Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834      http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm

 

A AÇÃO E O ENTE

O Atelier terapêutico como possibilidade de transcendência

 

Rosa Maria Coitinho

 

          Especialista em Arte, Facultad de Bellas Artes - Universidad Complutense de Madrid; em ArteterapiaUrcamp- Bagé-RS; Professora aposentada da Universidade de Passo Fundo-RS, Arteterapeuta da Escola de Terceira Idade da UPF-RS de 1999 a 2005, professora do pós-graduação em Arteterapia da Centrarte-Porto Alegre-RS, membro do Grupo de Estudos e Extensão Movimento de Transcendência pelo Sensível –UFRGS-RS, Brasil.

rosa.coitinho@cpovo.net

 

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

        Arteterapia habita fronteiras, trabalha nas interfaces de arte, saúde, educação. Caracteriza-se por trabalhar com imagens vindas do inconsciente coletivo que mostram aspectos a seres compreendidos e transformados. Para JUNG (2000) a transformação da libido pelo símbolo coloca o sujeito no caminho da individuação que é a integração, no consciente, dos aspectos inconsciente  que permite passar de pessoa para indivíduo - ser não-dividido.

 

 

OBJETIVOS

 

        Utilizar a arte como recurso no processo terapêutico, resgatando a tradição milenar, de utilizar materiais expressivos diversos para auxiliar a pessoa a ativar os aspectos mais profundos de sua percepção, na emergência de imagens, que leve à compreensão de seu mundo interno e de sua integração. Esta prática, para a Terceira Idade, se coloca como a arte para toda a vida, enfocada na concepção de Educação Permanente. Arte como instrumento de liberação do potencial expressivo, de criação e de ser produtivo, o que é básico para a prevenção, promoção e preservação da Saúde Mental.

 

 

METODOLOGIA

 

        Recriar, no atelier terapêutico, um espaço de proteção e serenidade que permita as mulheres se reconectarem consigo mesmas e com o todo. O fazer arteterapêutico possibilita a ativação de suas memórias que se interligam à conteúdos vivenciais, ampliadas pelas associações e trazidas aqui e agora pelo material artístico. A poietica comprometida com a ampliação da consciência, coloca estas mulheres frente a seus universos renovados.

 

 

OFICINA DE ARTETERAPIA

 

        Trabalho realizado na Oficina de Arteterapia da Escola de Terceira Idade – Creati – da Universidade de Passo Fundo-RS. Escolhemos, de Simões Lopes Neto, o mito do Mboitatá, narrativa dos índios Guaranis que se passa no tempo mítico. O mito conta uma “história sagrada ocorrida no tempo primordial que, graças às façanhas de seres sobrenaturais, uma realidade passou a existir” (ELIADE, 2004:11). A narrativa inicia com uma grande serpente/noite – inconsciente – que desperta e, purificada pela água, se transforma em fogo e separa a noite do dia – advento da consciência.

 

 

MBOITATÁ

 

        “Em um tempo muito antigo, houve uma noite tão comprida e tão escura que deixou os homens na mais dura das tristezas. Levavam os olhos parados, enfarados da noite. No meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando ouviam a cantiga forte do téu-téu, que não dormia desde o último sol. E seu quero-quero, cantado alto ia agüentando a esperança dos homens. Na última tarde que o sol descambava  atrás das coxilhas, desabou uma chuvarada tremenda, que levou um tempão caindo e que durou...e durou...Os campos foram inundados, afogando as canhadas. A chuva era tanta que encheu a toca  e despertou a cobra-grande, a boiguaçu que dormia quieta. Desperta e faminta começou a comer as carniças mas só comia os olhos e nada mais. A água foi baixando e a cada hora mais olhos a cobra-grande comia. Tantos olhos com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados. E vai que a boiguaçu foi ficando transparente, clareado pelos miles de luzinhas dos olhos comidos, um clarão sem chamas, de luz amarela e triste e fria. Foi assim que os homens não a conheceram mais e chamam-na de boitatá, cobra de fogo, a boitatá.

 

        Passado um tempo a boitatá morreu. De fraqueza, pois os olhos comidos não lhe davam sustância. Depois de rebolar-se rabiosa sobre carniça, sobre ossadas esparramadas, o corpo dela desmanchou-se. E foi então que a luz que estava presa se desatou por aí. E o sol apareceu outra vez! De mansinho, espantando a escuridão, o sol subiu, subiu até vir a pino e descambar como antes, e desta feita para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.

 

        A luz da boitatá ficou sozinha, anda arisca e no inverno dorme entocada, mas no verão, depois dos mormaços, começa o seu fadário. Enrolada como uma bola – tatá de fogo, amarela e azulada – rola, corcoveia, corre pelos campos, despenca, apaga-se e quando um menos espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito. Quem a encontra pode até ficar cego... Só tem dois meios para livrar-se dela: ou fica parado de olhos fechados muito quieto até ir-se ela embora ou se anda a cavalo, arma o laço e lhe atira em cima e toca a galope, trazendo o laço de arrasto. A boitatá vem acompanhando o ferro da argola, que ao bater numa macega, toda se desmancha, se esfarinha em luz para junta-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.”

 

 

 

M. falou da mãe e do marido doentes em casa, tarefa que juntava com o trabalho da escola, difícil, período escuro como uma grande noite.  A universalidade das tradições fazem da serpente, símbolo das águas cósmicas, a expressão da Noite Original, princípio organizador do Caos.  Assim que antes da criação havia o Nada e o Caos e o universo repousava sobre um local aquoso, escuro e misterioso. Este caos aquático contém o germe e sustenta toda criação, por isso a noite é feminina pois dela precede a formação de todas as coisas. M., na sua representação, faz a serpente saindo da toca depois de despertada pela água. Então, identificada com a serpente cósmica que movimenta-se na noite silenciosa tocada pela força rediviva da água, umedecida e novamente fértil, retroalimentada, pode envolver-se outra vez com o cuidar.

 

 

 

Al. ficou longo tempo sozinha depois da morte do marido e a saída das filhas da casa, todo seu desejo era entocar-se enrodilhada, pois assim sentiria o próprio corpo... envolta e sustentada pela Grande Mãe, refugio seguro contra todo sofrimento. O redondo é princípio perfeito, é útero, experiência imemorial de nascimento. Daí que nas origens tudo é redondo e se encontra o uroboros, a serpente que morde o próprio rabo e opera num movimento circular e contínuo,  processo dinâmico e transformador da vida. A Serpente Original representa a unicidade da vida e só com o rompimento desta indiferenciação pode dividir-se em dois e tornar possível a ordem humana. Al. acaba por despertar dessa longa noite e, como sua representação, se desenrola e sai da toca, vende o que tem, entrega a uma amiga seu cão e vem para perto de uma das filhas. Começa a freqüentar a Oficina de Arteterapia, volta a sentar-se em roda de conversa. Al., agora, centra um ponto, encontra uma orientação na homogeneidade caótica, funda seu mundo, pois para viver no mundo é preciso fundá-lo.

 

 

 

C., pinta uma noite escura e chuvosa onde os homens, na solidão do campo, enfrentam a cobra,  agora desconhecida, porque feita de luz, luz presa na tristeza da morte. C. associa os homens encolhidos ao medo frente do desconhecido pela ruptura da certeza dos ciclos da vida. Medo, não do escuro mas do escuro abismal das tragédias que leva às muitas mortes em vida. O enfrentamento de suas doenças/mortes lhe dão o sentido da perda e por perder, acaba aprendendo a libertar a luz presa e construir  novos significados, sentimentos de sacralidade no seu cotidiano mundo profano.

 

 

 

J. é a própria luz espantando a escuridão. Foi criada, como todas as mulheres de sua faixa etária, submissa, discreta, dona de casa, mãe, jamais dando uma resposta direta ao marido. Freqüentadora assídua da Oficina, aos poucos foi ganhando voz própria e expressa-se hoje com muita riqueza. No mito do Mboitatá a serpente como um velho deus, ligado à chuva e à fertilidade, antepassado mítico, se sacrifica num ritual de morte e renascimento e se transforma em Sol que morre no oeste para renascer, na manhã seguinte, no leste. J. pinta a cobra na forma de Sol explodida em poder de vida despindo-se da morte  e separando do redondo, os Pais do Mundo, ancestral fêmea e a epifania masculina, dualidade necessária para a criação  acontecer. E este fogo/sol que se esparrama é para J. o agente da transformação, a consciência de uma inteireza que será permanente.

 

 

 

   D., mulher sensível e sensual queixa-se por não encontrar no marido a cumplicidade para  suas fantasias e a compreensão para seus fazeres artísticos. Encontrou na Oficina, lugar de renovação. Os mitos que contam sobre dilúvios têm como tema simbólico recorrente a regeneração cíclica, com a destruição das formas - não da energia - possibilitando assim novos surgimentos de vida. D. pinta a serpente translúcida, grávida de olhos de luz, o redondo que contém os oposto em coabitação. Anuncia aqui a urgente hierogamia entre o Céu e a Terra pois a chuva como esperma fertiliza a terra e trás a luz também para o espírito. A água desintegra, abole as formas, lava os “pecados” e quando vem em forma de chuva que cai por muito tempo se transmuta em purificação e regeneração cujo proceder é a  criação. Vencendo o afogamento, D. busca realizar o casamento interno ajudada pela sua atividade criadora.

 

 

 

   R., órfão de mãe desde os seis anos, com os irmãos repartidos  entre os tios, de tempo em tempo reunidos junto ao pai, depois de adulta morando com a irmã casada. Professora, nunca casou com medo de morrer como sua mãe, de parto. Então, passara a vida de olhos fechados como se tivesse medo de encontrar a boitatá e assim é sua representação. O olho vira para dentro e vê a eternidade e eterna é a cobra que troca de pele, ambos são videntes.  Dentro de si, vê a essência e fora, a  luz do olho é o sol do dia que afasta o medo, o medo como sanção divina que em R., se transforma em uma passagem que ela leva  para o cotidiano com coragem.

 

 

 

      F. faz da boitatá sua redenção. Sensível, profundamente intuitiva, ouve vozes que a orienta, muito jovem não dá a devida atenção, desqualifica sua escuta interna e é traída pelo próprio potencial. Coisas ruins acontecem então, o que a levou a buscar a Oficina. Faz da sua representação uma argola/prisão de flores, metáfora da violência, forma mítica de encarnar a maturidade. F. olha para o centro como necessidade de reconstrução interna e, como uma divindade primal suficiente em si,  representa-se na mandala, imagem do redondo.

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

        Quando cada uma das mulheres da Oficina de Arteterapia, invadidas  por essas imagens arquetípicas, se debruçou sobre papéis e tintas, pintando a sua compreensão  do mito do Mboitatá, elas geraram uma cosmogonia, um mundo sabido desde meninas. À maneira dos povos tribais, ao recriarem o mito, cumpriram com a função do rito, que é a renovação do mundo como experiência. O regresso ao tempo de origem – circular, sagrado -  refazendo o ato criador dos deuses, serve como ritual de cura porque possibilita abolir o passado e começar outra vez a existência com redobrada energia (BRANDÃO, 2001). Tratamos aqui, a arte como metáfora da transformação, na qual o indivíduo, na medida em que transforma plasticamente um material, possibilita, transformar aspectos de sua vida, nesse processo de busca de totalidade (PASSERON, 1997). Frente às visualidades se estabelece um diálogo de interno para externo, acessando assim, a dimensão espiritual. No transcender, o ser passa por metamorfoses e, inteiro, constela a vida em profundidade,

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

-ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. 6° ed. Trad.  Ricardo Neves e Raquel Abranches. São Paulo:Perspectiva, 2004.

------------------- O Sagrado e o Profano. A Essência das religiões. Trad. Rogério Fernandes. São Paulo:Martins Fontes,2001.

-BRANDÃO, Juanito de Souza. Mitologia Grega, vol.1, 16° ed. Petrópolis:Vozes,2001.

-CHEVALIER, Jean e GHEERBARNT, Alain. Dicionário de Símbolos. 13° ed. Trad.Vera Costa e Silva, Rio de Janeiro:José Olympio, 1999.                              

-CIRLOT, Juan-Eduardo. Diccionario  de Simbolos. Barcelona:Labor s. a., 1969.

-JUNG. C.G.. Psicologia e Religião. Trad. Fausto Guimarães. Rio:Zahar (1962)1965.

----------------Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo,. Trad. Maria L. Appy, Dora  M.R.F. da Silva. Petrópolis:Vozes, 2000.

-LOPES NETO, Simões. Lendas do Sul. Introdução e notas de Luiz A. Fischer. POA:Artes e Ofício, 2002.

-MACIEL, Corintha. Mitodrama. O Universo Mítico e seu poder de cura. SãoPaulo:Ágora, 2000.

PASSERRON, René. Da estética à poiética. In. Portoarte. Revista de Artes Visuais. POA:vol. 8, nº15, novembro/1997,103-114.

 

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