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Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm |
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ALGUNS CONTORNOS DO INSIGHT Mª de Fátima Morais (Departamento
de Psicologia; Universidade do Minho; Portugal) INTRODUÇÃO Falar
em insight é falar em criatividade.
Falar em criatividade é falar, necessariamente, em insight. Não estoua referir-me à
produção divergente de respostas, mas à resolução criativa de problemas, a
qual é mais ampla como desde Guilford (1956),
aliás, tem sido reconhecido. Criatividade é então a eficácia em novidade, é
romper expectativas, é a possibilidade de ser-se lucidamente inesperado: e,
para tal, necessariamente, existe insight.
“Esta questão central da psicologia do pensamento que tem persistido
através do século" (Mayer, 1995, p. 4) é então apontada frequentemente
como associada ao processo criativo, globalmente: nas suas manifestações mais
mundanas ou famosas (Seifert et al., 1995; Sternberg & Lubart, 1995). Por
sua vez, quando se aborda este conceito, necessariamente também emerge a importãncia da sua desmitificação,
da sua afirmação enquanto pesquisável podendo ser assim alvo de reflexão,
avaliação e mesmo promoção. Desta forma, gosto de lembrar palavras, quase
poéticas, de Metcalfe (1995, p.x)
lamentando que “a sua consideração enquanto algo sobrenatural
entravasse investigadores na exploração deste conceito que é um dos processos
cognitivos mais importantes. Porém, fenómenos
naturais de todas as espécies - relâmpagos, marés, o nascer do sol e da lua -
foram atribuídos a intervenção divina até que as suas causas naturais fossem
entendidas…”. Precisamos, cada vez mais, então, de entender insight. O
termo insight foi introduzido na
Psicologia pela Teoria da Gestalt, referindo-se aí
tanto à reorganização do campo perceptivo como a processos mais complexos de
pensamento. Contudo, mesmo nesse paradigma inicial, insight seria muito mais divulgado enquanto associado à processos mais básicos como a percepção ou ao
comportamento animal do que a fenómenos cogntivos humanos – e veja-se os os trabalhos de Duncker(1945)
com conceitos nucleares como o de rigidez functional
ou a abordagem de problemas matemáticos pelo próprio Wertheimer
(19945/1991). Viria
a ser um conceito depois negligenciado com o avanço da Revolução Cognitiva,
recuperando interesse recentemente justamente pela perspectiva que durante
anos atrás o obscureceu. Viria a ser (re)lido enquanto processamento informativo a partir da
Psicologia Cognitiva, nascendo um interesse renovado pelo insight num reaproveitamento ou numa reinterpretação de informações (Eysenck
& Keane, 1990; Henle,
1992). É, desta forma, um olhar que tenta uma maior operacionalização
desse conceito ou, como disseram Langley e Jones
(1988), que tenta retirá-lo do carácter místico de
que estava revestido. Um exemplo desta nova motivação face à compreensão do insight são as quase 600 páginas de
investigação recente constituintes da obra The (nature of insight Sternberg & Davidson,
1995). É, na grande maioria dos seus trabalhos, também um exemplo da
importância explícita que este conceito tem na resolução criativa de
problemas (e.g. Isaak & Just,
1995; Dunbar, 1995). MAS O QUE É O INSIGHT? A nível de uma
definição operacional de insight,
que permita o seu reconhecimento, pode-se começar por lembrar a posição da Gestalt afirmando-o como a descoberta súbita da resposta
a um problema (cf. Mayer, 1996). Numa linguagem mais recente, é considerado
como a passagem súbita de um estado de desconhecimento ou de incompreensão
para um estado de conhecimento e resolução face a um
problema (Gick & Lockhart,
1995; Mayer, 1995). Ou se quisermos, numa perpectivação
ainda mais consensual, a reestruturação súbita de informação na substituição
de uma representação para outra que, por fim, resolve o problema. A criança
que, de repente, “vê” que o pato desenhado afinal “também
pode” ser um coelho, ou a taça um par de caras, realiza um insight da mesma natureza que o
contido no problema humorístico “um galinheiro tinha 10 galinhas, veio
um lobo e comeu 2. Quantas ficaram?” (podendo
ficar 8 ou12..) ou que o contido numa descoberta científica que muda o mundo.
A representação A deu lugar, subitamente, à representação B, menos óbvia mas eficaz. Que
características específicas deste fenómeno podem,
então, ser apontadas? Estando presente na maioria das definições de insight (Dominowsky
& Dallob, 1995), e desde os trabalhos da Gestalt (Kohler, 1925; Duncker, 1945), emerge o carácter
súbito da resposta. Este dado viria mesmo a ganhar suporte experimental.
Partindo de problemas com e sem exigência de insight, pediu-se a sujeitos para analisarem a sua percepção face
à proximidade da solução enquanto os resolviam. Verificou-se, então, que
quando o insight não era exigido,
havia um incremento, ao longo da resolução, nessa percepção; quando o
problema o exigia, tal percepção era súbita. Neste último caso, havia também
menor previsão de sucesso face ao problema por parte do sujeito (Metcalfe, 1986; Metcalfe & Wiebe, 1987). Este carácter
súbito da resposta é ainda referido por vários autores actuais
(Davidson, 1995; Gick
& Lockhart, 1995; Seifert
et al., 1995). Porém, há que ter em
conta que a natureza do problema pode complexificar
(e não contrariar) este dado. Se o problema exige uma resolução complexa e
envolvente de várias etapas, o insight
pode ocorrer mas não ser suficiente para a resposta correcta acontecer (eg. Dominowsky & Dallob, 1995).
Estes autores dão o exemplo, muito divulgado, dos 9
pontos distribuidos igualmente por 3 linhas
paralelas e onde se apela para serem ligados apenas por 4 traços sem levantar
o lápis do papel. O insight dá-se
quando o sujeito percebe que pode desenhar as linhas além do quadrado formado
pelos pontos mas poderá só depois reflectir que linhas deve fazer. Nos problemas de
resposta verbal, geralmente o insight e a resposta coincidem. Outra
característica deste conceito é o seu surgimento espontâneo, não havendo
consciência do que o provocou e levando a uma reacção
de surpresa (eg. Mayer, 1995; Seifert
et al., 1995). Juntamente com a
ocorrência súbita da resposta, este aspecto provoca ainda um sentimento de
satisfação (Seifert et al., 1995). Por sua vez, estas reacções
fazem com que o insight tivesse
sido sempre considerado como a experiência
do Aha (Kohler,
1925; Gick & Lockhart,
1995). Esse tipo de experiência decorre também de uma outra característica na
resolução por insight, ou seja, da
resposta correcta não ser imediata ao contacto com
o problema, havendo um momento inicial de insucesso (Davidson,
1995; Weisberg, 1995), como veremos ainda neste
artigo. COMO SE PODE EXPLICAR INSIGHT? Não
pretendendo ser exaustiva em explicações e sim mais assertiva em demonstrar
que insight é explicável, somente
vou tomar como referência alguns trabalhos da Psicologia Cognitiva que o
associam a processos de armazenamento, organização e
activação de conhecimento e à presença de relações
analógicas ou metafóricas nesse processamento cognitivo. Langley e Jones (1988) têm esta perspectiva face ao insight baseando-se em trabalhos com cientistas e
baseiam-na no modelo de memória de Activação por
Propagação (spreading activation).
Neste modelo, a memória é tomada como uma imensa rede de conceitos e de ligações
entree les, sendo activada a rede a partir de uma informação exterior.
P.ex, a palavra “verde” vai activar um
conceito próximo (ex: “erva”) e este activará,
por sua vez, conceitos próximos (ex: “campo”mas
também “golf” e assim sucessivamente
até ser possível a associação entre conceitos remotos e potencialmente
criativos. Na sua explicação, Langley e Jones usam
os termos propostos por Wallas (1926) para a
resolução criativa de problemas. Assim, na preparação acontece a o armazenamento de informação na memória a
longo termo (MLT) mas já de uma forma potencialmente útil, instrumental. Por
exemplo, se é memorizado um esquema de dois objectos
com diferentes níveis de água unidos por um tubo comunicante, ele poderá ser
memorizado em associação ao conceito de equilíbrio. Perante o problema, o
sujeito pode já aqui tentar activar informação para
resolvê-lo mas ainda não há suficiente intensidade na ligação entre
informações que permita uma recuperação de dados criativa e, assim, o
cientista desiste. Entretanto as ligações entre osconceitos
vão sendo cada vez mais trabalhadas, pois é dada grande atenção ao que vai
sendo estudado. Duas
formas de insight podem, então,
surgir. Uma informação nova entra na memória a curto termo (MCT), a activação mnésica propaga-se e
conceitos armazenados, que já ganharam ligações fortes, podem vir à MCT e aí contactarem com a nova informação implicando insight. Pode também acontecer que o insight não envolva somente a nova informação
e uma antiga. Essa nova informação pode desencadear uma activação
da memória permissora da associação entre duas
informações armazenadas na MLT e ser então esta conjugação a responsável pelo
insight. Por exemplo, o cientista
busca a solução para um problema de temperatura em dois objectos.
A informação exterior pode ser a visão de uma queda de água que vai activar o esquema memorizado dos objectos
associado com o conceito de equilíbrio. Então, esta informação poderá activar uma outra relacionada com dois objectos de temperaturas diferentes e as duas informações
conjugarem-se dando uma solução mostrando a transferência de temperatura de
um objecto para o outro. Este é, assim, o momento
da iluminação que se dá
inconscientemente pela rapidez com que a recuperação e conjugação de
informação acontece. Isso, para os autores, explica
a sensação de um fenómeno inexplicável e a consequente reacção de
surpresa. O
momento da verificação acontecerá
no desenvolvimento da ideia, não havendo a fase de
incubação. Langley e Jones (1988, p. 190) afirmam
que, para haver insight, a memória
está "simplesmente à espera que alguma pista inicie a recuperação de uma
analogia promissora" (analogia essa presente nas duas alternativas de insight consideradas). No
sentido da importância atribuida à activação da informação na memória e ao pensamento
analógico (ou metafórico), pode-se ainda referir a perspectiva de Martindale (1989). Também este autor fala no papel que
uma nova informação pode ter na activação de outras
duas armazenadas na MLT e que, já num nível consciente, se conjugam
provocando insight. Dá mesmo um
exemplo pessoal de um texto cuja leitura (nunca finalizada por ele) fez
associar dois conceitos remotos. Sublinha ainda neste funcionamento, a
presença de processos primários e secundários do pensamento. Assim, (e também
baseando-se nos termos de Wallas)
na preparação há uma focalização
muito grande da atenção fazendo com que o espaço de activação
da memória seja menor. Consequentemente, não surgem conexões criativas e o
sujeito desiste. Ao contrário de Langley e Jones
(1988), este autor utiliza a fase de incubação
na sua explicação, dizendo que aí alguns conceitos associados ao problema
continuam activados no limiar da consciência e que,
como o sujeito continua activo (noutros assuntos),
novas informações são recebidas sendo estimuladoras de um maior espaço de activação (porque há menor focalização da atenção).
Então, um relacionamento analógico (entre informação remota) pode acontecer
dando-se a iluminação, isto é, o insight. A fase de verificação acontecerá a seguir. Outro
trabalho que, pela análise de resolução de problemas, defende uma postura
semelhante às anteriores no que respeita ao armazenamento, organização,
recuperação e conjugação analógica de informação, foi conduzido por Seifert e colegas (1995). Mais uma vez, são usadas as
fases de Wallas (1926) para sistematizar esta
proposta explicativa e, ainda contrariamente a Langley
e Jones (1988) que negam a incubação, essa fase é aqui tomada como relevante.
Como olham eles então a incubação e as outras fases da resolução criativa de
problemas? O encontro e a compreensão de obstáculos
na resolução dos problemas e a sua posterior combinação com uma informação
nova é o mais importante. Após uma interrupção na resolução de problemas, os
autores verificaram que havia um maior aproveitamento de informações para a
solução criativa quando os sujeitos retomavam a resolução na condição de
terem já encontrado e analisado obstáculos. O que acontece, então? Na preparação, há dispêndio de tempo e de
atenção no problema, o que permite chegar aos obstáculos e à análise destes
(“porque a resolução está a ser ineficaz? Porque não estou sendo
capaz”). Esta informação é, assim, armazenada na MLT transformando-se
em indicadores importantes face ao problema. Na fase de incubação, há exposição a informação
(interna ou externa) que pode interagir com tais indicadores e fornecer uma
nova representação do problema. Acontece, então, a iluminação ou o insight,
de uma forma súbita e geralmente inconsciente. A verificação virá depois. Vamos exemplificar com a situação
proposta por Weisberg (1987): “Ao almoço,
tinha uma taça plena de café. Caiu-me dentro da taça o meu lenço mas este não se molhou. Porquê?” Se este problema
fosse muito complicado e as pessoas gastassem muito tempo pensando nele,
inicialmente poderiam analisar os obstáculos: “mas porque não se
molhou?! Se o café é líquido, tinha de se molhar!” e essa informação,
esse obstáculo analisado, ficaria na memoria como
sendo um indicador importante. A pessoa poderia desistir de pensar no
problema e um dia ver água gelada transformar-se em líquido ou o contrario e,
subitamente – e analogicamente - perceber que o café também poderia
estar em grão e não em líquido, dando-se um insight. Na opinião dos
autores, esta é uma forma de entender como as mentes preparadas, como falava
Pasteur, são favorecidas, podendo nascer delas actos
profundamente criativos. De
todas as explicações anteriores parece, então, emergir algumas constantes na
compreensão do insight. Assim, para
todas elas, este fenómeno desempenha um papel
central na resolução criativa, é pesquisável e tradutor de um processamento
cognitivo envolvente de vários requisitos. Neste processamento, parece
salientar-se a busca e a manipulação selectiva de
informação, assim como uma activação da memoria que permite o encontro de similaridades entre
informações armazenadas e percepcionadas. Quase
todas as explicações referem ainda explicitamente a correspondência do insight a uma alteração de representação
do problema. Esta correspondência parece, por sua vez, estar em sintonia com
definições da Teoria da Gestalt (Duncker, 1945; Wertheimer,
1945/1991). ALGUMAS POLEMICAS O
conceito de insight não aparece
como pacífico, havendo várias questões que, simultaneamente, parecem fonte de
polémica e de desafio para futuros investimentos.
Uma outra questão susceptível de polémica é a
própria definição de problema de
insight. Isto porque ela abrange uma diversidade de situações ou, como
afirma Weisberg (1988, p. 152), uma "classe heterogénea" de problemas, e porque estas não são condição suficiente para que a sua resolução correcta signifique insight
(eg. Gick & Lochart, 1995). Serão, então, dois aspectos a explorar.
No primeiro caso, pode ver-se classificações de problemas
de insight como as de Davidson e Sternberg (1986) em
função de processos cognitivos requeridos a ou de Dominowsky
e Dallob (1995) em função do conteúdo envolvido
(espaciais, verbais e de manipulação real de objectos).
Também o tipo de resposta exigida diversifica os problemas de insight. Assim,
há as situações de resposta errada quando o problema induz uma representação
que rápida mas ineficazmente leva à resposta, e de
ausência de resposta quando é difícil formar uma representação do problema
que permita qualquer solução (Davidson, 1995; Davidson, Denser & Sternberg, 1996). Assim, mesmo havendo características
comuns a todos estes problemas como a ignorância do método de resolução e a
prévia determinação de resposta única (Mayer, 1995), a ausência de uma
definição específica de problema de insight
e a diversidade em causa prejudicam a investigação (Dominowski
& Dallob, 1995; Weisberg,
1995). Por
sua vez, um problema de insight
pode não implicar a ocorrência deste fenómeno.
Pode-se resolver correctamente um problema de
insight sem necessariamente ter um insight!
É uma interacção entre o problema e o conhecimento
do sujeito que vai determinar tal ocorrência. Se há experiência do sujeito
naquele tipo de situações (resolução por alteração de representação mental)
ou nos conteúdos em qustão, pode haver uma resposta
imediata não requerendo reestruturação cognitiva do problema, logo, de insight. O seu conhecimento permitiu a
representação correcta da situação quando contactou com a situação (Davidson,
1995; Gick & Lockhart,
1995; Weisberg, 1995). Por exemplo, no
“problema do café”, um empregado que trabalha todos os dias com
café poderá ver de imediato a resposta porque o seu conhecimento lhe permite
de imediato a representação correcta.
Também, por exemplo, num problema que estimula uma representação (errada) a nível de cálculos, um sujeito com muita experiência em
cálculos pode de imediato ter a
resposta correcta. Assim, considerando a
diversidade de situações apelativas de insight
e a interacção destas com o sujeito que as resolve,
a garantia de que tal fenómeno ocorre vem mais da
observação do processo do que da resposta (e.g. Davidson,
1995), o que sugere que provas de avaliação de insight sejam analisadas sempre a nível qualitativo (como se
resolveu o problema) e não somente quantitativo (respostas correctas e erradas). Este
conceito parece então surgir, simultaneamente, como permitindo avanços mas estando ainda muito carente a nível de investigação.
Não há mesmo uma teoria sólida sobre insight,
talvez dependendo esta de maior desenvolvimento a nível de
uma teoria global da cognição, aplicável a diversos objectos
(Eysenck & Keane,
1990; Necka, 1993). Contudo, dizer que não se
estudou totalmente o insight não
significa que a explicação racional de tal fenómeno
não existe, nunca esquecendo que "conheceremos a criatividade na medida
em que possamos ter um modelo de insight"
(Necka,1993,
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