Revista Recre@rte Nº5 Junio 2006 ISSN: 1699-1834       http://www.iacat.com/revista/recrearte/recrearte05.htm

MÁXIMAS E SÁTIRAS

Friedrich W. Nietzsche

 

 

1

A ociosidade é mãe de toda psicologia. Como? Seria a

psicologia um... vício?

 

2

O mais corajoso dentre nós dispõe apenas raramente da

coragem de afirmar aquilo que sabe verdadeiramente...

 

3

Para viver só é necessário ser um animal ou então um deus —

afirma Aristóteles. Falta o terceiro caso: é necessário ser um e

outro, é necessário ser — filósofo...

 

4

"Toda verdade é simples." — Não existe ai uma dupla

mentira?

 

5

De uma vez por todas, há muitas coisas que não quero

absolutamente saber. — A sabedoria traça limites, mesmo ao

conhecimento.

 

6

É naquilo que tua natureza tem de selvagem que restabeleces

o melhor de tua perversidade, quero dizer de tua

espiritualidade...

 

7

Como? O homem seria tão-somente um equívoco de Deus?

Ou então seria Deus apenas um equivoco do homem?

 

8

Na Escola Bélica da Vida — O que não me faz morrer me

torna mais forte.

 

9

Ajuda a ti mesmo: e então todos te ajudarão. Princípio do

amor ao próximo.

 

10

Não te acovardes diante de tuas ações! Não as repudies depois

de consumadas! O remorso da consciência é indecente.

 

11

Um asno pode ser trágico? — Perecer sob um fardo que não

se pode nem carregar nem rejeitar?... O caso do filósofo.

 

12

Se se possui o por quê da vida, põe-se de lado quase todos os

como? — O homem não aspira a felicidade; apenas os ingleses

o fazem.

 

13

O homem criou a mulher — com o que, afinal? Com uma

costela de seu deus — de seu "Ideal".

 

14

Como? Procuras? Desejarias multiplicar-te por dez?

Por cem? Procuras adeptos? — Procura zeros!

 

15

Os homens póstumos — eu, por exemplo — são menos

compreendidos que aqueles que são conformes sua época, mas

escutamo-los melhor. Que eu me exprima mais precisamente

ainda: jamais somos compreendidos — e é disso que advém

nossa autoridade...

 

16

Entre mulheres. — "A verdade? Oh, não conheces a verdade!

Não é ela um atentado contra nosso pudor?"

 

17

Eis um artista como os aprecio. É modesto em suas

necessidades: requer, em suma, somente duas coisas. seu pão e

sua arte — panem et Circen...

 

18

Aquele que não sabe dispor sua vontade nas coisas quer ao

menos atribuir-lhes um sentido: o que o faz acreditar que já

existe uma vontade nelas (Principio ad "fé").

 

19

Como? Escolheste a virtude e a elevação do coração e ao

mesmo tempo lanças um olhar de inveja às vantagens dos

indiscretos? — Mas com a virtude se renuncia às "vantagens"...

(a ser escrito na porta num anti-semita).

 

20

A mulher perfeita perpetra literatura do mesmo modo que

perpetra um pequeno pecado: experimentando, de passagem, e

volvendo a cabeça para ver se alguém se apercebeu disso, e a

fim que alguém se aperceba disso...

 

21

É mister colocar-se apenas nas situações onde não é

permitido ter falsas virtudes, porém onde, como o dançarino

sobre a corda, caímos ou nos mantemos, — ou ainda nos

safamos...

 

22

"Os homens maus não possuem canções." E como os russos

possuem canções?

 

23

"O espírito alemão": por dezoito anos uma contra-dictio in

adjecto.

 

24

A força de querer buscar as origens nos tornamos

caranguejo. O historiador olha para trás e acaba crendo para

trás.

 

25

A satisfação nos protege até mesmo de resfriados. Uma

mulher que se sabe bem vestida se resfria alguma vez?

Presumo até que possa dar-se o caso de que esteja pouco

vestida.

 

26

Desconfio de todas as pessoas com sistemas e as evito. A

vontade de sistema constitui uma falta de lealdade.

 

27

Diz-se que a mulher é profunda — por quê? se nela jamais

chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer plana.

 

28

Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem

resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que

não resiste.

 

29

"Quanto a consciência teve que morder outrora! Que bons

dentes ela tinha! E agora? O que lhe falta?" — Questão dum

dentista.

 

30

Comete-se raramente uma única imprudência. Com a primeira

imprudência se faz sempre demais e é por isso que se faz

geralmente uma segunda — e então se faz pouco demais...

 

31

O verme se retrai quando é pisado. Isso indica sabedoria.

Dessa forma ele reduz a chance de ser pisado de novo. Na

linguagem da moral: a humildade.

 

32

Há um ódio contra a mentira e a dissimulação que procede

duma sensível noção de honra; há um outro ódio semelhante

por covardia, já que a mentira é interdita pela lei divina. Ser

covarde demais para mentir...

 

33

Quão pouca coisa é necessária para a felicidade! O som duma

gaita. — Sem música a vida seria um erro. O alemão até

concebe o próprio Deus prestes a cantar canções.

 

34

Só se pode pensar e escrever sentado (G. Flaubert). Eis que te

apanho, niilista! Permanecer sentado é precisamente o pecado

contra o Espírito Santo. Somente os pensamentos que nos

ocorrem ao caminharmos têm valor.

 

35

Existem casos em que somos como os cavalos, nós os

psicólogos. A inquietude apodera-se de nós porque vemos

nossa própria sombra oscilar diante de nós. O psicólogo deve se

desviar de si para ser capaz de ver.

 

36

Nós imoralistas prejudicamos a virtude? — Tanto quanto os

anarquistas prejudicam os príncipes. Só depois de terem sido

atingidos de novo se sentam firmemente nos seus tronos.

Moral: é preciso disparar contra a moral.

 

37

Corres à frente dos outros? — Fazes tal como pastor ou como

exceção? Um terceiro caso seria o desertor... Primeiro caso de

consciência.

 

38

És verdadeiro? Ou és somente um comediante? És um

representante? Ou então és tudo mesmo a coisa que se

representa? Afinal de contas és apenas talvez a imitação dum

comediante... Segundo caso de consciência.

 

39

O Desiludido fala. — Procurei grandes homens e sempre

encontrei somente os macacos do ideal deles.

 

40

És daqueles que olham ou daqueles que aplicam as mãos à

coisa? — ou ainda daqueles que desviam os olhos e se mantêm

à distancia? ... Terceiro caso de consciência.

 

41

Queres acompanhar? Ou preceder? Ou ainda trilhar o seu

caminho? ... É mister saber o que se deseja e se se deseja. —

Quarto caso de consciência.

 

42

Eram degraus para mim. Servi-me deles para subir — é por

isso que me foi necessário passar sobre eles. Porém se

figuravam que eu ia me servir deles para repousar...

 

43

Que importa que eu tenha a razão! Disponho de excesso de

razão. — E ri melhor hoje quem ri por último.

 

44

Fórmula de minha ventura: um sim, um não, uma linha reta,

um objetivo ...

 

 

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Julio 2005. INTENSIVO.    www.micat.net