Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834      http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm

 

A IMAGINAÇÃO E O IMAGINAL NO ACTO CRIATIVO.
OS ARQUÉTIPOS NO O PROCESSO CRIATIVO E  ALICIA

 

María Antonia Jardim

Universidad Fernando Pessoa. Porto

 

 

“ Ahora soy un hombre realizado: plante un libro, escribí un hijo e hice un árbol”

 

          A imaginação é a nossa ferramenta para engendrar metáforas, para dizermos as nossas histórias e assim redescrevemos quem somos, qual o nosso contexto e o que se torna significativo para nós.

 

          Há uma transformação do mundo em imagens polisensoriais e afectivas e é por aí que o nosso imaginário pessoal se constitui. A nossa herança familiar, o nosso com texto e os nossos afectos simbólicos influenciam esse mundo de imagens e nesse mundo, como afirma Merleau-Ponty, o ser humano é reenviado para si mesmo, sendo a experiência mais radical que podemos ter: a experiência do sujeito diferente do mundo mas que não existe sem ele. Assim, o humano vai transformando o mundo em imagens e essa é a sua essência.

 

          O ser humano é um ser criativo, desde sempre criou para inventar soluções para os problemas que ele próprio se põe. André Virel escreveu mesmo que nous sommes toujours en train de rever. Para este estudioso do imaginário, este mundo funciona alternadamente como terra de arqueologia e céu de poetas, visto que se trata de integrar, no sentido mais dinâmico do termo: tradição e revolução. Para André Virel o imaginário funciona como uma incessante recriação interior do mundo exterior e encontra-se no centro do ser, sendo a terra natal do nosso pensamento, pois nós somos essencialmente seres criativos!

 

          E o que é a criatividade?

 

          A atitude criativa define-se como uma capacidade de gozar e disfrutar do processo criativo, de buscar harmonia entre diferentes facetas do processo… reconfigurar a informação que se possui para obter um novo resultado nunca antes visto.

 

          Em suma, a criatividade é um modo especial de pensar, sentir e actuar; conduzindo a um produto original, funcional ou estético.

 

 

OS ARQUÉTIPOS DO PROCESSO CRIATIVO:
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS DE CAROLL

 

             SEGUNDO G. ALDANA são oito os arquétiposo: o viajero, o crítico, o bienhechor, o guerrero, o destructor, o artista, o búfon  e o mago . Podemos identificar Alice com o viajero dado que este nos convida a agir, sacode a nossa emoção e procede a uma busca do seu reino interior. Também a poderíamos identificar com o mago, visto ser o arquétipo que nos dota a capacidade de nos assumirmos como responsáveis nos nossos próprios processos transformativos. Para além disso, o mago é aquele que sabe respeitar e estimular as diferentes buscas que o processo criativo supõe.

 

          No caso de Alice, as palavras criam realidades e elas quase que convencem o leitor a acreditar que as histórias de fadas são reais: Quando eu lia histórias de fadas, achava que aquelas coisas n un ca aconteciam, e agora cá estou eu no meio de uma! Deviam escrever um livro sobre mim, lá isso deviam!” ( p.30) Pensa Alice com os seus botões.

 

          Tal facto tem a ver com o que Michel Meyer chama de verosimilhança do inverosímil”- the willing suspension of disbelief-, pois, segundo este autor, o discurso ficcional pode produzir a ilusão mimética ( verosimilhança) . É que a distinção entre o que é real e o que é ficcional no interior do texto encontra-se confundida pelo efeito de crença, crescente com a leitura, no mundo do texto; de tal modo que, utilizando a linguagem, Carroll distorce a realidade e faz com que seres de fantasia ganhem voz:

 

          Ex: O coelho logo reparou em Alice e chamou por ela, num tom zangado…Vai imediatamente a casa e traz-me um par de luvas e um leque” ( p.27).

 

          Por outro lado, Alice transforma os acontecimentos e transforma-se a ela própria durante a viagem até e no jardim maravilhoso; não é só uma questão de tamanho mas de identidade como é bem exemplificado no episódio com a Senhora Lagarta:

 

          Receio não saber explicar-me, minha Senhora”, disse Alice, “ porque eu não sou eu, está a ver ? “ ( p. 36).

 

          Transformar, um verbo cujo prefixo trans- em latim, quer dizer “ para lá de”, remontando ao indo-europeu ter-, que com tinha a ideia de atravessar. Foi, de facto, o que Alice fez: atravessando níveis de realidade e criando uma supra-realidade que culmina num processo de auto-conhecimento e metamorfose de si mesmo; um crescimento no conhecimento, provando assim que o cogito se encontra no sum.

 

          Mas como é que tudo isto se processa?

 

          Talvez a resposta esteja contida na teoria que António Damásio expôs na obra intitulada O erro de Descartes, ao defender que as imagens são provavelmente o principal conteúdo dos nossos pensamentos. Segundo este autor, as imagens que reconstítuimos por evocação, ocorrem lado a lado com as imagens formadas segundo o estímulo surgido do exterior. Assim sendo, as imagens reconstítuidas a partir do interior do cérebro seriam menos vividas do que aquelas induzidas pelo exterior, já que, segundo Damásio, cada objecto que excita um instinto, excita também uma emoção”. Tal como o bolinho que convidava Alice a comê-lo e a ficar ansiosa com o resultado: Comeu um bocadinho e disse ansiosamente a si própria Para onde? Para onde? com a mão bem apoiada na cabeça a ver se percebia para que lado estava a ir; e ficou muito espantada por ver que ficava do mesmo tamanho” ( p.12).

 

          Esta experiência da emoção pode fazer com que muitas partes do corpo sejam levadas a um novo estado em que são introduzidas mudanças significativas que culminam em  metamorfose. Neste caso, o próprio corpo será o topos simbólico de transformação, visto ele ser o palco em que as emoções se dirigem ao cérebro. Alice é disso exemplo paradigmático.

 

          Ao longo da história, Alice aprende a desprender-se de hábitos adquiridos, a questionar-se a si mesma e ao mundo que a vai rodeando a cada instante surpresa; aprende a lidar com o inesperado e o diferente, até mesmo a interrogar a sua identidade e a própria moral ( p.72). Alice projecta um mundo no seu discurso de narradora que descreve o que se passa à sua volta, mas, por outro lado, ela vai além do que lhe impõe a sua própria visão; então vê outra coisa, um alter que vai implicar um desdobramento do sujeito ao nível do olhar, um sujeito que vai agir sobre a história narrada, sobre o espaço que o envolve, um sujeito que vai querer conhecer e apropriar-se ( no sentido ricoeuriano) do que antes era “estranho”.

 

          Deste modo, Alice vai lendo os sucessivos acontecimentos e vai assim iniciando um processo de auto e hetero-compreensão. Na obra de Carroll assistimos a uma viagem dupla, externa e interna, física e psíquica ao país das maravilhas, o que corresponde a uma viagem onírica que permite um desenvolvimento da consciência relativamente a quem sou eu?”; o problema da identidade e do desenvolvimento pessoal.

 

          Alice não tem medo do diferente, da tão extraordinária fala dos animais ou de uma rainha de copas e torna-se numa verdadeira contadora de histórias para a sua irmã, que por sua vez vai sonhar com essas estranhas criaturas de um mundo maravilhoso.

 

          No fundo, Alice aprende a utilizar a matéria dos sonhos vividos no espaço das palavras sonhadas, alertando o leitor para o papel do escritor, para a sua duplicidade: a de ser simultaneamente leitor de um mundo, de um modo de estar nesse mundo e descrever, representar esse mundo através de uma linguagem ecrãnlizada e imbuída de magia. Por outras palavras, e estabelecendo uma relação com a filosofia de Leibniz, o “eu” é um sujeito capaz de acção, e se a consciência do próprio eu deverá acompanhar todas as minhas representações, estabelecendo-se assim uma relação necessária de todo o diverso da intuição com o “eu penso”. Trata-se de um percurso que conduzirá à tese leibniziana de que o ser humano é essencialmente uma parte do mundo e de que a representação do mundo é justamente o conteúdo da sua alma. O tópico do eu como ser-no-mun do é uma noção que se foi aproximando da “apercepção cosmológica” de Kant, o que se pode confirmar com este texto da Opus Posthumum  ( 1800-1803):

 

          Eu sou e além de mim existe um mundo ( praeter me) no espaço e no tempo e eu mesmo sou um ser no mundo: sou consciente desta relação e das forças que movem em mim sensações ou percepções. Eu mesmo, enquanto ser humano, sou, para mim, objecto sensível externo, uma parte do mundo.

 

          Deste modo, o sujeito manifesta-se como portador de perspectivas originais da própria experiência ( neste caso o processo de metamorfose-conhecimento de si própria-), que é fonte de significado, centro de actividade e de “ olhar singular sobre o mundo”. Com Alice temos o clássico exemplo de caminhos entrelaçados que constituem o chamado – Labirinto- o qual simboliza um longo e difícil caminho iniciático. Ao longo do caminho Alice encontra oponentes e adjuvantes para ultrapassar os obstáculos, sendo que o maior é ultrapassar as sombras “ da Caverna onde caiu e retomar a consciência da luz através das sucessivas metamorfoses do seu corpo.

 

          Por isso é que, tal como a Beatriz de Dante, torna-se uma guia para as outras criaturas: Era boa altura para partir porque o lago estava a ficar muito cheio de pássaros e animais que lá tinham caído: havia um Pato, um Dodó, uma arara e uma pequena águia e outras criaturas engraçadas. Alice guiou-os e dirigiram-se todos para terra firme; ( p.20); por isso é que perante o imperativo da rainha de copas a sua atitude foi esta: “Quem é que lhes liga?, disse Alice- por esta altura ela já tinha atingido a sua altura normal- “ Vocês não passam de um baralho de cartas ! ( p.100). Este é o momento da consciencialização de quem sou eu e quem são os outros, de distinguir as aparências das essências, o trigo do joio, no fundo a luz do conhecimento e da sabedoria, até porque Alice calçou uma das luvas brancas do coelho e as luvas brancas são símbolo de pureza de alma, mãos limpas e sinónimo de iniciação.

 

          Alice, através do imaginário, desce à intimidade dos objectos e dos seres. Manifesta uma atitude psíquica de guliverização, a qual, segundo Durand, não passa de uma prefiguração no espaço da ambição de dominar o devir, de vencer Cronos, operando sobre a própria substância do tempo, ao fazer, diríamos, um resumo liliputiano que manifesta uma grande reviravolta dos valores e das imagens. Isto é uma das características de um sujeito cuja meta é ultrapassar-se a si próprio e encarnar o verbo dos alquimistas: transformar-se e assim transformar o Mundo.

 

          Alice apresenta em potência e em acto as virtudes do herói iniciado que quer aprender a viver, escutando o mundo e contemplando-o como se fosse um livro animado.

 

 

BIBLIOGRAFÍA

 

Alice no país das maravilhas, editado pela âmbar, Porto, em 2001, 1º edição e 2003, 2º edição.

 

3º ciclo de formación en Creatividad acorde con la C.U.E.

               > Master profesional (abierto a todos)
               > Master Académico (para titulados)
               > Doctorado (para masters)

Julio 2007. Encuentros Creadores. Escuela de verano de la Creatividad.    www.micat.net