Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834      http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm

 

LIDERANÇA EVOLUTIVA

UMA VISÃO HOLÍSTICA DA ARTE DE LIDERAR

 

Ana Abrantes

 

 

MUDAR... OU MUDAR!

 

          O mundo está mudando aceleradamente” – é o que mais ouvimos nos dias de hoje dentro e fora das empresas. É fácil perceber que o ser humano está atravessando o período mais conturbado e profundo de mudanças que a humanidade já viveu; mas será que entendemos verdadeiramente o significado e a importância deste período de transição? Será que compreendemos o preço que teremos de pagar, dentro e fora das empresas, se não nos prepararmos para os novos tempos que se aproximam?

 

          Margaret Wheatley, uma das grandes pensadoras da empresa quântica, diz, em seu livro A Liderança e a Nova Ciência:  Acho que apenas começamos a descobrir e inventar as novas formas organizacionais que vigorarão no século XXI. Para ser inventores e descobridores, precisamos ter a coragem de nos desapegar do  velho mundo, de renunciar a muitas coisas que temos prezado até agora, de abandonar as nossas interpretações sobre o que funciona e o que não funciona”.

 

          O mundo digital trouxe com ele transformações tecnológicas sem precedentes para a sociedade, criando um ritmo de vida frenético e dinâmico, e as empresas não escaparam aos seus impactos. Não vivemos mais num mundo newtoniano de separação, previsibilidade e linearidade; começamos a dar os primeiros passos na compreensão de um universo quântico dinâmico, acelerado, interconectado e que se realiza essencialmente dentro de um ilimitado campo de probabilidades e possibilidades. Não existem mais certezas absolutas; os problemas de hoje não podem mais ser abordados com o pensamento “ou isto ou aquilo” e, sim, com a abertura de “e isto e aquilo”. O que dava certo no passado pode hoje não resolver os novos desafios do presente e do futuro.

 

          Este é um momento crucial na história da humanidade, onde a máxima passa a ser:  mudar...ou mudar. Lidar com a mudança e o caos tornou-se o grande desafio das organizações, gerando um novo paradigma em relação a como fazer negócios e como relacionar-se com os clientes internos e externos. Entender este momento é o ponto de partida para adaptar-se e evoluir.

 

          Alguns princípios básicos universais regem as mudanças neste momento de transição, determinando os contornos do novo paradigma. São eles:

1.            Vivemos num universo inteligente, vivo e dinâmico, que responde à nossa consciência.

2.            As forças que atuam na realidade não são apenas as que podemos ver e conhecer pelos cinco sentidos; a realidade é afetada diretamente por um mundo invisível que até então não era considerado, especialmente dentro das empresas.

3.            Tudo no universo é interligado, interdependente e afeta-se mutuamente. Neste mundo quântico, a vida transforma-se a si mesma por meio dos relacionamentos.

4.            O universo usa o caos para criar uma nova ordem; quanto maior este período de caos, maior a transformação que virá.

5.            O que pensamos atua diretamente na matéria e nossas escolhas passam a ser os referenciais para a evolução ou estagnação.

 

          Não podemos parar o movimento evolutivo do universo; não podemos anular os novos problemas de hoje; o que precisamos é mudar a percepção destes problemas. O novo paradigma emergente exige um novo pensar; um novo pensar exige um novo sentir; um novo sentir exige novos níveis de relações.

 

 

UMA VISÃO HOLÍSTICA DA LIDERANÇA

 

          Não sabemos ainda o que nos tornaremos, mas temos certeza absoluta de que não podemos mais pensar, nos relacionar e atuar como fizemos até agora. As empresas que desejam fazer acontecer com sucesso precisam desenvolver novas habilidades e adotar abordagens diferenciadas para fazer negócios. Para isto, torna-se prioritário o surgimento de um novo tipo de liderança.  Líderes que repensem as antigas premissas organizacionais e atue em um outro nível de consciência, mais elevado, mais humano, mais sistêmico e mais adequado a um mundo em acelerada transformação.

 

          Para entendermos este momento de transição e sabermos tirar proveito de suas  concepções para a formação da nova liderança, é preciso compreender a lógica dos acontecimentos que estão gerando as transformações.

1.            As novas descobertas tecnológicas e científicas dos últimos 100 anos geraram uma mudança que é mais acelerada e mais complexa do que todos os processos de mudança já vividos pela humanidade. A descontinuidade e a turbulência destes tempos geram insegurança e medos nas equipes de trabalho, surgindo a necessidade urgente de uma liderança inspiradora e comprometida com o bem-estar da sua gente.

2.            O excesso de informações e a imprevisibilidade dos desafios geram a necessidade de criatividade e inovação. As pessoas e seus talentos passam, então, a ser o centro das atenções para fazer a diferença e tornar a empresa mais competitiva. É preciso transformar os cérebros “mecânicos” – lineares, seqüenciais, exclusivos (ou isso ou aquilo) – em cérebros “quânticos” – aceitação de ambigüidades, inclusivos (isto e aquilo), simultâneos e abertos a novas possibilidades.

3.            Os talentos e as iniciativas criativas aparecem apenas quando há o clima adequado para a inovação, tornando-se necessária a criação de um ambiente de trabalho que se constitua num campo fértil de relações e flexibilidade para que a inovação possa acontecer.

4.            O acesso à informação gerou um cliente interno e externo mais exigente, sendo importante a renovação e a qualificação constantes para atender às demandas pessoais e coletivas. A atitude de aprendiz passa a ser essencial para a adaptação às novas exigências e para a performance de excelência.

5.            Palavras como significado e sentido passam a ter tanto valor nestes tempos caóticos como todas as outras habilidades, palavras de força e competências que vigoraram até então. Saber por que precisa ser feito é tão importante quanto saber o que precisa ser feito. O interno e o externo coabitam nas equipes para gerar as motivações e o comprometimento de todos os colaboradores.

6.            Sustentabilidade passou a ser a grande preocupação atual, dentro e fora das organizações. O impacto ambiental das escolhas e ações empresariais passa a ser um diferencial competitivo. O sucesso de uma empresa passa depender também e principalmente da sua consciência ecológica.

 

          Todos estes novos elementos precisam ser considerados pela liderança na nova era dos negócios. É urgente repensar os modelos de gestão diante de um mundo e de uma empresa tão diferentes daqueles que vivenciamos no século passado. Embora a maioria das organizações ainda adote modelos fragmentários e lineares de gestão, em nossa experiência em empresas de setores diversos percebemos um grupo cada vez mais expressivo de líderes corajosos que assumem a responsabilidade de atuar como agentes de transformação da mentalidade organizacional.

 

          Líderes que começam a dar os primeiros passos na direção da abordagem holística de liderança, que considera não só os aspectos visíveis (materiais) que influenciam os negócios – lucros, investimentos, recursos, estruturas, processos, metas, resultados, entre outros -  mas também os invisíveis (imateriais) – motivações, necessidades e significados individuais, reconhecimentos, nível de estresse e pressão, capital intelectual, pensamento criativo.

 

          Líderes que atuem diretamente na inspiração das pessoas, na resolução de conflitos, na satisfação do empregado, no desenvolvimento dos talentos, na retenção e desenvolvimento do capital intelectual da empresa, e sejam cidadãos do mundo conscientes.

 

 

A LIDERANÇA EVOLUTIVA – O “ATRATOR DESCONHECIDO” DO CAOS

 

          Na teoria do caos, fala-se de uma força evolucionária desconhecida que, apesar de toda a complexidade e desestrutura aparente dos processos universais caóticos, promove a auto-organização. Para nós, o líder deve atuar como o “atrator desconhecido” das organizações complexas e orgânicas dos tempos atuais, promovendo as condições necessárias para que ocorra a auto-organização e a produtividade de excelência.

 

          No livro Synchronicity: The Inner Path of Leadership, Joseph Jaworski nos fala que “a liderança tem a ver com criar um domínio no qual os seres humanos continuamente aprofundam a sua compreensão da realidade e tornam-se mais capazes de participar do desabrochar de um novo mundo. Em suma, liderança tem a ver com criar novas realidades”.

 

          Nós compreendemos que a liderança assume hoje um importante papel para determinar como as empresas vão lidar com as transformações atuais e, principalmente, para que nível de consciência querem evoluir. As escolhas destes líderes tornam-se primordiais para a determinação da sobrevivência das organizações e do próprio planeta, e é a este líder holístico,  consciente das suas escolhas e de seu papel transformador que chamamos de Líder Evolutivo.

O Líder Evolutivo compreende profundamente as forças da transição e age no dia-a-dia com um sentido de Missão Profissional, criando uma cultura organizacional que possibilita a expansão de consciência de todos os envolvidos. Está preocupado com resultados, mas estes não são o único foco de sua atenção. Sua atenção recai principalmente na sua gente.

 

A liderança evolutiva estimula o nascimento de líderes que:

*            Entendem verdadeiramente o sentido da mudança que ocorre no mundo, passando de meros espectadores a protagonistas na criação de um mundo organizacional mais consciente de seus deveres e responsabilidades na para com os colaboradores e a sociedade como um todo.

*            Adotam uma abordagem de atuação holística, indo além de estratégias de controle e comando apenas, para atuar também como inspiradores de sonhos, estimuladores de relações e criadores da visão de futuro.

*            Preocupam-se não apenas com o que fazemos nas equipes, mas também com o como fazemos, e que podem criar um ambiente onde todos possam desenvolver seus talentos e dons especiais.

*            Sabem criar empresas aprendizes, com um nível de flexibilidade, dinamismo e criatividade capaz de antecipar os eventos e gerar estratégias efetivas para a adaptação aos momentos de caos.

*            Sabem criar negócios sustentáveis para a empresa e para o planeta, contribuindo para a concretização de um mundo de equilíbrio, onde lucros e produtividade caminhem lado a lado com a saúde e a felicidade dos colaboradores.

*            Servem como exemplos de seres humanos e profissionais para suas equipes, atuando com base em valores positivos, transparência e comunicação verdadeira.

*            Conseguem atingir os resultados com o mínimo de estresse para as equipes, sempre equilibrando as necessidades dos colaboradores e os objetivos da empresa.

*            Desenvolvem habilidades de autoconsciência, transcendendo seus pontos de vista limitantes e atualizando-se em níveis cada vez mais elevados de percepção e criatividade.

 

          Estes são tempos verdadeiramente difíceis para os gestores, que estão sendo convidados a dar um verdadeiro salto quântico em nível de consciência de atuação profissional. São tempos, no entanto, que guardam fantásticas oportunidades para todos aqueles gestores que estão abertos ao crescimento e que desejam ir além de meramente sobreviver às transformações, para atuar fazendo diferença no mundo.

 

          Em nossa visão, grande parte da transformação do mundo recairá nas escolhas das lideranças. Os líderes nas empresas de hoje precisam dominar novas tecnologias; estar atentos às demandas globais, não apenas locais; desenvolver consciência ecológica; estar à altura da concorrência; porém, primeiramente, precisam entender de gente e da Terra. Precisam entender a si mesmos e realizar suas tarefas como uma Missão para com suas equipes e com o mundo.  

 

          Se não houver mudança na gestão de pessoas, o preço a pagar será grande demais, não só para as empresas, como para toda a humanidade. Acreditamos que um novo nível de eficácia gerencial poderá emergir do caos atual, a partir do momento que um número cada vez maior de profissionais atuar como líderes evolutivos, criando empresas onde lucros e felicidade, metas e resultados, cérebro e conhecimento caminhem lado a lado com o coração e as emoções, com a felicidade e a realização dos colaboradores, e com um planeta saudável e sustentável.

 

Petrópolis, 22 de dezembro de 2006.

 

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