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Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm |
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PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS: Fernando J. V. Cardoso de Sousa RESUMO O presente estudo pretende
apresentar dados relativos à comparação das perspectivas de alunos e
professores do ensino superior politécnico sobre a criatividade e a eficácia
no ensino. O estudo decorreu nas sete Escolas
do Instituto Politécnico de Lisboa, em 1997-99, em que foram obtidas 1.097
respostas a questionários, correspondentes a uma população de mais de 900
professores e 8 000 estudantes ao nível de bacharelato. O questionário
utilizado foi construído com base na teoria dos construtos pessoais de Kelly,
que tenta explicar o modo como as percepções do indivíduo influenciam as suas
expectativas. Foram igualmente
realizadas entrevistas e observações de aulas a professores que foram
designados como exemplos de criatividade no ensino. Os resultados obtidos confirmaram a
hipótese levantada, isto é, os estudantes exibem uma atitude mais favorável à
criatividade no ensino, em relação aos professores. Estes resultados, se bem que mantendo
sempre a diferença de percepção entre professores e alunos, revelaram
diferenças marcantes entre algumas Escolas, mas apenas entre os alunos,
mantendo-se constantes as percepções dos professores. Os dados obtidos a partir dos
professores criativos, permitiram concluir que estes conseguem construir o
seu papel a partir de um equilíbrio entre a eficácia exigida pela classe
profissional a que pertencem, e a necessidade de estabelecerem uma
comunicação com os estudantes. A
eficácia procurada, mantendo os estudantes como referência principal, parece
ser percebida por estes como criatividade no ensino. A confirmarem-se estes resultados,
as implicações que se afiguram poderem ser sugeridas, têm a ver com aquilo
que separa professores e alunos, em termos da construção do papel do
professor julgada mais adequada. Sendo
o ensino universitário, visto em termos ideais, um tipo de ensino dirigido ao
desenvolvimento das capacidades de
pensamento crítico e criativo, traduzidas nas perícias mentais de
conceptualizar, analizar, sintetizar e avaliar informação, bem como nos
processos de recolha dessa informação através de observação directa, experiência ou reflexão, este artigo
pretende discutir sobre a influência da Universidade no desenvolvimento, nos
futuros professores, da predisposição e preparação para ministrarem este tipo
de ensino. Dentro dessa perspectiva,
este estudo teve como finalidade comparar as diferenças de percepção de
alunos e professores do IPL, relativamente à eficácia e criatividade no
ensino, tendo em vista proporcionar alguma explicação sobre o que está
envolvido na transição do papel de aluno para o de professor. Isto é, porque é que nós, enquanto alunos,
temos determinadas expectativas sobre a acção dos nossos professores, e
quando tomamos o lugar deles, fazemos o mesmo, ou pior, e nem nos damos conta
disso. Tal
como “educação”, a criatividade é um conceito complexo e
multi-facetado, podendo ser visto em relação ao indivíduo, como entidade
criativa, aos processos que lhe estão subjacentes, e ao ambiente e respostas
produzidas, quer elas sejam produtos quer ideias. Se bem que o número e complexidade das
variáveis envolvidas seja muito extenso, como refere Young (1985), a
definição proposta por Stein (1997) poderá ajudar a compreender o termo:
“Criatividade é um processo que
resulta numa novidade, aceite como útil, defensável, ou satisfatória por um
grupo significativo de pessoas, num determinado momento no tempo”. No
entanto, pelo simples facto de se produzir trabalho criativo não quer dizer
que se seja capaz de facilitar
(promover) o desenvolvimento da criatividade nos outros. Um pintor, por exemplo, pode ser muito
criativo como artista, mas não como professor, se bem que possa exercer ambas
as profissões. A este propósito, Riley
(1982) encontrou uma relação fraca entre as capacidades de professores em
produzir trabalhos criativos e as de facilitar a criatividade nos
outros. Como refere Cropley (1992), a
finalidade do ensino criativo não é a de produzir soluções criativas, mas sim
a de dar energia e manter os esforços criativos dos alunos, removendo
obstáculos e criando incentivos. De
acordo com Mayer (1989), o ensino criativo envolve “técnicas de instrução destinadas a ajudar
os alunos a aprender novos materiais por forma a possibilitar-lhes a
transferência dessa aprendizagem para
novos problemas”, enquanto Slabbert (1994) vê o ensinar
criativamente como “ser sensível
ao conceito que o aluno individual tem de si próprio, e do seu papel na sala
de aula”. Várias
investigações identificaram comportamentos típicos de professores
criativos. Por exemplo, Alencar (1994)
descreve o ensino criativo como o “cultivar,
nos alunos, o interesse pela descoberta e pelo conhecimento, estimulando-lhes
a iniciativa, a auto-confiança, as ideias novas, a curiosidade, a
independência e a capacidade crítica; levando o aluno a ter percepções
divergentes de um problema, permitindo-lhe discordar com os pontos de vista
do professor; diversificando as metodologias de ensino; tratando os alunos
como indivíduos com valor; confraternizando com eles fora da sala de aula”. Timberlake (1982) cita o “encorajar os alunos a fazerem coisas que
nunca fizeram antes, a escreverem as suas histórias ou poemas, e a proteger a
sua criatividade da crítica e do ridículo”. Nestes termos, o ensino criativo envolve a
aprendizagem activa e não o didatismo, sendo a sua finalidade a de facilitar
o pensamento e a aprendizagem criativos, ajudando o aluno a “tornar-se sensível aos problemas,
deficiências e falhas no conhecimento, falta de elementos e desarmonias; a
juntar a informação disponível; a definir a dificuldade ou a identificar os
elementos em falta; procurar soluções, construir hipóteses, modificá-las e
voltar a testá-las; aperfeiçoá-las; e finalmente a comunicar os resultados”
(Torrance e Myers, 1970). Em
qualquer dos casos, estas definições e listagens revelam algo da complexidade
do exercício do ensino criativo, e caem facilmente na armadilha do
“professor ideal”, ao fazerem descrições longe das possibilidades
do professor médio, ou sem valor heurístico, em termos de investigação e
formação de docentes. Ora,
os próprios professores são bastante influenciados pelas conceptualizações que possuem, relativas
aos seus antigos professores, e isso pode levá-los a exibirem padrões de
comportamento pouco flexíveis ou imaturos, pelo menos no início das suas
carreiras (Harrin, 1993), dificultando-lhes assim a construção criativa do
seu papel. Têm também de se ajustar às
exigências e expectativas da hierarquia, dos colegas e dos alunos, podendo
estas ser ou não conflituantes, em relação ao ensino criativo. Cropley (1992), por exemplo, fornece
evidência de que muitos professores criativos têm dificuldades na sua relação
com os colegas. É talvez por isso que
o desempenho do papel de professor pode obrigar à construção de uma percepção
própria do acto educativo e da relação com o aluno, que não coincide com a
percepção que um mesmo indivíduo teria como aluno. A dúvida que se coloca é
se a mudança de percepção ocorre apenas com a mudança de papel, ou se se vai
transformando à medida que se aproxima o momento dessa mudança, materializado
neste caso com o aproximar do fim do curso da faculdade. Se
bem que vários autores, como Torrance e Myers (1970), tenham investigado a
forma como os alunos do ensino secundário percepcionam o ensino criativo, tal
não tem sido investigado em relação ao ensino superior. Tanto quanto nos é
dado saber, nenhum estudo foi feito sobre os ajustamentos e desajustamentos
das percepções entre professores e alunos, por forma a obter uma compreensão
mais profunda do que está envolvido na transição do papel de aluno para o de
professor. Um passo inicial pode muito
bem ser o investigar das mudanças de percepção do ensino criativo, à medida que
os alunos progridem no sentido de poderem vir a ser professores. Será
que essa progressão na Universidade (ou Escolas Politécnicas) é favorável à
melhoria da percepção sobre o ensino criativo? A sensação que existe é uma
resposta negativa a esta pergunta, e isso pode ser verificado como corolário
da hipótese proposta. O
estudo realizado por Sousa (1999), procurou provar a hipótese de que os
professores percepcionam a sua actividade docente como mais dirigida à
eficácia, enquanto os alunos imaginam que, caso fossem professores, se
orientariam mais para as questões que tivessem a ver com a criatividade. A provar-se a hipótese, professores e
alunos percorrem caminhos separados, cuja convergência só pode ser feita
pelos docentes que conseguem um equilíbrio entre a identificação do seu papel
com o esperado pelos alunos, na vertente relacional, e a esperada pelos
colegas, na vertente da tarefa. MÉTODO Um
questionário, construído a partir da teoria dos constructos pessoais de
Kelly, e do método da grelha (Stewart, Stewart & Fonda, 1981), foi
aplicado em cada uma das sete Escolas do IPL, a uma amostra de 852 alunos dos
3 primeiros anos (bacharelatos), e 245 professores, representando uma
população de 8.068 alunos e 912 professores, respectivamente, tal como indicado
na Tabela 1. Foram também realizadas
26 entrevistas e 18 observações de aulas, de entre 62 professores que foram
designados como exemplos de criatividade no ensino pelos organismos
representativos dos alunos, Tabela
1. Comparação entre a amostra e o
total da população de alunos dos cursos de bacharelato, e dos professores do
IPL, em cada uma das variáveis independentes consideradas (n = 1 097).
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