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Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm |
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APRENDIZAGEM, CRIATIVIDADE UM ESTUDO DE CASO[1] Ana Luiza Amaral - UnB[2] Albertina Mitjáns
Martínez - UnB[3]
INTRODUÇÃO
Na História da Educação
percebe-se uma relação entre Didática e Psicologia da Aprendizagem.
Geralmente, os paradigmas de aprendizagem definidos pelas teorias
psicológicas influenciam fortemente a educação interferindo diretamente na
teoria, na metodologia e nas práticas educativas. A concepção adaptativa e
instrumental da aprendizagem
conduziu ao pragmatismo e ao utilitarismo na esfera educativa. Dentro desse
espírito, a ênfase recaiu sobre os métodos e tecnologias aplicados ao ensino
e a prática educativa ficou comprometida com os resultados, preocupando-se
pouco com os processos subjetivos que os promoviam. Essa rígida orientação
para a objetividade não permitiu uma consideração subjetiva nem do contexto
escolar, nem tampouco dos indivíduos concretos. Conseqüentemente, as
histórias de vida constituídas a partir de experiências e vivências no
processo de aprendizagem que estabelecem sentidos subjetivos no percurso de
construção de conhecimentos também foram desconsideradas. Pensar na
aprendizagem como um processo de sentido implica considerar o sujeito que
aprende numa rota singular de sua aprendizagem por meio da emocionalidade
gerada nesse processo. Isso supõe que a aprendizagem depende muito da
condição subjetiva de quem aprende e do contexto onde está inserido. Quando o
aluno não produz sentido no processo de aprender, a aprendizagem se converte
em uma mera descrição ou memorização o que dificulta os processos criativos.
A partir desse quadro, uma queixa freqüente dos professores refere-se a uma
indisposição dos alunos para a aprendizagem que reflete uma falta de
encantamento pelo trabalho acadêmico. Na literatura sobre criatividade e Educação
encontramos estudos sobre a criatividade no processo de aprendizagem. Porém,
essa é uma direção de trabalho relativamente pouco trabalhada se comparada
com as linhas de trabalho direcionadas a compreender os elementos inibidores
e favorecedores da expressão da criatividade no contexto escolar e ao desenho
de estratégias para o seu desenvolvimento (Mitjáns Martínez, 2001). As pesquisas
relacionadas à criatividade no processo de aprendizagem enfocam
principalmente a caracterização dos alunos criativos, as representações que
os professores têm da criatividade dos alunos e as representações que os
alunos têm da sua própria criatividade (Mitjáns Martínez, 2006).
Interessantes trabalhos nesta direção tem sido desenvolvidos por Alencar
(1974, 1996, 1997), Chan&Chan (1999) e Dawson (1999), entre outros. A aprendizagem criativa
a partir de uma perspectiva histórico-cultural da subjetividade (Gonzalez Rey
2001, 2003b, 2003c), tem se constituído, nos últimos anos, um de nossos
objetos de interesse. Guimarães (2004)
fez um estudo sobre as estratégias de aprendizagem e as configurações
subjetivas de estudantes criativos. Mitjáns Martínez (2006) trabalhou sobre
as relações ente a criatividade na aprendizagem e o trabalho pedagógico. O
presente trabalho se insere nessa linha de pesquisa e faz parte de uma
pesquisa de dissertação de mestrado que tem como objetivo central compreender
a relação entre o sentido subjetivo da aprendizagem do aluno universitário e
a sua expressão criativa nesse processo. Para contemplar tal objetivo,
optamos pela perspectiva histórico-cultural da subjetividade desenvolvida por
González Rey (2001, 2003b, 2003c) e pela compreensão da criatividade como
processo da subjetividade proposta por Mitjáns Martínez (1995, 1997, 2002,
2004). A metodologia utilizada na dissertação teve como suporte a
Epistemologia Qualitativa (GONZÁLEZ REY, 2003a) que oferece nos seus
pressupostos, elementos fundamentais para viabilizar o estudo dos fenômenos
humanos complexos. Optamos pelo estudo de caso utilizando instrumentos
abertos e semi-abertos, tais como: entrevista, técnica de completar frases,
redação e análise documental. Na etapa de seleção dos sujeitos, cinco alunos
universitários criativos dos cursos de Medicina, Arquitetura, Direito,
Psicologia e Física foram selecionados. No presente trabalho, será
apresentado o caso de um aluno criativo do curso de Direito e a relação entre
o sentido subjetivo da aprendizagem e a sua expressão criativa nesse
processo.
ANÁLISE DO CASO Pedro[4] é aluno
do curso de Direito da UnB. No momento da participação na pesquisa, Pedro
cursava o último semestre do curso, no qual teve uma trajetória acadêmica bem
sucedida. Para Pedro a
aprendizagem configura-se como uma tendência orientadora da sua
personalidade. Isso implica em reconhecer a aprendizagem como uma atividade
nuclear e altamente significativa na sua vida, o que reflete um alto grau de
motivação e um empreendimento de esforços na direção de novas aprendizagens.
O sentido subjetivo da aprendizagem como produção simbólica e emocional de
Pedro é configurado por quatro aspectos explicitados a seguir: a) O sentido
subjetivo da aprendizagem de Pedro traduz a sua busca constante pelo sentido
das coisas. Ele manifesta o desejo de desvelar o mundo a sua volta,
compreendendo o funcionamento, o mecanismo, aquilo que está implícito. Ele
revela um posicionamento ativo
diante do que lhe acontece, o que lhe permite fazer pensável a sua
experiência de vida por meio dos seus processos de aprendizagem. A partir das
informações obtidas nos diferentes instrumentos, é possível afirmar que os
conhecimentos só se operacionalizam em um terreno fertilizado pelos sentidos
e significados constituídos pelo aprendente. Isto é o que caracteriza a
dimensão subjetiva da aprendizagem. Podemos perceber que Pedro necessita
recorrer ao que já construiu anteriormente para poder construir novos
conhecimentos. Essa construção anterior não diz respeito exclusivamente ao
seu sistema de conhecimentos, mas está perpassada também por outros sentidos
subjetivos já constituídos na sua subjetividade individual. É possível
perceber que a aprendizagem funda-se nesse ir e vir sobre os novos
conhecimentos e ele mesmo como sujeito aprendente. b) A aprendizagem
configura-se para Pedro como uma necessidade que ao ser conquistada, gera
prazer, bem estar emocional e uma autovaloração positiva. O
sentido subjetivo que Pedro constitui para a aprendizagem revela que as
emoções, mais do que o motor, representam a seiva que nutre seus processos de
aprendizagem. Ou seja, a aprendizagem se efetiva com a configuração
permanente de sentidos e significados que correspondem a processos de
subjetivação acionados a partir das emoções que ele vivencia nesse processo.
Pedro revela que, muito além da construção de um sistema de conhecimentos, a
aprendizagem possibilita que ele construa a si mesmo como sujeito pensante,
ou seja, como autor de seus pensamentos. Outro aspecto relacionado à
emocionalidade e que vale a pena destacar, relaciona-se com o fato de Pedro
colocar em relevo a importância da aprendizagem estar a serviço das suas
necessidades e do seu processo de desenvolvimento para que tenha um valor
efetivo. A possibilidade de aprender criativamente surge a partir de uma
decisão e escolha próprias que vão além de um mandato do outro. Quando a aprendizagem
é uma resposta submissa àquele que ensina, ela se mantém em um status de
atividade formal, pois não inclui aquele que aprende. c) Aprendizagem é
um exercício de interação que se estabelece no diálogo, na troca e no debate
das idéias. Para poder definir os processos criativos na
aprendizagem, é necessário falar do vínculo que o aluno estabelece com a
situação de ensino-aprendizagem. A aprendizagem ancora-se entre o sujeito
aprendente e o cenário sócio-cultural onde está inserido. Os processos da
subjetividade individual e social entrelaçam-se e constituem a base sobre a
qual se apóiam os processos de aprendizagem. A ênfase dada por Pedro à
importância do outro nos seus processos de aprendizagem nos permite afirmar
que não é possível se referir à aprendizagem sem incluir a dimensão da
alteridade. Pedro encontra prazer no espaço grupal, pois reconhece ali um espaço
privilegiado para o debate saudável das idéias. Pensar com o outro se
apresenta como uma possibilidade de troca necessária a sua aprendizagem. É
possível perceber que a aprendizagem refere-se a uma construção própria que
se inscreve na intersubjetividade. Porém essa inscrição só acontece
verdadeiramente porque Pedro sai do exercício mnêmico de apenas repetir o
outro. Nesse sentido, ele defende que o tempo da aula tem de contemplar a
palavra do professor e a dos alunos. Isso nos permite afirmar que a
aprendizagem não é um processo automático em que é possível tomar a palavra
do professor como se fosse própria. É um processo que supõe diferenciação. Ou
seja, é um processo no qual quem aprende necessita incluir a própria palavra.
d) A aprendizagem
possibilita uma capacidade reflexiva e impulsiona a um posicionamento mais
ativo e crítico na vida. Para Pedro as suas conquistas na aprendizagem
refletem um avanço na sua compreensão sobre o mundo a sua volta e,
conseqüentemente, uma atitude questionadora sobre a realidade. É possível
perceber a relação entre a constituição de sentido subjetivo sobre a
aprendizagem e o reconhecimento de si mesmo como protagonista dessa ação. É a partir desse reconhecimento que
surge a confiança de que sua capacidade reflexiva pode produzir algum efeito.
Isso nos permite afirmar que a aprendizagem é um processo que requer um
posicionamento, uma atitude daquele que aprende sobre o que é aprendido.
Pedro denuncia que o valor instrumental e adaptativo conferido à educação não
é suficiente para implicar o sujeito nos seus processos de aprendizagem. Ele
coloca em relevo a importância da constituição de sentido sobre os processos
educacionais, que precisam estar a serviço daquele que aprende e da
transformação da realidade social na qual está inserido. A necessária
constituição de sentido subjetivo sobre a aprendizagem é fundamental para que
o aluno conecte-se com uma condição humana primordial: a possibilidade de ser
sujeito dos próprios processos de desenvolvimento. Ele não fica apenas à
mercê do que o contexto social propõe, mas tem condições para inventar outros
caminhos possíveis. CONCLUSÃO O sentido subjetivo como
produção simbólica e emocional do sujeito constitui um elemento essencial
para a manifestação da criatividade, visto que a criatividade é um processo
de base motivacional que só acontece mediante uma implicação efetiva do
sujeito. Outro ponto fundamental que merece destaque é a relação entre a
postura ativa de Pedro na sua condição de sujeito e a sua expressão criativa
na aprendizagem. A constituição de sentido subjetivo sobre a aprendizagem
favorece a expressão do sujeito psicológico que se constitui como a dimensão
interativa e atuante da subjetividade individual, sem a qual a criatividade
não pode manifestar-se. É possível perceber como Pedro busca um movimento
próprio na aprendizagem ao se recusar a converter o seu processo de
aprendizagem em um processo de identificação com a figura do professor. Ele
marca o seu lugar de aluno ao incluir a sua singularidade. Ele opõe
resistência à repetição vazia e se sente desafiado na sua capacidade criativa
a ir além do que o professor transmite. Ele expulsa o mandato da cópia e
autoriza-se a incluir o que pensa. Ao se converter em
sujeito da própria aprendizagem, Pedro não se limita a reproduzir, mas se
propõe a criar, a partir dos seus processos de aprendizagem, algo novo e
valoroso para o seu processo de desenvolvimento. Nesse sentido, podemos
afirmar que uma das funções da aprendizagem é personalizar os conteúdos
gerais para convertê-los em específicos para o sujeito. Ou seja, transformar
algo distante, desconexo e impróprio em algo próprio, único e particular. Essa
conversão criativa só é possível mediante a constituição de sentido subjetivo
sobre àquilo que se almeja aprender. Assim sendo, a informação personalizada
não se constrói unicamente sobre os processos cognitivos, mas, sobretudo, com
o suporte dos sentidos e significados constituídos pelo aluno sobre os
conteúdos, a situação de ensino-aprendizagem e sobre ele mesmo como
aprendente. É nesse terreno subjetivo que a criatividade como processo de
produção de novidade e valor pode manifestar-se na aprendizagem. Porém, não podemos
reduzir a função da aprendizagem à construção da informação personalizada. A
aprendizagem, entendida como processo de constituição de sentido, possibilita
ao aluno não apenas criar novos conhecimentos valorosos para o seu processo
de desenvolvimento e aprendizagem, mas possibilita também que ele crie a ele
mesmo como sujeito aprendente, como sujeito autor da própria aprendizagem.
Pedro revela que muito além da construção de um sistema de conhecimentos, a
aprendizagem criativa devolve a ele uma auto-imagem que o fortalece e o
encoraja a seguir aprendendo. Ou seja, que a aprendizagem é um processo que
encontra as suas raízes na vivência de satisfação pela conquista de novos
saberes, na experiência de prazer pela autoria dos próprios pensamentos e no
reconhecimento de que é capaz de transformar a realidade e a si mesmo. Essa
constatação marca o papel central das vivências emocionais experimentadas
pelo sujeito no seu processo de aprendizagem. Concluindo, podemos
estabelecer uma relação recursiva entre a constituição de sentido subjetivo
na aprendizagem e a expressão criativa nesse processo. Se por um lado, a
constituição de sentido subjetivo na aprendizagem alimenta a criatividade ao
implicar o aluno nesse processo e ao mobilizar configurações subjetivas
facilitadoras da ação criativa, por outro lado, a aprendizagem criativa
possibilita ao sujeito vivências emocionais que o fortalecem como sujeito
aprendente e contribuem para a constituição de sentidos e significados que
alimentam uma relação positiva com a aprendizagem. Além disso, podemos
observar como a constituição de sentido subjetivo na aprendizagem pode
contribuir para a constelação de novos sentidos que transcendem à própria
aprendizagem criativa como a autovaloração positiva e a expressão de
autonomia e independência. Nesse sentido encontramos evidências de que a
expressão criativa na aprendizagem, ao favorecer ao aluno vivências de
satisfação e realização pessoal, pode se converter em um espaço de promoção
de saúde ao contribuir para o desenvolvimento de um conjunto de elementos
subjetivos que possibilitam ao sujeito um posicionamento criativo diante da
própria vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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profissional ___ Criatividade
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Aprendizagem e trabalho pedagógico. Campinas: Alínea, 2006. [1] Artigo elaborado a partir de um trabalho apresentado no IV Encontro
de Pós-Graduação da UnB (Set/2006) [2] Mestranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da
Universidade de Brasília - Brasil [3] Ph.D. Profª. da Faculdade de
Educação da Universidade de Brasília – Brasil |
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