|
Revista Recre@rte Nº6 Diciembre 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/Revista/recrearte06.htm |
||||||||||
|
DEZ VEZES DUAS AVALIAÇÕES DA CRIATIVIDADE Sara Bahia – FPCE-UL & Sara Ibérico Nogueira – ULHT RESUMO Independentemente do debate teórico
que apoia ou critica a postura reducionista da paradoxal procura de uma
medida de criatividade, pretendemos verificar os resultados de um grupo de
dez crianças e jovens com características de sobredotação em duas medidas de cratividade: o TCT-DP de
Klauss Urban e Hans Jellen e o TTCT de E. Paul Torrance, na medida em que
esta última tem vindo a ser considerada como uma boa forma de avaliação da
criatividade por ter como base uma concepção mais holística que contrasta com
uma concepção meramente quantitativa de pensamento divergente. Devido ao reduzido número de
sujeitos e a falta de normas que contextualizem os resultados portugueses em
ambos os testes não podemos retirar
conclusões fidedignas, a não ser a constatação de que cada teste possui
mais-valias que devem consideradas quando se opta por um em detrimento do
outro.
Há sempre dois lados da
questão, diz a sabedoria popular. Nós acrescentaríamos que há muito mais que
dois lados quando essa questão é a criatividade. Mais do que uma questão, a
avaliação da criatividade é um problema, ou mesmo, segundo alguns
especialistas um paradoxo. Indefinível e infinita
(Torrance, 1988) a criatividade é complexa e a sua avaliação necessariamente
limitada e reducionista, tal como grande parte dos instrumentos utilizados na
análise das dimensões psicológicas. Mesmo não resolvendo a contradição entre
a previsibilidade dos testes objectivos e a imprevisibilidade da
criatividade, a sua avaliação
revela-se absoluta e urgentemente imprescindível não só para nos inteirarmos
do nível de criatividade dos presentes e futuros intervenientes sociais tendo
em vista a sua plena potenciação, como também a analisarmos e compreendermos
de uma forma mais segura. Estas preocupações ecoam
ainda mais quando pensamos no caso específico da sobredotação. A análise e
subsequente reflexão sobre a excelência permite uma compreensão mais abrangente
das diversas esferas da essência humana. A actual confluência de saberes tem
permitido teóricos e investigadores em todo o mundo clarificar o conceito de
sobredotação em torno dos três anéis avançadas por Renzulli (1986): capacidade intelectual acima da média,
motivação intrínseca e criatividade. O aprofundamento da compreensão que
possuímos acerca de cada uma destas características permitirá uma intervenção
mais completa não apenas na sobredotação como também no ensino educação em
termos mais gerais, até porque como referia o poeta irlandês William Butler
Yeats há mais de um século “A educação não consiste em encher um balde
de água, mas sim atear um fogo”.
Contudo, muitos estudos
alertam para a necessidade de se utilizar cautelosa e criteriosamente testes
de criatividade como medida da sobredotação. Por isso, todos os estudos de
caso que elucidem um pouco mais a eficácia dos instrumentos de avaliação da
criatividade em jovens com características de sobredotação, contribuem para
um aprofundamento do conhecimento necessário para “atear novos
fogos”. Mas como avaliar este
processo multifacetado? Será que os mais de 250 instrumentos que reclamam
avaliar a criatividade são igualmente eficientes nesse propósito?
Parafraseando, chegamos mais uma vez à eterna questão: O que medem, de facto,
os testes de criatividade? Se analisarmos os
estudos europeus mais recentes sobre esta temática, excluímos à partida a
maior dos instrumentos que ao longo do tempo reclamaram avaliar a
criatividade, e acabamos por centrar a nossa atenção em dois instrumentos
cuja eficiência se sobrepõe aos outros: o TCT-DP (de Urban e Jellen) e o TTCT
(de Torrance). OS DOIS TESTES O TCT-DP (Test for
Creative Thinking - Drawing Production) de Urban e Jellen (1996), utilizado
predominantemente na Europa, procura avaliar de forma holística e gestaltica
a criatividade a partir de figuras inacabadas. Avalia dimensões cognitivas e
de personalidade (predisposição para assumir riscos, afectividade, humor,
quebra de fronteiras ou limites), na medida em que não pretende ser um teste
tradicional de pensamento divergente (que apenas avalia a fluência). Investigações várias têm
mostrado uma discriminação dos sujeitos muito e muito pouco criativos no
TCT-DP, em função dos níveis alcançados em certas áreas de interesse, como
por exemplo, a música (Scheliga, 1988, cit. por Urban & Jellen, 1996),
dos prémios de engenharia (Jellen & Bugingo, 1989 cit. por Urban &
Jellen, 1996) bem como dos passatempos tidos como mais ou menos criativos
(Crammond & Urban, 1995, cit. por Urban & Jellen, 1996). Em termos mais
específicos, é económico em termos de aplicação e cotação e avalia um total
de 14 dimensões, a saber: Continuações; Completações;
Novos elementos; Ligações feitas com linhas; Ligações que contribuem para um
tema; Quebra do limite dependente do fragmento; Quebra do limite independente
do fragmento; Perspectiva; Humor, emocionalidade e poder expressivo do desenho; Não
Convencional A; Não Convencional B - simbólico, abstracto,
fictício; Não Convencional C -
símbolo, figura; Não Convencional D - não estereotipado; e, ainda a Rapidez. O TTCT - Torrance
Tests for Creative Thinking constitui um meio legítimo de conhecer a
criatividade na medida em que tem o apoio validado da relação entre o
desempenho no teste e os desempenhos criativos futuros na vida real
(Torrance, 1988). Este teste é a medida de criatividade mais utilizada e mais
estudada em todo o mundo, e com estudos de validação mais consistentes, mas é
moroso e difícil de cotar. Por outro lado, Torrance apontou mais tarde para a necessidade de
incluir critérios adicionais na avaliação, o que indicia que os critérios de
cotação utilizados podem não proporcionar uma avaliação rica da criatividade.
Consequentemente, os testes figurativos são cotados em termos de fluência
(número de respostas), flexibilidade (número de categorias), originalidade
(frequência estatística) e, ainda, elaboração (número de pormenores).
Contudo, a utilização de dimensões complementares parece ser mais
enriquecedora. Assim, podemos atender a quatro dimensões “extra”
com base nas dimensões posteriormente recomendadas por Torrance, nomeadamente
a expressividade do título; a emotividade do desenho; a abstracção, fantasia
e humor e, ainda, o movimento, inversão, perspectiva, perspectivação
invulgar, rompimento de fronteiras. Porém, na leitura dos
resultados dos protocolos de jovens com características de sobredotação
(e possivelmente também para todos os protocolos, independetemente
do “rótulo” de sobredotação que não
possuam à partida), é preciso
considerar uma avaliação relativa da flexibilidade, originalidade e
elaboração em função da fluência. Isto quer dizer que a leitura que fazemos
dos índices, por exemplo, de originalidade, não deve ser linear. Assim,
quando nos deparamos com valores baixos nesse critério (originalidade),
devemos tentar perceber se os mesmos se devem ao facto
das respostas serem efectivamente pouco originais
ou ao facto de não terem sido apresentadas muitas
respostas não podendo, por consequência, os valores
relativos à originalidade, em termos absolutos, ser muito elevados. Um estudo de Pereira
(1998) explicita que os sobredotados não se
diferenciam dos outros em termos de fluência, o que
reduz as probabilidades da sua flexibilidade ser elevada. Assim, o grupo dos sobredotados parece investir mais na originalidade e na
elaboração, do que o grupo controlo. Por exemplo, um
protocolo que apresenta apenas duas respostas do tipo: “O leão camuflado de árvore no
Verão. A girafa camuflada de árvore no Outono”
ou “Que bela estalagmite!”
estaria condenado à partida… pois não
constituiria, em rigor, um exemplo de protocolo criativo, dado a fluência ser
diminuta e a originalidade, em termos absolutos, também ser reduzida…
No entanto, se procedermos a uma avaliação relativizada, por exemplo da
originalidade, em função do número de respostas dadas (fluência), estes
protocolos podem realmente ser considerados muito criativos. Ambos os testes
apresentam vantagens e desvantagens, mas será que medem
ambos o mesmo? Um tem mais vantagens do que o outro? São igualmente
discriminativos? ESTUDOS DE CASO Tendo como objectivo
comparar os resultados obtidos no TTCT (3 testes figurativos) e no TCT-DP,
este estudo preliminar incide sobre as respostas de 10 sujeitos com características
de sobredotação que frequentam o Programa de Enriquecimento promovido pela
ANEIS Lisboa. Apesar de o programa ser frequentado por mais crianças, apenas
4 raparigas e 6 rapazes entre os 7 e os 14 anos responderam a ambas as
provas. Por se tratar de um
conjunto de estudos de caso, apresentamos um resumo dos resultados obtidos
pelo TCT- DP (de Urban e Jellen) e pelo TTCT (de Torrance), sujeito a
sujeito, do mais novo para o mais velho. Ilustramos ainda cada caso com a
resposta que considerámos mais criativa, independentemente de se inserir num
ou noutro teste. 1. H – rapaz - 7 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total de pontos: 7 - Classificação B (abaixo da média) TTCT (Torrance) T1 muito original e muito pouco elaborado T2 pouco original, pouco elaborado, mas flexível; T3 pouco original, pouco elaborado e pouco flexível) 2. R – rapaz - 7 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 17 - Classificação C (na
média) TTCT (Torrance) T1 original e elaborado; T2 bastante original e pouco elaborado; T3 repetições (inclassificável?); Vários “extras”
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 19 -
Classificação C (na média) TTCT (Torrance) T1 original e
elaborado T2 pouco original,
pouco elaborado, mas flexível T3 só com uma
resposta 4. D – rapaz
- 9 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 28 -
Classificação C (na média) TTCT (Torrance) T1 original e
bastante elaborado; T2 medianamente original,
pouco elaborado e pouco flexível; T3 – muitas
repetições de caras e árvores; Vários
“extras” 5. J – rapaz
- 9 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 37 -
Classificação E (muito acima da média) TTCT (Torrance) T1 medianamente
original; T2 medianamente
original e elaborado, e flexível; T3 medianamente
original, pouco elaborado; Bastantes
“extras” 6. S –
rapariga - 12 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 11 -
Classificação A (muito abaixo da média) TTCT (Torrance) T1 muito original, T2 bastante
original, mas pouco elaborado T3 medianamente
original e pouco elaborado 7. P – rapaz
- 12 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 36 -
Classificação D (acima da média) TTCT (Torrance) T1 original e
elaborado; T2 pouco original
mas bastante elaborado; T3 medianamente
original e bastante elaborado; Muitos
“extras” 8. T– rapaz -
12 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 48 - Classificação E (muitíssimo acima da
média) TTCT (Torrance) T1 muito original e
elaborado; T2 e 3 bastante
originais, e muito elaborados e também flexíveis; Muitos
“extras” 9. E –
rapariga - 12 anos
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 35 -
Classificação D (acima da média) TTCT (Torrance) T1 nada original e
muito pouco elaborado; T2 pouco original
mas bastante elaborado e flexível; T3 medianamente
original, pouco flexível, mas bastante elaborado; Bastantes
“extras”
TCT- DP (Urban e Jellen) Total 38 -
Classificação D (acima da média) TTCT (Torrance) T1 nada original; T2 bastante
original, medianamente elaborado e flexível; T3 bastante
original, pouco elaborado, mas
flexível ANÁLISE INCONCLUSIVA Antes de iniciar qualquer tentativa
de análise, mesmo sabendo a priori que dado o escasso número de sujeitos
seria sempre especulativa, relembremos que não existem normas aferidas nem
para o TCT-DP (Urban e Jellen) nem para o TTCT (Torrance) para a população
portuguesa. Sabemos também que quer as normas francesas quer as espanholas do
TTCT (Torrance) não relativizam os resultados em função da fluência, o que
dificulta a avaliação dos sujeitos com características de sobredotação. Por
isso, qualquer comparação entre um e outro teste deve ser relativizada…
Apesar destas
vicissitudes foi possível avançar com as seguintes constatações: 1. Os resultados no
TCT-DP (Urban e Jellen) não parecem estar associados com a originalidade nem
com a elaboração dos Teste 1 e 3 do TTCT (Torrance) 2. Os resultados do
TCT-DP poderão estar associados com os índices de elaboração do Teste 2 do
TTCT (Torrance) No entanto, continuamos sem resposta
para as questões que motivaram este trabalho: Estes testes medem o mesmo? O
que podemos retirar da informação de cada um dos testes? Estes testes são
alternativos ou complementares? Quais as vantagens e as desvantagens de cada
um?
Verificados estes pontos fortes e
fracos de cada teste, será que podemos afirmar que um é mais adequado do que
outro para avaliar a criatividade? Essa eficiência não dependerá do objectivo
da avaliação? Certamente que o teste de Urban e
Jellen tem vantagens quando se pretende avaliar vários sujeitos… Mas os
critérios “extra” do TTCT são totalmente contemplados no TCT- DP?
E todos os 14 critérios do TCT-DP são totalmente contemplados no TTCT? E a flexibilidade
que o TCT-DP não mede? Até que ponto é importante na perspectivação da
criatividade? E a originalidade que o TCT-DP mede de formas tão diferenciadas
e diferenciadoras? Não será tão ou mais importante? Algumas questões permanecem na
avaliação da sobredotação: Porque é que não encontrámos índices elevados de
criatividade em todos estes sujeitos? Por causa da ineficácia dos
instrumentos? Ou por causa dos sujeitos que estudámos? Será que alguns não
são verdadeiros sobredotados? Esses sujeitos que apresentam capacidades
intelectuais superiores poderão nunca vir a ser criativos se não forem
estimulados? Para uma estimulação da criatividade
em crianças e adolescentes com características de sobredotação não deveremos
passar a avaliar a criatividade em função de ambos estes testes? Talvez… em particular se
relembrarmos um dos ensinamentos do poeta e crítico francês Charles Baudelaire: “Todos os
artesãos genuinamente bons representam através do desenho o quadro inscrito
nas suas mentes e não desenham de acordo com a natureza.” Ao acreditarmos que a
avaliação figurativa da criatividade pode aceder ao quadro inscrito na mente
dos nossos jovens, certamente que quanto mais produções avaliarmos, mais
completo fica o quadro da criatividade e mais fogos podemos ajudar a atear. REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS Pereira,
M. (1998). Crianças sobredotadas: Estudos de caracterização. Tese de
doutoramento não publicada. Universidade de Coimbra, Coimbra. Renzulli, J. S. (1986). The
three ring conception of giftedness: a developmental model for creative
productivity. In R. J. Sternberg & J. E. Davidson (Eds.) Conceptions of
giftedness (pp. 53-92). Cambridge: Cambridge University Press Urban,
K.K., & Jellen, H.G. (1996). Test for Creative
Thinking – Drawing Production (TCT-DP). Frankfurt:
Harcourt Test Publishers. |
||||||||||
|