetivo, projeto etc. de forma simples e objetiva, na maioria das vezes, como uma pergunta divergente: por quê?; para quê?; como?; o quê passaria se fosse de uma outra forma?

 

          Os objetivos que podem ser alcançados pelo ativador são basicamente: obter muitas, variadas e originais idéias, em um tempo muito pequeno, sobre os mais variados temas ou questões e adquirir fluência ideacional e agilidade mental através da promoção de idéias. Além desses, muitos outros são alcançados como desenvolver a escuta, a participação ativa, a desinibição, novas alternativas e enfoques de se tratar um problema, criar um novo produto, dentre outros.

 

          Em psicoterapia, esse ativador é muito útil para desbloquear conteúdos censurados, para objetivar sensações ou emoções, dando-lhes nomes e contextos, o que permitirá, posteriormente, o trabalho de análise, conscientização, favorecendo elaborações e mudanças de enfoque.

 

          O T.I. pode ser utilizado juntamente com outras técnicas, em etapas do diagnóstico, do desenvolvimento e fechamento do processo psicoterápico.

 

Caso UM – APT

 

          O ativador criativo torbellino de ideas foi utilizado em vários momentos do tratamento. A pr. mencionava repetidamente medo e cansaço como sensações indefinidas e perturbadoras,  que acompanhavam seu dia-a-dia e também as suas noites, através dos sonhos. A pr. foi incentivada a trabalhar com as duas sensações, uma a cada vez, em sessões distintas. Através de um jogo ou exercício de associações de palavras, imagens, objetos que lhe chegassem ao pensamento, tudo deveria ser registrado na folha em branco, sem censura, nem críticas, apenas deixando acontecer. Em momentos posteriores, trabalhou-se o desdobramento de algumas dessas imagens, pensamentos e metáforas priorizadas pela pr., avaliando, reelaborando e ressignficando, de acordo com vivências associadas.

 

          Dessa forma, registrar as sensações no papel possibilitou objetivar, prender, nomear algo indefinido e perturbador, como a pr. descrevia a sensação de medo e cansaço. Assim, foi possível, analisá-los sob vários enfoques, incluindo alternativas para ressignificá-los.

 

 

LEITURA RECREATIVA DE IMAGENS

 

CASOS APT, JHBJ, BMGT, CJPT

 

          Imagens fazem parte do mundo interno e externo de todas as pessoas. São representações, símbolos, significantes e significados que envolvem conteúdos de informações, de mensagens, de fatos etc., em todas as épocas da existência história, física e psíquica das pessoas.

 

          Além disso, as imagens formadas pela imaginação do que ainda não existe: objetos, formas, situações, idéias, etc. são precursoras do futuro.

 

          Podemos interagir com imagens representando (com diversas expressões) a realidade do que se observou; evocando a emoção produzida por uma vivência passada e imaginando novas situações, objetos, formas etc. que ainda não existiam até então ou transformando algo já existente.

 

          A utilização do ativador Leitura recreativa de imagens permite alcançar os seguintes objetivos, resumidos por Charaf (1999):

1. Familiarizar-se com a linguagem plástica, qualquer que seja sua manifestação, a fim de compreender as mensagens e informações contidas.

2. Aguçar a percepção, com o fim de encontrar mais de uma mensagem, contida na imagem de uma história ou informação.

3. Evocar as imagens mais próprias e autênticas, com o fim de expressar situações e realidades pessoais.

4. Transformar, a partir de técnicas de expressão plástica (colagem, fotomensagem, trabalhar com distintos materiais, jogar com as cores etc) a mensagem e seu veículo visual em novos e originais desenhos e temas (recreação)

5. Fundir texto escrito e visual, expressando, através de recursos literários (texto, diálogo, poesia, jogos lingüísticos, adivinhações, acrósticos, refrões etc), o conteúdo de uma imagem.

 

          Para desenvolver o processo de trabalho com o ativador leitura recreativa de imagens, seguem-se os passos:

a)      Seleção do tema: um quadro, uma fotografia, um anúncio publicitário, um sonho, etc.

b)      Descrever, de forma objetiva e detalhada, todos os elementos que integrem a imagem selecionada: cores, formas, textura, espaço, época, ambiente etc. Analisa-se cada elemento encontrado.

c)      Buscar a mensagem central, explicitando e descrevendo verbalmente o tema ou situação que a imagem transmite.

d)      Visão subjetiva, inferencial: refletir sobre o sentido subjetivo e pessoal que pode ter a imagem selecionada.

e)      Expressão recreativa e transformadora: consiste na interação e intervenção sobre a imagem: agregar, desordenar, recortar, combinar, modificar, transformar ou que queira, conforme o objetivo particular.

 

          Em psicoterapia, adaptou-se o ativador leitura recreativa de imagens para trabalhar cenas/imagens temidas ou causadoras de sensações desagradáveis. Essas imagens/cenas foram recriadas, ressignificado o seu conteúdo, com sentimentos de humor, busca de enfrentamento gradativo (coragem), dessensibilização fóbica (enfraquecimento da cena temida) e criação de possíveis visões inspiradoras para o futuro.

 

          A recriação das cenas/imagens também se estendeu a outros contextos e relacionamentos dos pacientes, através de associações e comparações.

 

          As cenas e imagens agradáveis também foram trabalhadas, explorando e reforçando positivamente os aspectos saudáveis das mesmas (reforço do ego), numa metamensagem de cultivar, nutrir e reservar energias psíquicas que poderiam ser utilizadas sempre: durante o tratamento e em outras situações da vida dos pacientes.

 

          Foram incentivados, durante as sessões, o desenho e a pintura, com o objetivo de aumentar os recursos de expressão das cenas, imagens e sentimentos trabalhados, conforme p. 85-87e outros anexos deste trabalho.

 

          Mesclada aos ativadores torbellino de ideas e analogia inusual,  que contribuem para recuperar a fluidez e a flexibilidade de idéias e a capacidade associativa e comparativa, leitura recreativa de imagens traz para o contexto psicoterapêutico a possibilidade de estimular, modificar, transformar e mudar os conteúdos associados às diversas imagens que compõem as cenas dos problemas, queixas ou restrições dos pacientes.

 

Caso DOIS – JHBJ

 

Projeto vital

 

          A proposta desse ativador - melhoria da qualidade de vida e conscientização das ações que precisamos tomar diante de situações específicas que nos preocupam – é muito motivadora para quem o pratica, envolvendo-o consigo mesmo e com a sua vida.

 

          Esse ativador está desenhado para evitar a acomodação mental, desenvolver planos para o presente ou o futuro, assumir a responsabilidade das ações que precisam ser feitas e concluídas, estruturar, por ordem de preferência o que se pretende realizar, criar novas propostas em benefício próprio e da sociedade.

 

          Por baixo desses objetivos, estaremos trabalhando aspectos da motivação intrínseca e extrínseca, da auto-estima, da confiança pessoal e da capacidade de nos envolvermos com nossas dificuldades mais específicas, para reestruturá-las dentro de novos decisões.

 

          A idéia básica desse ativador consiste em se trabalhar com um desejo ou ilusão formulada de maneira mais objetiva possível. Levam-se em consideração todas as restrições que impedem a realização do desejo, bem como todas as condições, capacidades e habilidades favoráveis para concretizá-lo.

 

          Desse modo, o que se vê é a identificação com o desejo e uma mobilização muito grande para realizá-lo, o que confirma que “quando se põe em marcha um projeto vital, se tem ilusão, talento e vontade de lutar por aquilo que se necessita(Prado, D.)

 

          Em psicoterapia, esse ativador foi especialmente útil no caso “DOIS - JHBJ”, paciente de 57 anos, engenheiro acostumado a desenvolver e executar “projetos” relacionados à sua profissão, o que sugeriu o exercício analógico com o ativador criativo “projeto vital”, dirigido ao seu próprio eu.

 

          Além das dificuldades decorrentes da crise “previsível” para a faixa etária do paciente, uma dificuldade singular marcante e persistente no caso é a do pr. se colocar numa atitude prejudicialmente crítica, agindo como um verdadeiro juiz, com relação à sua vida passada e presente (objetiva e subjetiva) e uma atitude derrotada quanto ao futuro. Ele acreditava principalmente em suas incompetências e fracassos e via o futuro como não merecedor de projetos. Do outro lado do conflito, uma sensibilidade e ternura lhe assaltavam os pensamentos e atitudes, especialmente quando se embriagava, o que lhe permitia expressões artísticas, criativas e inclusive de choro.

 

          A angústia existencial instalada favorecia estados depressivos oportunistas, mesclados à ansiedade, sensação de vazio e de sentir-se inabitável, conforme o paciente definia suas dificuldades. O pr. vivia um grande movimento de emoções que oscilavam em vários graus, conforme as falas reescritas de suas sessões psicoterápicas, que estão nas p. 90-93 e nos Anexos.

 

          A reorganização do contato consigo mesmo e com o seu potencial mais favorável, o criativo, foi feita gradativamente, como um projeto de vida, que, pouco a pouco, proporcionou novos objetivos, privilegiando, preferencialmente, a descoberta e a realização do desejo.

 

          Com esse propósito, a pergunta Qual é o seu desejo? Mobilizou várias imagens passadas, presentes e futuras para o pr. e que traziam lembranças carregadas de sentimento e emoções diversas, como raiva, menos valia, realizações criativas, etc.

 

          As respostas - convergentes e divergentes - dadas pelo pr. foram trabalhadas em diversas sessões, até que ele se viu frente a uma resposta que considerou profundamente pertinente às suas buscas.

 

          No trabalho desenvolvido, foi possível redimensionar aspectos da angústia existencial, projetar uma visão inspiradora para o presente e o futuro, cuidando passo a passo da objetivação das imagens surgidas à vida real.

 

          A seguir, estão reescritas algumas expressões verbais do pr., em sessões realizadas no período de março de 1999 a maio de 2001.

 

          Nas falas do pr., podemos conhecer suas analogias, associações livres, os símbolos trazidos através das imagens da sua vida objetiva e subjetiva. À medida que ele também as re-conhecia no exercício da escuta ativa de si mesmo, conseguia, pouco a pouco, fazer uma nova leitura de tudo que envolvia a sua vida, tentando novos direcionamentos.

 

Expressões criativas de JHBJ, 57 anos.

 

“Até que ponto perder a criatividade está relacionado ao fato de se estar morrendo por dentro?”

 

“... veio a seguinte imagem: Eu estava lúcido, não havia bebido nada e vi um velho chorando. Eu me aproximei e dei um abraço profundo nele. E eu também chorei sem ter bebido...

 

... o que eu mais desejo é amar, é saber amar. Quando eu souber amar, vou conseguir trabalhar, me ouvir, me sentir habitável.

 

Eu quero saber o que é o amor. O amor me incomoda. Diante dele eu fico num beco sem saída. Não sei o que fazer... detesto que me toquem e gosto de tocar. São tantos sentimentos complexos que me deixam aflito. A quem me dar? O que retribuir? Aí uso o artifício de que estou cansado, de saco cheio. Sei o que é o amor quando estou conquistando. Quando tem que viver o amor eu já não sei.

 

Quando eu resolver a minha questão “amor” eu vou voltar a criar. Tudo é e foi criado pelo amor.

 

O amor que eu sinto pela A. é o meu desejo pela criatividade dela... pela poesia dela, pela pintura que ela pinta, pelo som que ela toca no violão ...pelo quadro de um traço livre, solto, longo...

 

Hoje me sinto um zero à esquerda, tudo me incomoda e tudo é um emaranhado de “incômodos”. Me sinto infeliz.

 

O meu desejo é reaprender a amar. Eu desaprendi a amar.”

 

“...é fantástico. Estou aprendendo a fazer uma leitura de mim mesmo. O que eu sou, o que vivi, o que quero viver... Li um livro do Rubens Alves, Cenas da Vida. Li de “um gole só”. Me vejo nas cenas do livro e ele responde aos meus questionamentos. Eu estou me sentindo sozinho, mas é uma solidão diferente, que me faz perguntas: por que você é intolerante? o que te desencanta?

 

... estou tendo emoções espontâneas e me permitindo expressá-las.

 

... interessante também são as portas. Tenho sonhado com portas, encontrado muitas portas antigas, de madeira anciã. Outro dia serrei uma porta de cedro de cem anos. E, enquanto eu serrava, a madeira deixava exalar o perfume do cedro. Um perfume preso e mantido há cem anos... Estou fabricando caixinhas, baús com as portas. Fiz uma para F., minha filha. Outra para S., minha neta. Agora estou fazendo uma para L., meu filho. A caixinha do L., meu filho, está me dando muito trabalho ... A madeira se rompe, eu remendo. Exatamente como é a minha relação com L...., engraçado, esta associação das caixinhas com os baús... Nos armazéns arábes existia uma grande caixa de madeira, com tampa e divisões internas para guardar mantimentos: arroz, açuçar, feijão ... as caixinhas que faço são réplicas das caixas dos armazéns arábes. Dentro da caixa eu sempre deixo algo escrito para a pessoa que a ganhará... São provisões, segredos, valores ... “

 

“...estou numa procura por relógios. Achei um relógio com os sons da minha infância ... Gozado, eu estou procurando por relógios do passado. Relógios são “um negócio filho da puta”. Tocam as mesmas coisas a vida toda. Tenho encontrado os relógios em Barbacena. Engraçado, eu estou procurando “não sei o quê“. Parece que estou olhando cada vez mais, para as minhas lembranças, para as minhas reminiscências ... É interessante... é como se estivesse faltando algo. Assim como se eu fosse para a mesa e voltasse com fome. Estou sempre procurando alguma coisa no meu passado... É uma janela velha, um relógio ... Creio que o meu passado está muito doente... Sinto que alguma coisa me liga ao meu pai... será que é isto? ...Sinto também que eu não sei me perdoar e aos outros. Eu finjo que perdôo os outros, mas fica a raiva, a mágoa, o ódio. E isso não me faz bem . Sei lá, eu sinto é “porra nenhuma”. Eu me confundo até com os meus sentimentos e fico me punindo. Punir é um ato duro. Punição é como os relógios, ficam repetindo a mesma coisa a vida toda”.

 


[1] Psicóloga. Mestre em Criatividade Aplicada pela Universidade de Santiago de Compostela.

 

3º ciclo de formación en Creatividad acorde con la C.U.E.

               > Master profesional (abierto a todos)
               > Master Académico (para titulados)
               > Doctorado (para masters)

Julio 2007. Encuentros Creadores. Escuela de verano de la Creatividad.    www.micat.net