Revista Recre@rte Nº5 Junio 2006 ISSN: 1699-1834       http://www.iacat.com/revista/recrearte/recrearte05.htm

CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO.
A NECESSIDADE DE MUDANÇAS

 

Paulo Benetti

São Paolo

 

 

Em muito boa hora o 7º Congresso Internacional da Qualidade para a Produtividade, a ser realizado em Julho em Porto Alegre, joga luzes no tema da Inovação e nos faz refletir.  Embora tenha excelentes exemplos, alguns dos quais serão apresentados neste evento, o Brasil está patinando nesta questão da Inovação. 

 

A Inovação está deixando de ser um diferencial competitivo para ser um requisito básico, tal qual a Qualidade,  para as empresas sobreviverem nestas próximas décadas.

 

Vamos entender por partes. O que é Criatividade e o que é Inovação.  Criatividade é um processo mental em que usamos a imaginação para conseguirmos uma novidade.  Se quisermos ser mais técnicos podemos dizer que é um processo no qual usamos o pensamento divergente para chegar a uma idéia completamente nova no campo em que estamos trabalhando.  É um processo aberto porque quanto mais mentes estiverem produzindo idéias melhores resultados nós teremos.  Muitas empresas hoje já usam todos os seus stakeholders para esta produção de idéias; e este mercado é tão promissor que já existem empresas que vendem idéias.  All Star Minds, nos Estados Unidos, e IdeaStore, na Suíça, são exemplos disto.

 

Inovação é um processo de agregação de conhecimento à idéia nova para se chegar a um produto, serviço, processo, método, ou estratégia que se torne uma utilidade. No mundo dos negócios é assim, na ciência é diferente.  Portanto, inovação é um processo mental fechado no qual somente os detentores daquele conhecimento específico de seu campo podem transformar uma idéia em produto, serviço, etc. 

 

Enquanto na Criatividade é melhor juntarmos o maior número possível de pessoas para produzir idéias, na Inovação só podemos incluir aquelas que conhecem efetivamente o que está sendo trabalhado.  No dizer da 3M, uma das maiores referências no campo de empresas inovadoras:  “Criar é pensar algo novo” e “Inovar é fazer algo novo”.

 

No seu livro “Destruição Criativa” a empresa de consultoria McKinsey, através de Richard Foster e Sarah Kaplan, mostra uma ampla pesquisa feita com mais de mil  empresas, de 15 setores diferentes, abrangendo um período de 36 anos. Há várias conclusões, mas algumas são realmente muito indicadoras:

 

·        Empresas baseadas na continuidade não têm longa vida; e

·        As empresas mais bem sucedidas ao longo do estudo realizado foram as que melhor usaram o pensamento divergente, portanto, a criatividade.

 

Um dos resultados encontrados em função do acima mencionado é que em meados do século passado o tempo médio de permanência de uma empresa entre as 500 maiores era de 60 anos.  No início deste século a média caiu para 12 anos.

 

O sucesso baseado na continuidade das estratégias não garante vida longa para as empresas. 

 

A União Européia preocupada com o futuro dos países membros desenvolveu uma pesquisa realizada por Richard Florida e Irene Tinagli, que foi publicada em Fevereiro de 2004, chamada de “Europe in the Creative Age”.  Usando os indicadores de Classe Criativa, Capital Humano, Talento Científico, Inovações, Inovações de Alta Tecnologia, Pesquisa e Desenvolvimento, Atitudes, Valores e Auto expressão, os resultados colocaram a Suécia, Finlândia e Holanda no mesmo patamar relativo para criar e inovar que os Estados Unidos – referência da pesquisa -, enquanto que Portugal, Grécia, Itália, Espanha e Irlanda ficaram em níveis abaixo da metade dos primeiros.  Se não houver mudanças efetivas nestes países, eles não se desenvolverão neste século e trarão grandes dificuldades para a União Européia.

 

Assim vemos que as empresas estão preocupadas com a questão da Criatividade e Inovação, como também estão preocupadas as nações que tem que ser cada vez mais competitivas.  Estamos vendo países como a Franca onde a juventude começa a se rebelar quanto à questão do emprego, já que em torno de 25% de seus jovens estão desempregados.  Outros países circunvizinhos não estão com histórias diferentes.  Os países que não estão criando e inovando não desenvolvem, e se não desenvolvem não conseguem criar novos empregos.

 

Se considerarmos que existem em torno de um bilhão e meio de chineses e indianos entrando no mercado de trabalho, dispostos a receber menos pelo trabalho de trabalhadores de outros países, a situação tenderá a se agravar.  Thomas Friedman, em “O Mundo é Plano”, chama atenção para o fato que sobrarão apenas empregos altamente especializados.

 

O importante é entender que, cada vez mais, a criatividade e a inovação são fundamentais para o desenvolvimento das empresas e dos países. 

 

Agora, de que forma estes “panos de fundo” afetam o Brasil?

 

Podemos ser um país muito criativo porque temos uma população numerosa para dar idéias.  Além disto temos uma grande diversidade, qualidade importante na classificação de Richard Florida.  Potencializar esta massa de cérebros nas organizações é uma das maiores riquezas que temos. 

 

Temos uma população e um mercado para ser um país criativo, com empresas muito criativas. 

 

Entretanto, já vimos no início que para ser inovadora é necessário o conhecimento.  Ele pode ser próprio, com pessoal da própria empresa, ou pode ser contratado onde estiver.  É aí que iniciam os nossos problemas.  A educação formal no Brasil é muito fraca.  Seja no nível fundamental, no técnico, ou no superior.  Mensalmente os jornais publicam levantamentos de instituições brasileiras e internacionais que corroboram isto. Infelizmente. Alto nível de repetência; níveis baixos de retenção do conhecimento; fraca aprendizagem de matemática; baixa capacidade de entendimento de textos.  Isto tanto para as escolas públicas como privadas. 

 

Só para dar um exemplo, gritante, no exame da OAB do ano passado somente 9% dos inscritos obtiveram suficiência. Não se trata de um concurso, mas de uma prova de conhecimento do básico para o exercício das atividades. 

 

Vamos ser otimistas e colocar as outras carreiras em melhor posição. Por exemplo, 3 vezes mais, 30% de suficiência.  Isto ainda é muito pouco.  Além do mais se colocarmos esta suficiência em níveis internacionais vamos ver que não estaremos tão bem assim.   

 

Para que as empresas possam crescer a longo prazo e com isto o país também, vamos depender de muitas inovações, de muito conhecimento. Melhor dizendo, vamos depender de uma grande produção de novo conhecimento.  É fundamental reverter o quadro educacional e o ambiente cultural que estamos enfrentando hoje.  Não tomar uma posição em relação a uma educação em nível de excelência é perder não somente mais uma década, mas possivelmente o século.

 

Como existem exemplos de outros países bem sucedidos nesta área  nem é necessário sermos muito criativos, bastaria fazermos o benchmarking.   Uma coisa que seria muito fácil para todos nós. 

 

 

 

Paulo Benetti
Especialista internacional em criatividade, inovação e estratégia.

benetti@benetti.com.br e www.benetti.com.br

 

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Julio 2005. INTENSIVO.    www.micat.net