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Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm |
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A MARCA DA DIFERENÇA DO SER “Uma abordagem psicanalítica” Celso
Luiz Mastrascusa Professor.
Mestre em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGEdu-
UFRGS. Especialista em Educação Psicomotora ESEF-UFRGS. Professor
do Centro Universitário Metodista-IPA. Professor
da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, RS, BR. celsolm@hotmail.com - Porto Alegre, RS, BRASIL. INTRODUÇÃO Há
vários anos desenvolvo meu trabalho com crianças. Crianças da Educação
Infantil, tem sido por muito tempo minha vivência
teórica e prática. Dentre
tudo que posso assinalar desta experiência com crianças é que o movimento, a
ação está colocada como prioridade em seus afazeres, ou seja, ir de lá para
cá e de cá para lá, pode ser para nós, adultos, algo que certamente não tem
muito sentido, parecendo desorganizado, uma verdadeira "bagunça".
Do ponto de vista da criança, coloco como sendo a marca da diferença. Diferença
de velocidade, de força, de espaço, de tempo, de conhecimento, de
agressividade, de expressão, de comunicação, de afetividade, de limites, de
vivências e bagagens sócio-culturais. São
diferentes ingredientes que apenas uma criança e ao mesmo tempo todas em uma
turma de Educação Infantil, por exemplo, apresentam na construção da salada
de frutas do saber e dos saberes em apenas uma sala de aula, que difere da
palavra "j"aula, aí está de novo a "diferença", por
apenas uma letrinha. A
DIFERENÇA QUE FAZ DIFERENÇA
Pretendo ampliar a discussão sobre as diferenças na sala de aula,
incluindo a letra "j" no início da aula. Parece óbvio que jaula é
algo que limita, que aprisiona, mas mais do que
isto, não leva em consideração as diferenças.
Muito mais que a forma da jaula ou aula, estão
os ingredientes introduzidos nela. Pouco importa colocar as classes em
círculo, ou em grupos de quatro, ou em forma de estrela, ou em fila, ou
utilizar o pátio, como os ingredientes serão ativados é o que me refiro neste
momento.
O professor, as crianças, os objetos (livros, classes, lápis, giz,
brinquedos, pátio, etc...) e suas diferenças, como
sobreviver neste ambiente, eis um enigma. Proponho neste momento, à luz dos
quatro discursos de Lacan, elucidar o ambiente da "j"aula, ao qual acrescentarei mais uma palavra, sistema.
Lacan demonstra os discursos através de uma
cadeia, uma sucessão de letras dessa álgebra, que aqui coloco:
O
discurso ultrapassa em muito a palavra, "é que sem palavras, na verdade,
ele pode muito bem subsistir", ainda Lacan afirma - "A seqüência do
que o nosso discurso desenvolverá aqui é que nos dirá que sentido convém dar
a esse momento". (1991, p.11) Não
tenho a pretensão de explicar a estrutura dos quatro discursos propostos por
Lacan em algumas linhas, pois além de presunçoso seria impossível, sendo que
foi no seminário de um ano inteiro (1969/1970), O Avesso da Psicanálise, que
o autor o apresentou por completo.
Retiro, sinteticamente, de O seminário - livro 17 - O Avesso da Psicanálise -Anexos-Analyticon (1991, p.193), a seguinte resposta aos
questionamentos feitos a Lacan no centro experimental universitário, em
03/12/69, que servirão para auxiliarem no entendimento dos quatro discursos: Tentemos
mesmo assim dar a vocês uma pequena idéia do que é o meu projeto. Trata-se de
articular uma lógica que, por mais frágil que pareça-minhas
quatro letrinhas que não parecem nada, salvo que temos que saber as regras
segundo as quais elas funcionam -, é ainda bastante forte para comportar
aquilo que é o signo dessa força lógica, a saber, a incompletude. Isto
os faz rir. Mas tem uma conseqüência muito importante, especialmente para os
revolucionários - é que nada é tudo. Por
onde quer que encarem as coisas, de qualquer modo que as revirem,
a propriedade de cada um desses esqueminhas de
quatro patas é a de deixar sua hiância. No
plano do discurso do mestre(M), é precisamente a de recuperação da
mais-valia. No plano do discurso universitário(U), é
uma outra. E esta é a que atormenta vocês. Não que o saber que lhes é dado
não seja estruturado e sólido, tanto que só lhes resta fazer uma coisa, entrelaçarem-se dentro dele com os que trabalham, quer
dizer, aqueles que ensinam a vocês, na condição de meios de produção e
simultaneamente de mais-valia. Quanto
ao discurso da histérica(H), foi este que permitiu a passagem decisiva, dando
seu sentido ao que Marx historicamente articulou. Que é, a saber, existirem
acontecimentos históricos que só podem ser julgados em termos de sintomas.
Não se viu aonde isso chegaria até o dia em que se dispôs do discurso da
histérica para fazer a passagem com outra coisa, que é o discurso do psicanalista(A). O psicanalista, de início, teve apenas que
escutar o que a histérica dizia. Quero um homem que saiba fazer amor. Bom,
é sim, o homem se detém aí. Ele se detém nisso - em que ele, de fato, é
alguém que saiba. Para fazer amor, pode-se passar e repassar, e sempre
tropeçar. Nada é tudo, e vocês podem continuar fazendo suas brincadeirinhas,
há uma que não é engraçada, que é a castração. No
meu ponto de vista a diferença que faz diferença está na função do
professor. Procurando posicionar a
figura do professor em um dos discursos, ficamos tentados a colocá-lo,
certamente, no lugar do discurso do mestre, da dominação, ou seja, o
professor detém o saber e por conseqüência se sente com todo o poder e
controle das situações. Porém
numa visão psicanalítica da educação,
se é que posso assim dizer, o
professor, onde sugiro substituir o termo por orientador ou facilitador,
deverá permitir deixar brotar os diferentes sabores e odores dos elementos da
salada de frutas de sua turma, porém, para isto sua posição terá de
deslocar-se do discurso do mestre (M) para o do psicanalista (A), pois é
desta posição que se possibilita fazer emergir o desejo, o espontâneo, o
natural, primitivo, a verdade, apesar de ser sempre metade. Toda
a dinâmica deste sistema,
"j"aula, fica alterada, vira confusão, com esta mudança de postura,
de quadrante. Esta confusão é o que permite sair do sistema em busca de sentido. O sistema não tem nenhuma necessidade de sentido, mas nós, seres de
fragilidade sim temos necessidade de sentido (Lacan, 1991). E o orientador ou facilitador inicia a
possibilidade das diferenças proporcionando o prazer e desprazer da busca
insistente do sentido. Para
que a teoria não se fragilize na prática, este orientador ou facilitador, estou falando da Educação Infantil, necessita além de
toda bagagem teórica, uma formação pessoal que permita transitar nas
diferenças sem misturar-se com elas, e mais, estando preparado a receber as
comunicações não-verbais, o significado do agir da criança, como propõem Lapierre e Aucouturrier (1989),
quando se refere à formação do psicomotricista. As
comunicações não-verbais são todas aquelas manifestações que se dão através
dos gestos, olhares, sorrisos, expressões. A primeira relação da criança com
o mundo é uma relação afetiva que passa pelo contato e tensões tônicas de seu
corpo com o outro e com o objeto, contatos e tensões geradoras de prazer e
desprazer. Esta é a primeira comunicação, a mais profunda e a mais primitiva. Esta
formação pessoal permite, entretanto, ao orientador ou facilitador
conscientizar-se dos principais componentes de sua personalidade e de sua expressão
habitual na relação consigo e com os outros. O adulto é colocado em questão
na qualidade de pessoa em situações de relação corporal. Sendo a criança um ser em constante
movimento, este profissional da Educação Infantil, necessita estar preparado
para a compreensão da comunicação não-verbal. Aucouturier
e Lapierre (1986, p.15) afirmam: O terapeuta deve, pois, confiar em sua espontaneidade. Ele não
conseguirá fazê-lo vantajosamente, a não ser na medida em que
"domina" perfeitamente suas próprias pulsões e em que tenha
integrado profundamente seus conhecimentos e seus objetivos, a ponto de estes
fazerem parte de seu ser e se integrarem imediatamente em seus atos. A MARCA
DA DIFERENÇA Reporto-me
neste momento ao filme "O enigma de Kasper Hauser", de Herzog,W., 1982, no qual Kasper é
criado dentro de uma caverna acorrentado e quando adulto é levado, por seu cuidador, a um vilarejo com uma carta na mão, solicitando
que seja acolhido pelo comandante daquele local. O filme desenrola-se baseado
na descoberta de como este "ser" diferente, assim o é. Os que
convivem com ele, lógico, procuram enquadrá-lo, e como não o conseguem,
tratam-no como objeto, por ser diferente dos demais; um objeto às vezes
tratado como raro e por vezes desprezado como comum, mas nunca respeitado
como ele é. Cada criança, de uma turma da
Educação Infantil, tem suas semelhanças, gosta de
correr, pular, mas existem aqueles que gostam de desenhar, pintar, recortar.
Quase sempre essas atitudes são utilizadas para determinar a normalidade do
agir, do pensar e do sentir... como se isso fosse
possível de ser admitido. Seguindo
a visão das semelhanças, encontramos as perguntas e as respostas
a serem dadas, os padrões, ou seja, todos os condicionamentos socialmente
determinados, que influenciam nosso agir e nosso pensar. Lacan
(1991) afirma que
não é legitimo dar a alguns, uma função que seria de uma espécie, como
representando o pensamento, pois o pensamento não é uma categoria. Dentro deste ponto de vista, as diferenças tomam força e
vigor, pois se tornam fundamentais para a criança que experiência, respeita e
poderá aceitar as diferenças de todos, aceitando as suas. A criança segura de
suas atitudes e crítica da realidade qualifica e valoriza seu potencial
expressivo e comunicativo, seu desejo, em busca da autonomia. Pearce (1989) diz: A
criança pequena pensa enquanto age e atua seu pensamento. O bebê ou a criança
aprende com cada interação, e toda aprendizagem futura está baseada na
qualidade destes padrões automáticos do cérebro e do corpo. Estas
organizações e respostas sensoriais primárias têm prioridade sobre toda
aprendizagem futura, ainda que nunca se tornem conscientes no sentido comum.
Mais precisamente, esta base estrutural fornece não só a conscientização como
as possibilidades para uma aprendizagem posterior. Aprendendo a interagir com as diferenças de velocidade,
de força, de espaço, de tempo, de conhecimento, de agressividade, de
expressão, de comunicação, de afetividade, de limites, de vivências e
bagagens sócio-culturais, através de atividades lúdicas, a criança obterá uma
visão de mundo mais apurada, não superficial, baseada apenas nos sentidos da
visão e da audição. Aucouturier et
al. (1986) enfatiza que esta fase favorece a liberação das tensões, graças ao
prazer de se mexer, de se distender, de "gastar" energia, de
brincar e de investir o espaço, os objetos e os outros. Também afirma que
esta fase deve constituir-se na explosão da espontaneidade, da emoção
desenfreada, da descoberta da comunicação não-verbal, do jogo simbólico. Para inaugurar, no
sentido de fazer emergir, uma criança com diferença na Educação Infantil, ela
precisa necessariamente que o sistema "j"aula
se modifique, não apenas fisicamente, mas radicalmente, ou seja, na raiz, na estrutura fundante,
permitindo o surgimento da marca da
diferença. Uma visão de ser humano
que ultrapasse a visão cartesiana do "Penso, logo sou", para uma outra do "Penso logo:”
Sou", de Lacan. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AUCOUTURIER,B; DARRAULT,I. & EMPINET, J.A
prática psicomotora: reeducação e terapia.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1986. AUCOUTURIER, B. & LAPIERRE, A. Bruno
Psicomotricidade e Terapia. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1986. BUENO, J.M. Psicomotricidade:
Teoria e Prática. São Paulo: Editora Lovise,
1998. LACAN, Jaques. O Seminário, Livro 17: o avesso da
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1991. LAPIERRE, A; LAPIERRE, Anne. O adulto diante da criança de 0 a 3 anos. Curitiba : Ed.
UFPR.2002. LAPIERRE, A. & AUCOUTURIER, B. A
Simbologia do Movimento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. MONTAGÚ, A. Tocar. São Paulo: Summus, 1986. PEARCE, J. C. A Criança Mágica. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1989. |
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