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Revista Recre@rte Nº5 Junio 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/revista/recrearte/recrearte05.htm |
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O TEATRO DO OPRIMIDO Flavio Sanctum I – INTRODUÇÃO: Esse artigo se
alicerça no acompanhamento do Grupo de Teatro do Oprimido do Centro de Teatro
do Oprimido (CTO-Rio) Direito de Ser e de oficinas
de Teatro do Oprimido realizadas com homens homossexuais que freqüentemente
lidam com questões preconceituosas em função da sua orientação sexual. Tais
conflitos geram, muitas vezes, influências nas identificações ou atitudes
pessoais, acarretando um isolamento ou instabilidade emocional de acordo com
relatos dos participantes das oficinas teatrais. Levando-se em conta o
trabalho desenvolvido pelo CTO-Rio, realizou-se, no
âmbito deste artigo, uma pesquisa sobre a contribuição do Método do Teatro do
Oprimido, através de seu arsenal de jogos e exercícios e do espetáculo
produzido, na construção da identidade desses homossexuais. Como eles se
sentem freqüentando oficinas de Teatro do Oprimido e trabalhando suas
opressões cenicamente? O mal estar que dizem sentir em situações preconceituosas
é minimizado ao fazerem essas oficinas? As pessoas que passam por essa
experiência têm a possibilidade de entrar em contato com seus conflitos de
forma assistida e instrumentalizada, podendo se
fortalecer e transformar sua forma de estar no mundo.
AS PRESSÕES DO PRECONCEITO Uma das marcas do preconceito em relação à
homossexualidade é ter início na própria casa e família, de onde, em geral,
se espera acolhimento. Por esse motivo, parece oportuno discutir de que
forma outros espaços de sociabilidade podem oferecer suporte para aqueles que
precisam se fortalecer para um exercício mais tranqüilo de sua sexualidade e
um espaço para realização de seus desejos. Muitos homossexuais têm dificuldades de se expor
também em seus ambientes de trabalho, por temerem que o preconceito por conta
dos patrões transforme-se em sua demissão. As piadas são ouvidas e engolidas
por esses indivíduos que se calam e se escondem. Muitos precisam manter uma
identidade dupla, dividida entre o “exercício” da homossexualidade
e a “autorepressão” como forma de
manter uma imagem que lhes garantam a permanência no emprego e mesmo em
outros espaços sociais, como na escola, na religião e no próprio ambiente
familiar. Em muitos casos, a mídia e a religião contribuem
em muito com o sofrimento daqueles que por algum motivo escapem de modelos
tradicionais, seja qual for a orientação sexual. Por
isso é comum se ouvir relatos de homossexuais que vivem em constante
desequilíbrio emocional, em função da pressão sofrida desde a família, o que pode
afetar diretamente seu desempenho no percurso escolar. Esses indivíduos têm
dúvidas, medos, desejos e não encontram no ambiente
educacional espaço para discutirem ou mesmo exporem tais questões. São muitas
vezes tachados de “maricas”, não só pelos colegas de classe, como
muitas vezes pelos próprios professores, que sem capacitação adequada ou
reflexão sobre diversidade, acabam por reforçar o preconceito. Muitos, porém, talvez por preconceitos
naturais e explicáveis contra a pedagogia, terminam usando, na sua ação,
métodos que são empregados na “educação” que serve ao opressor.
Negam a ação pedagógica no processo de libertação, mas usam a propaganda para
convencer... (Freire, 1968, p.59) Uma das formas
para o combate do preconceito ao homossexual utilizado ultimamente são os
projetos sócio-educacionais realizados por organizações não governamentais (ongs) ligadas aos Direitos Humanos, Sexuais e
Reprodutivos. Em São Paulo foi realizado um projeto com o Grupo CORSA de Conscientização Homossexual chamado
“Educando para a Diversidade – os GLBT’s na Escola”,
onde durante um ano vários educadores das escolas públicas da cidade
receberam treinamento para desenvolver em suas aulas programas ligados à
sexualidade. Não só a sexualidade em geral, mas a homossexualidade, que era o
ponto forte do projeto. O coordenador do projeto, Luiz Ramires Neto
(2003), afirma em sua pesquisa de mestrado da Faculdade de Educação da USP
que: “através do
contato com os profissionais da educação de São Paulo pude observar que ainda
há um grande descontentamento e ao mesmo tempo simpatia e curiosidade com a
problemática da homossexualidade. Porque mesmo se declarando não
preconceituosos, muitos educadores se sentiam incomodados diante da
manifestação de afeto entre pessoas do mesmo sexo.” (pág 6) Importante ressaltar que, assim como ocorre em
relação à cor da pele, é difícil reconhecer o próprio preconceito, na medida
em que é camuflado quando se localiza no outro a dificuldade. Não é
rara a frase "não sou preconceituoso" acompanhada
da confissão da insatisfação ou temor em relação a alguém próximo que
seja homossexual.
II – O TEATRO
DO OPRIMIDO NO DESENVOLVIMENTO DE JOVENS HOMOSSEXUAIS A arte pode ser uma forma de envolver as
pessoas e assim abordar os temas pertinentes ao bom desenvolvimento humano. O
trabalho com o Teatro do Oprimido tem proporcionado a muitos homossexuais a
oportunidade de "se descobrir", deparando-se com suas verdades e
seus medos. Através de exercícios e técnicas, esses indivíduos podem, pouco a
pouco, transformar suas realidades e encontrar um lugar mais confortável no
convívio social . O Teatro do Oprimido, em todas as suas formas,
busca sempre a transformação da sociedade no sentido da libertação dos
oprimidos. É ação em si mesmo, e é preparação para ações futuras. “Não
basta interpretar a realidade: é necessário transformá-la!” –
disse Marx, com admirável simplicidade. (Boal,
2005, pág.19) Nessa pesquisa foi
acompanhado o processo de criação de um grupo de Teatro do Oprimido formado
por homossexuais chamado Direito de Ser dentro do Projeto “Dialogar
para Aproximar”. Foram analisados também dois grupos antigos do Centro
de Teatro do Oprimido que abordavam questões semelhantes – GHOTA e Artemanha. Nesse artigo será explicitada a metodologia do
Teatro do Oprimido, além do trabalho do Centro de Teatro do Oprimido (CTO-Rio) com Grupos de Emancipação Homossexual.
Estudaremos a contribuição desse método para o movimento homossexual e para
as platéias quer assistiram aos espetáculos.
A METODOLOGIA DO TEATRO DO OPRIMIDO Cada vez que um grupo
social teatraliza seu cotidiano, seus problemas e
seus desejos, consegue entendê-los melhor porque o teatro amplia e
redimensiona a realidade. Transcrever um problema real em ação teatral cria a
possibilidade de vê-lo de um outro ângulo, vê-lo de fora, tendo o
distanciamento necessário para compreender seus diferentes aspectos. Ver a
situação e ver-se em ação. O Teatro do Oprimido (TO), criado pelo teatrólogo
e dramaturgo Augusto Boal, é um instrumento
de comunicação lúdico, dinâmico e eficaz para a discussão de temas diversos.
Esta metodologia sócio-cultural, político-pedagógica e terapêutica estimula o
auto conhecimento e o diálogo social, propõe que o
indivíduo se torne cidadão em cena. Ser cidadão não significa apenas viver em
sociedade, mas transformá-la. O TO é uma ferramenta essencial no processo de
afirmação e fortalecimento da cidadania. No TO, o espectador é estimulado a
sair da posição de receptor passivo da mensagem veiculada na encenação e
assumir a condição de sujeito, ativo e participante, para refletir sobre o
passado, transformar a realidade no presente e inventar o futuro. Uma das técnicas mais utilizadas do Arsenal do TO
em todo o mundo é o Teatro-Fórum (TF). Ele consiste na apresentação de um
espetáculo baseado em fatos reais, no qual personagens oprimidos e opressores
entram em conflito, de forma clara e objetiva, na defesa de seus respectivos
desejos e interesses. Nesse confronto, o oprimido fracassa e o público é
convidado, pelo Curinga (especialista no método), a entrar em cena,
substituir o personagem protagônico (o oprimido) e
buscar alternativas para o problema encenado. O Teatro-Fórum é uma pergunta
em forma teatral, feita pelo elenco aos espect-atores:
aqueles que estão na expectativa de entrar em cena e atuar. (...) Em um espetáculo de Teatro do
Oprimido, os espectadores não existem no simples “spectare
= ver”; aqui, ser espectador significa ser participante, intervir,
aqui, ser espectador quer dizer preparar-se para a ação, e preparar-se já é
por si só uma ação.(...) (Boal,
2002, p.83) O
Teatro Legislativo (TL) é um marco histórico para o Teatro do Oprimido e para
o teatro popular como um todo, porque substituiu o conceito de teatro
político pela idéia de fazer teatro como política.
A ação de fazer teatro criando propostas e interferindo na realidade já é a
ação política em si. Nesse caso, o teatro é visto como obra aberta e
coletiva, e não como meio de impor intransitivamente o que deve ser feito
pelo espectador. Em 1992, Augusto Boal
foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro. Um de seus objetivos era
através do Teatro Legislativo, criar leis a partir das insatisfações da
população. Seu mandato queria desmistificar o poder legislativo, mostrando
que as leis eram criadas por seres humanos comuns e que todos tinham essa
capacidade. Depois das peças encenadas, a platéia era incentivada a
propor sugestões legislativas baseadas nos problemas teatralizados.
Tais propostas eram encaminhadas para seu gabinete, analisadas e votadas. Mesmo após o fim de seu mandato, Boal continuou o processo do TL através de parcerias
dentro da Câmara dos Vereadores e Assembléia Legislativa. Já foram criadas
quinze leis municipais e duas estaduais desde o inicio deste projeto. As leis atendem a um público diversificado, pois
diverso também é a amplitude alcançada pelo trabalho de Augusto Boal e sua equipe de curingas. Os
direitos garantidos pelas leis abrange as questões da saúde, onde se
fez obrigatório o atendimento geriátrico e a distribuição de preservativos
femininos nos postos de saúde. O movimento homossexual também se beneficiou
com o TL com a lei que discutiremos a seguir.
O TEATRO DO OPRIMIDO E O MOVIMENTO HOMOSSEXUAL O Centro de Teatro
do Oprimido trabalhou e trabalha a questão da homossexualidade em três
projetos teatrais distintos. O GHOTA (Grupo Homossexual de Teatro Amador),
que hoje já não existe; o Grupo Artemanha e o Grupo
Direito de Ser do Projeto Dialogar para Aproximar. Em nossa pesquisa analisamos de que forma os
grupos foram criados, o impacto que provocaram na sociedade e como os
integrantes percebiam sua homossexualidade no decorrer das oficinas e da
construção do espetáculo. No final do ano de 1994 foi criada uma parceria
entre o Mandato Político Teatral de Augusto Boal e
o Grupo de Emancipação Homossexual Atobá , a fim de produzirem um espetáculo onde fosse discutida
a problemática vivida pelos homossexuais. Nos primeiros encontros, os
homossexuais reclamavam da violência policial, além do preconceito por parte
dos heterossexuais. Grande parte das humilhações acontecia nos bares e
motéis, onde os homossexuais eram preteridos e desprezados no momento do
atendimento. Em muitos motéis, o preço era aumentado caso o usuário fosse
homossexual. Em decorrência dessa insatisfação, foi criada
uma esquete que mostrava os homossexuais sofrendo preconceito em um
estabelecimento comercial em Copacabana. A cena foi apresentada ao ar livre,
na porta do restaurante preconceituoso, gerando a participação ativa de todos
da platéia, além de propostas legislativas significativas. Essas propostas
foram analisadas pelos assessores parlamentares e pelo próprio vereador
Augusto Boal. Proveniente dessa apresentação foi
aprovada pela Comissão de Direitos Humanos da ALERJ a lei municipal de número
2475/96 que pune qualquer estabelecimento comercial que discriminar alguém
por sua orientação sexual. Hoje essa lei é de âmbito estadual e há um
movimento para sua aprovação em nível federal.
Mostrando adesão à ação direta[1] realizada em conjunto com o Teatro do
Oprimido, após essa apresentação, foi criado o grupo de Teatro-Fórum GHOTA
(Grupo Homossexual de Teatro Amador), formado somente por homossexuais
masculinos, oriundos de bairros do subúrbio do Rio de Janeiro e comunidades
empobrecidas. No início, o grupo tinha uma rotatividade grande
de participantes e foi muito difícil conseguir um interesse comum entre as
pessoas. Muitos viam no grupo um ambiente de pura diversão ou paquera, outros
se concentravam na militância através do Teatro do Oprimido. Muitos gays,
principalmente aqueles que ainda moram com a família e dependem dela
financeiramente, não conseguem assumir sua sexualidade e precisam se esconder
em locais ditos guetos, como as boates, saunas, locais de “pegação”, grupos organizados. O grupo GHOTA
tornava-se mais um lugar de encontro dessas pessoas para conversarem,
namorarem e discutirem temas interessantes. O grupo aos poucos se fechava na
comunidade gay, e muitos apoiavam a idéia de que somente homossexuais
poderiam fazer parte dele. Mesmo com essa inconstância de componentes,
o grupo conseguiu montar o espetáculo “Rua das Camélias nº 24” que discutia temáticas importantes, como a
violência policial e prostituição, o preconceito familiar e social, além da
discriminação do homossexual no ambiente de trabalho.
A peça se passava no apartamento de um
homossexual e uma travesti que aguardavam a chegada de Maurício, namorado de
um deles. Quando os três se encontravam começavam a contar seus problemas. O
primeiro a falar era Antonio Carlos, que lembrava do constrangimento sofrido
por ele numa entrevista de emprego. Seu currículo era o melhor, mas por ser
homossexual o empregador não o aceitou na empresa. ─ “Você não
tem o perfil de nossa empresa!” ─ dizia o empregador. Pâmela, outra
moradora do apartamento, continuava a história, dizendo ter sido violentada
por um policial enquanto fazia “pista” (prostituição). Ela ia dar
queixa na delegacia e era humilhada por todos. O delegado só iria registrar a
queixa se ela desse dinheiro pra ele. Pâmela não
aceitava a oferta de suborno, pois queria ser tratada como cidadã. ─
“Sabe quando homossexual vai ser cidadão nesse país? Nunca!” ─
dizia o delegado junto com os policiais. Ela terminava presa pelo próprio
agressor. Os três amigos queriam esquecer os problemas e
comemorar a vinda de Maurício para morar no apartamento com eles. Porém o
proprietário do imóvel não aceitava mais um homossexual em sua casa. ─
“O que os vizinhos vão pensar?!” ─ dizia o senhorio. O espetáculo acabava com Maurício sendo
pressionado a abandonar o apartamento, sob ameaça de expulsão de todos. Esse espetáculo foi convidado a se apresentar em
diversos Grupos de Emancipação Homossexual, mas também esteve em diferentes
espaços, como em parques públicos, praças e escolas. A grande parte dos participantes do GHOTA
aceitava sua orientação sexual e não tinha dificuldade de se apresentar como
grupo de homossexuais e discutir essa problemática. No início da construção
do grupo até havia um ou dois participantes mais tímidos ou resistentes à
exposição, mas aos poucos isso foi sendo superado. O maior medo desses participantes quanto à
exposição estava ligado à família. Como não haviam assumido a
homossexualidade para os pais, temiam aparecer em jornais ou na TV estando
associados a um grupo de homossexuais. Junto à construção do espetáculo, o Centro de
Teatro do Oprimido e o Grupo Atobá davam suporte
para que os participantes do grupo entendessem melhor sua orientação sexual e
como se prevenirem de DST/AIDS e do preconceito. Aos domingos eram realizadas
reuniões no Grupo Atobá onde eram abordados
diversos assuntos pertinentes aos homossexuais. Tais temas variavam desde
entrevistas com celebridades da comunidade gay até oficinas de sexo seguro e
depoimentos de soro positivos. Na Revista do Teatro do Oprimido Metaxis, há o depoimento de um dos integrantes do
GHOTA que diz: “Eu escondido debaixo de um chapéu, para não ser
reconhecido por minha família, nas fotos como militante do movimento
homossexual. Fantástico era, pra mim, estar fazendo parte de uma peça que
lutava pelos direitos dos homossexuais, quando nem mesmo eu conseguia lutar
pelos meus direitos. No momento em que me escondia debaixo do chapéu,
escondia minha identidade e meus desejos.” (Metaxis
2, 2002, pg. 56). A medida em que as
apresentações iam acontecendo, o tema era levado ao público de maneira direta
e propositiva, possibilitando ao espectador
participar e dar idéias às questões levantadas. Mesmo sem fazerem parte
do grupo de teatro, ao assistir o espetáculo, as pessoas da platéia se
identificavam com o assunto abordado. E mesmo que essa identificação não
ocorresse, a temática estava exposta à discussão e o público se deparava com
ela. A sociedade estava na frente de um grupo exclusivamente de homossexuais,
que se orgulhavam de sua orientação sexual e mostravam sua cara.
“Quando todos os oprimidos dentro de um grupo oprimido se juntam, maior
é o poder de que dispõem” (Boal, 1999, p.
340). Numa das apresentações do GHOTA, no próprio Grupo
Atobá, um dos atores viu sua vida misturar-se com a
representação daquela realidade. Helen Sarapeck, a
diretora do grupo, tem um artigo na Revista Metaxis
onde relata o acontecido. De acordo com ela, no momento em que o personagem
gay era oprimido pelo empregador e escorraçado da empresa, deveria lutar e
brigar pelos seus direitos. Porém no momento da apresentação, o ator não
conseguiu falar nada. Baixou a cabeça e chorou. Ao meu ouvido Chuchu declarou: “Eu
não posso”. No Teatro-Fórum não representamos fatos desconhecidos e nem
amores impossíveis. Nele representamos personagens que fazem parte de nossas
vidas: nossos opressores, nossos aliados e nós mesmos. Chuchu representava
Jorginho (Antonio Carlos), mas quem era Jorginho (Antonio Carlos) senão ele
mesmo? Chuchu se via na ação dramática enfrentando o problema pela segunda
vez, ou terceira, ou sabe-se lá por quantas vezes os homossexuais foram
obrigados a passar por situações como aquela? Naquele momento a linha que
separa a realidade do teatro se fundiu. Naquele momento Jorginho (Antonio
Carlos) desapareceu e Chuchu se viu diante de um opressor verdadeiro em sua
vida. (Metaxis 2, 2002, pg. 54,55) Desta forma o grupo fortalecia-se quanto à
militância e identidade pessoal. Essas experiências emocionais aconteciam de
diferentes formas e intensidades. Tanto o elenco quanto a platéia se envolvia
na questão homossexual e refletia a partir do que assistiam. Diferentemente de Aristóteles, que propõe uma
poética que caminha para a catarse da platéia para assim coagi-la e de Brecht
que pretende uma conscientização do espectador, Boal
com a Poética do Oprimido propõe a ação transformadora: O espectador não delega poderes ao
personagem para que atue nem para que pense em seu lugar: ao contrário, ele
mesmo assume o papel protagônico, transforma a ação
dramática inicialmente proposta, ensaia soluções possíveis, debate projetos
modificadores: em resumo, o espectador ensaia, preparando-se para a ação
real. (Boal, 2005, pág. 182) No Dia Internacional de Luta Contra a Aids,
o grupo apresentou-se na Central do Brasil para uma platéia de
aproximadamente duzentas pessoas. O público era composto por jovens que saiam
da escola, senhoras que iam pegar o trem, e transeuntes do centro da cidade
do Rio de Janeiro. O interessante foi que as pessoas se divertiram muito com
a entrada da travesti, as músicas cantadas e o jeito afeminado dos
personagens. Discutiram com o grupo as opressões dos homossexuais de forma
intensa e participativa. O Grupo GHOTA teve seu espetáculo em temporada
popular durante dois anos, nos mais diversos espaços. Extinguiu-se no final
de 1996 com o término do mandato de Augusto Boal.
Nesse caso em particular, os componentes do grupo teatral já tinham sua
identidade formada e eram militantes da causa homossexual. A maioria não
tinha restrições em relação a sua identificação e à associação de sua imagem
ao movimento gay. O Teatro do Oprimido serviu como arma para a abordagem do
tema que já interessava aos componentes do grupo.
UMA NOVA INTERVENÇÃO FRENTE À HOMOSSEXUALIDADE O Grupo Artemanha
é formado por ativistas sociais, moradores de variados bairros do subúrbio
carioca. Um grupo misto com homossexuais e heterossexuais.
Não tinha nenhuma relação com o movimento homossexual e nem se denominava
grupo homossexual, porém alguns integrantes foram provenientes do antigo
GHOTA. O grupo foi criado em 1997 com o objetivo de discutir as DST/AIDS. Seu
primeiro espetáculo, chamado Fruto Proibido, aborda a questão da
homossexualidade em uma cena baseada em histórias reais contadas pelos
integrantes homossexuais. Nos documentos que relatam o desenvolvimento da
construção desse espetáculo, há escritos sobre o medo dos atores de
interpretarem um personagem homossexual. Alguns gays do grupo também tinham
esse receio. Talvez porque nem todos fossem assumidos para suas famílias ou
não aceitavam sua orientação sexual. Porém, os homossexuais vindos do Grupo
GHOTA queriam abordar a questão homossexual. Conforme iam contando as
histórias de suas vidas, a fim de montarem a peça teatral, os conflitos
internos iam aflorando. Os desejos, as angústias, todos os problemas vividos
pelos homossexuais incomodavam aqueles indivíduos. Mas quem interpretaria o
papel do homossexual, se muitos temiam se ver como tal? Alguns deixavam clara a insatisfação em
interpretar o personagem, outros até o fariam, mas temiam
o que os familiares poderiam pensar. Os exercícios do Arsenal do Teatro do
Oprimido revelavam as questões e afloravam as sensações e emoções dos
participantes. A discussão do tema da homossexualidade era
difícil e muitos fugiam de diversas maneiras. O riso frenético era uma
constante nos primeiros encontros do grupo. Durante a execução dos jogos
teatrais, muitos se desconcentravam ou não participavam, pois sabiam que
estariam vulneráveis. O Teatro do Oprimido tem a capacidade de desmecanizar o corpo e desconstruir
as “máscaras” sociais que muitos usam para se defender. Com sua
proteção abalada os integrantes daquele grupo sentiam-se despidos e
desprotegidos. Paulo Freire discorre em sua Pedagogia do
Oprimido, que sem a práxis, o oprimido não consegue se desvencilhar de sua
condição opressora. Somente a ação dessa situação de opressão é que o fará
refletir e transformar sua realidade. A práxis, porém, é reflexão e ação dos
homens sobre o mundo para transformá-lo. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimidos. Desta forma, esta superação exige a inserção
crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a,
simultaneamente atuam sobre ela. (Freire, 1968, p.40) Todo o texto do espetáculo do grupo foi
produzido através de improvisações. Várias eram as expressões preconceituosas
lembradas pelos integrantes, ao fazerem as cenas. O homossexual sempre visto
como doente, dissimulado, caricata, sem sentimentos. Mesmo sem se assumirem perante a sociedade,
aquele grupo decidiu montar o espetáculo e levá-lo para a rua. A população
precisava tomar conhecimento das suas opressões, dos seus desejos e da
vontade de mudança. Esse desejo partia do próprio grupo Artemanha,
pois o mesmo estava desassociado do movimento homossexual e ao contrário do
Grupo GHOTA, era composto também por heterossexuais. Porém o anseio de levar
essa discussão às ruas era mútuo. Para esse grupo de pessoas, a questão que mais
incomodava era em relação ao convívio familiar. A dificuldade de conversar
com os pais sobre a orientação sexual. Muitos gays são expulsos de casa,
vivem na prostituição ou cometem o suicídio por conta da falta de diálogo com
a família. O espetáculo Fruto Proibido é apresentado até
hoje e discute DST/AIDS, aborto, relação familiar e principalmente a homossexualidade. Há uma cena específica onde um jovem
homossexual é expulso de casa ao contar para seu pai sua preferência sexual. Numa festa de casamento, Seu Jorge pressiona o
filho Jorginho para se casar também. O pai quer saber das namoradas, oferece
dinheiro para que o filho case-se logo e cobra um neto. A pressão é tanta que
Jorginho não agüenta e declara-se homossexual. No início o pai não acredita e
propõe que o filho vá ao psiquiatra. ─ “Eu não estou doente
pai, eu sou assim e não posso mudar.” ─ fala Jorginho, que
ainda é acusado de estar com AIDS por ser gay. O pai humilha o filho com diferentes
xingamentos. ─ “Viado,
maricas, bicha, vento livre, xibungo, corredor da
floresta, Bambi, frutinha, florzinha, padeiro
esquecido, queima rosca, dá marcha ré no quibe, pula
poçinha, você é um paneleiro?!” ─
diz o pai finalizando com um tapa em Jorginho. ─ “Faltou
aquela da sua época, pederasta.” ─ responde Jorginho
magoado. No final da cena Jorginho é expulso de casa, como acontece com
freqüência. O que mais interessava aos gays do grupo era a
discussão da sexualidade no ponto de vista do homossexual, a valorização de
sua identidade nas discussões com o público e a desmistificação de que o
homossexual seja o transmissor do vírus HIV. No espetáculo ainda tinha outras
cenas, que abordavam questões ligadas a saúde da
mulher e relação conjugal. Mesmo perante muitas dificuldades, a prática do TO
fez com que os integrantes do grupo Artemanha se
sensibilizassem com suas vidas e quisessem transformar suas realidades.
Leandro Loppes, ator do grupo diz: “Esse
teatro, além de permitir enxergar, reconhecer e mudar opressões sofridas, trabalha, no ator e na equipe que o cerca, assim como no
espectador, o lado afetivo/emocional.” (Metaxis
2, pág. 49) Era um ensaio para a vida real. A relação desses indivíduos com suas famílias tornou-se, na sua maioria, mais tranqüila e verdadeira. A
vergonha de ser homossexual dava lugar ao orgulho e a vontade de lutar pelos
seus direitos. O estigma do homossexual marginal, nos guetos, foi sendo desconstruido à medida que os integrantes do grupo
percebiam que podiam amar, serem felizes. Além desta questão ser
discutida dentro do grupo, através dos exercícios e avaliações, o espetáculo
estava sendo apresentado para muitas pessoas. Queriam continuar a espalhar as
informações sobre prevenção as DST/AIDS, cidadania, auto-estima e direitos
humanos. A sociedade necessitava desse debate teatral. A platéia era, na sua maioria, jovens estudantes
de comunidades carentes. O grupo se apresentava em diversas áreas do Rio de
Janeiro e em outros Estados. Em muitas dessas apresentações ficava evidente o
incômodo das pessoas em relação à homossexualidade no momento em que Jorginho
declarava ao pai que era homossexual. A reação de estranhamento da platéia
vinha talvez pelo fato do personagem de Jorginho não ter trejeitos. Era um
rapaz com cara, voz e atitude de homem, dizendo que gostava de outro homem.
As atitudes dos espect-atores eram diversas.
Muitos riam nervosamente, outros ficavam perplexos, alguns debochavam e
puxavam coro (Tu é gay que eu sei...) entre outras formas de se
colocarem. As apresentações, em sua maioria, eram nos
bairros mais pobres da cidade e a platéia não hesitava em expor sua
verdadeira emoção quanto à questão apresentada. Toda atitude que os
espectadores tomavam diante do espetáculo era analisada e desenvolvida pelo
curinga com o objetivo de fomentar discussão sobre a questão que a peça
abordava. No momento do Fórum, onde o espectador se coloca no lugar do
oprimido e busca alternativas para aquele problema, é que se descobre o que
as pessoas realmente pensam. Segundo Augusto Boal,
“no Teatro do Oprimido, procura-se abater esse imobilismo e tornar o
diálogo platéia-palco totalmente transitivo: o palco pode procurar
transformar a platéia, mas a platéia também pode transformar tudo, pode
tentar tudo”.(2002, p.55) Porém diferente das platéias que assistiam o
grupo GHOTA, as que participaram das discussões com o Grupo Artemanha tinham mais dificuldades em discutir a
homossexualidade na família, independente da camada social. Quando viam que
Seu Jorge sofria com a declaração do filho, chegavam a dizer que quem era
oprimido era o pai, por ter um filho gay. Talvez por Jorginho estar mais próximo da realidade familiar brasileira. Um
homossexual sem trejeitos, que ninguém imaginava ser gay. As pessoas
sentiam-se traídas por um homem de estereotipo masculino assumir-se
homossexual. Um exemplo curioso de Fórum foi de uma senhora em
Campinas - SP que, entrando em cena, concordou com o pai dizendo que ele não
o tinha educado e faltara religiosidade em sua vida, por isso tornara-se
homossexual. Um outro exemplo, peculiar das escolas públicas dos bairros mais
pobres da cidade, colocava o personagem de Jorginho ridicularizado, com
trejeitos e afeminado. Seria uma forma de justificar a homossexualidade do
personagem? Um homem masculinizado nunca pode ser homossexual? No Fórum Social Mundial de 2002, em Porto Alegre,
uma mulher da platéia não entrou no Fórum. Assistiu a toda apresentação em
silêncio. Porém observava toda a mise-en-cene,
as propostas dadas pela platéia, estava atenta a
tudo. Ao final do espetáculo foi procurar o grupo, em especial o ator que
interpretava o pai preconceituoso. Disse muito emocionada que tinha uma visão
diferente do homossexual, que não imaginava que ele pudesse sofrer com essa
condição. Ela dizia, com água nos olhos, que antes nunca aceitaria caso seu
filho fosse homossexual, mas que agora, depois de ter assistido ao
espetáculo, se esforçaria para compreendê-lo. O grupo todo se emocionou com a
senhora e se encheu de orgulho por estarem conseguindo atingir as pessoas.
Para Boal, o ato de escolher não entrar em cena no
momento do Fórum já é uma forma de participação. Uma pessoa pode sair de uma
sessão de Teatro-Fórum completamente tocada com uma questão e ficar pensando
nela durante dias independente de ter entrado ou não
em cena. Em relação aos homossexuais que assistiam comumente
ao espetáculo, as reações também eram as mais variadas, dependendo da relação
com a sua sexualidade e a sociedade. Apesar da sua própria homossexualidade, muitos
ainda carregavam preconceito e não aceitação. Alguns podem se influenciar
pela família, outros pela religião, e é muito
difícil esses indivíduos dissociarem a homossexualidade da doença ou do
pecado. Um caso que todos no grupo lembram foi de um
homossexual que entrou em cena e lutou para ser do jeito que sempre foi.
Disse para o personagem do pai que ele deveria amá-lo e que não mudaria sua
orientação sexual. O pai ouvia a tudo e num determinado momento sugeriu levar
o filho para a igreja, que lá o pastor iria encaminhá-los para a cura. O
rapaz aceitou no mesmo momento a sugestão do pai e terminou a cena desta
forma. Depois ficamos sabendo que aquele rapaz passava pela dificuldade de
ser homossexual e religioso ao mesmo tempo. Um homossexual não pode ser
evangélico ou católico, pois são excluídos dessas religiões. A equipe não
conseguiu prosseguir com essa discussão, mas a idéia de juntar os temas
homossexualidade e religiosidade num futuro projeto estava lançada. Outro Fórum realizado por um homossexual que
chamou a atenção na pesquisa foi de um jovem, num evento para agentes
comunitários da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Neste
encontro estavam presentes adolescentes de escolas públicas, multiplicadores
e alunos de projetos da prefeitura, além de autoridades do Município. Ele
entrou em cena disposto a dialogar com seu pai, que não mediu expressões
preconceituosas contra ele. No afã de tentar ser respeitado o rapaz falou:
“O fato de eu ser humano está acima de minha opção sexual. As
pessoas se preocupam mais com o exterior, sou mais homem que muitos de
vocês”. A expressão usada por aquele rapaz – opção
sexual – também é discutida em todo o movimento homossexual. Quando
se pode optar por algo, tem-se a possibilidade de escolha. Sendo assim, um
homossexual poderia escolher não ser gay. Como essa questão é polêmica, opta,
em geral, por uma expressão aparentemente mais neutra: orientação sexual. O grupo Artemanha
continua realizando suas apresentações e levantando a questão da
homossexualidade com o espetáculo Fruto Proibido. No ano de 2004 participou
da primeira fase do projeto Dialogar para Aproximar, que será analisado logo
abaixo.
PROJETO DIALOGAR PARA APROXIMAR – O TEATRO-FÓRUM COMO
INSTRUMENTO DE DIÁLOGO O Projeto Dialogar para Aproximar foi uma
iniciativa da equipe de curingas (especialistas no método do TO) do CTO-Rio com a finalidade de promover o diálogo entre
Grupos de Emancipação Homossexual e entidades religiosas. A equipe percebeu que uma das problemáticas entre
muitos homossexuais estava ligada à não aceitação religiosa. Principalmente a
Igreja Evangélica e Católica, que condenam a homossexualidade. Neste caso, o
homossexual pode ter desejos, mas não deve praticá-los, ele deve ser casto. O
ato sexual com uma pessoa do mesmo sexo é que seria o pecado. ─ Jesus
ama o homossexual, mas não a homossexualidade. ─ afirmam os
religiosos mais radicais. Percebia-se que o homossexual não encontrava
lugar para praticar sua fé, quando se falava das igrejas mencionadas acima,
mas em contra ponto, havia também os homossexuais que tinham ojeriza pela
igreja. A equipe queria criar um espaço para esses dois universos se encontrarem, se conhecerem e dialogarem, sem a pretensão
de que os religiosos aceitassem os gays ou que os gays tornassem-se
religiosos. Seria mais um espaço para discussão do tema homossexualidade. A primeira fase do projeto foi com apresentações
de dois grupos do Centro de Teatro do Oprimido, entre eles o grupo Artemanha. Foram realizadas aproximadamente doze
apresentações do espetáculo Fruto Proibido em organizações onde discutisse a
questão da homossexualidade como o Grupo Atobá,
Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), Grupo Água Viva e em
espaços religiosos como Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), Terreiro de
Candomblé Mãe Tânia de Iemanjá, entre outros. É importante pontuar que o grupo não conseguiu
nenhuma apresentação na Igreja Católica e nas Igrejas Protestantes houve
muita resistência. Muitas foram as tentativas, mas a
rejeição ao tema era grande. O grupo e a equipe tinham consciência da
dificuldade de abrir essa discussão nos espaços religiosos. A maioria das
Igrejas dizia que o tema sexualidade era discutido diretamente por eles,
dentro dos ensinos bíblicos. Talvez dessa forma, tivessem controle com o
conteúdo discutido e a forma que o abordariam. O grupo Artemanha
conseguiu acesso a dois Terreiros de Candomblé, onde foi muito bem
recepcionado. Nas discussões sobre a homossexualidade, ambos disseram que os
homossexuais são bem vindos e que há respeito e tolerância às diferenças. Houve uma apresentação em uma Igreja Evangélica
chamada Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM). Essa igreja, em particular,
é formada por pessoas excluídas de suas igrejas de origem por serem gays. Os
cultos são como em qualquer igreja protestante comum, com a particularidade
de todos serem homossexuais, até o pastor. Como aqueles gays não tinham
espaço em suas congregações, criaram uma nova comunidade religiosa para se
encontrarem e louvarem a Deus. A igreja não se denomina homossexual e sim
inclusiva. Das apresentações do Artemanha
surgiram duas propostas de leis referentes à homossexualidade. Uma propõe que
nos postos de doação de sangue não façam restrições a pessoas por sua
orientação sexual, a outra é para que os profissionais da educação tenham
formação para discutirem sobre sexualidade dentro da sala de aula. Os
projetos foram elaborados pelo gabinete do Deputado Estadual Gilberto
Palmares e estão aguardando votação. A segunda fase do projeto foi com oficinas de
Teatro do Oprimido. A equipe tinha o objetivo de montar dois novos grupos de
Teatro-Fórum, um com a temática religiosa e outro sobre a homossexualidade.
Nesse artigo nos ateremos em analisar o grupo de temática homossexual.
GRUPO DIREITO DE SER Para a formação do grupo de Teatro-Fórum foram
oferecidas oficinas na sede do CTO-Rio, onde eram
convidados os participantes das platéias nas apresentações da primeira fase
do projeto. Talvez por ser um tema muito específico, ou pela forma impessoal
do convite, essas oficinas não funcionaram. Como estratégia, a equipe do
projeto fez parcerias com algumas entidades que participaram da primeira fase
do projeto, como ABIA, Grupo Atobá, Igreja ICM, e
propôs oficinas específicas para as organizações. No Grupo Atobá
marcou-se as oficinas duas vezes e pouquíssimas pessoas apareceram. Na Igreja
ICM as oficinas foram desmarcadas antes de acontecerem. Essa dificuldade em
motivar os homossexuais desses grupos a participarem do teatro segue-se em
todo o restante do projeto. Na ABIA foi um pouco diferente e conseguiu-se um
prosseguimento das oficinas, fixando-as às sextas-feiras. A própria equipe se
perguntava por que os homossexuais tinham tanta dificuldade em freqüentar o
teatro. E não era por falta de vontade, pois quando eles estavam na oficina
se divertiam muito e sempre prometiam voltar, porém muitos não retornavam.
Mais tarde a equipe chegou a conclusão de que um dos
problemas para uma maior assiduidade era a falta de dinheiro. Muitos
precisavam trabalhar nos horários da oficina e outros realmente não tinham
condições de bancar as passagens de ônibus toda semana. Todas as oficinas eram programadas pela equipe do
projeto nas reuniões de coordenação. De acordo com os objetivos da oficina
eram escolhidos exercícios, jogos ou técnicas que contribuiriam para a
harmonia do grupo, o entrosamento das pessoas, a concentração, a desmecanização corporal, vocal e intelectual, além da
discussão da temática que queríamos abordar. De acordo com Boal: Os Exercícios visam a um melhor
conhecimento do corpo, seus mecanismos, suas atrofias, suas hipertrofias, sua
capacidade de recuperação, reestruturação, re-harmonização. O exercício é uma
reflexão física sobre si mesmo. Um monólogo, uma introversão. Os Jogos, em contra partida, tratam da
expressividade dos corpos como emissores e receptores de mensagens. Os jogos são diálogo, exigem um interlocutor, são extroversão. (2002, pág. 87) Já as Técnicas têm
o objetivo de descobrir ou aprofundar algum tema ou situação. As primeiras oficinas na ABIA foram difíceis,
pois o grupo era inconstante, como o grupo GHOTA. Salvo alguns poucos
participantes que sempre retornavam, sempre havia novos participantes. O teatro é por si só cativante, pois possibilita
ao participante um momento lúdico, alegre, divertido. Com a metodologia do
Teatro do Oprimido o fazer teatral completa-se com a discussão dos temas
propostos em cada grupo. Os participantes se animavam com as oficinas e
aproveitavam para exporem suas dificuldades em torno da sua orientação
sexual. Variados temas surgiam conforme as oficinas eram realizadas, alguns
provocados pela equipe através dos jogos e técnicas, outros espontâneos. Eles
reclamavam da opressão no campo profissional, da violência policial, do
preconceito sofrido nas escolas, entre outros. Os curingas aplicavam exercícios e jogos com o
objetivo de preparar o grupo para a arte teatral e dar inicio
à discussão da sexualidade. Um momento interessante, que surgiu uma discussão
sobre papeis sexuais foi no exercício [2]Caminhadas. “Mudar nossa
maneira de andar nos faz ativar certas estruturas musculares pouco utilizadas
e nos torna mais conscientes do nosso próprio corpo e de suas
potencialidades” (Boal, 1999, pág.102,103) O curinga caracterizou as caminhadas pedindo
diversas formas do homossexual se comportar. Solicitou que o grupo caminhasse
como um gay, depois como uma bicha, uma pintosa,
um homem bissexual e daí por diante. Na avaliação do exercício o grupo
se colocou dizendo que se sentiram ridículos, pois não via diferença entre um
gay, uma bicha ou uma pintosa. A única mulher
do grupo disse: Pra mim não há diferença, é tudo homossexual. Só usam
esses nomes para recriminar, de forma agressiva. Um outro rapaz ainda
comentou: Como a gente é preconceituoso, não
consigo diferenciar uma mulher homo de uma hetero,
se estou na rua, mas no exercício quis mostrar esta diferença que não vejo.
Na verdade, o exercício quis fomentar a discussão e fazer com que o grupo
falasse sobre seus pensamentos e até de seus preconceitos. Uma das Técnicas aplicadas para levantar a
discussão de temas é a das [3]Duas Revelações de Santa Teresa. Essa
Técnica oportuniza que os participantes coloquem-se em diversos papéis,
experimentando diferentes conflitos através da improvisação. Foram escolhidas
duplas de personagens que fomentariam a discussão sobre a homossexualidade.
As duplas propostas foram Professor/aluno, Policial/homossexual, Gay/amigo e
Médico/paciente. Depois que a improvisação foi realizada a equipe conversou
com o grupo sobre a experiência. Na dupla professor/aluno surgiu a questão do professor estar apaixonado pelo aluno. O grupo ficou
dividido, pois alguns achavam que quando o sentimento surge, em muitos casos
não consegue segurar, enquanto outros acreditavam que independente da idade
do aluno isso acarretaria conseqüências na vida profissional do professor. A discussão que ocorreu proveniente da dupla
Policial/homossexual foi quanto ao gay que era reprimido por ser afeminado.
Perguntamos se “dar pinta” era crime. ─ Não é crime, mas
incomoda. ─ disse um dos participantes. Talvez incomode pelo fato
do homossexual se tornar aparente. Quando se é gay, mas se permanece com um
comportamento aceito socialmente, não se é notado. Ouvimos muita gente dizer:
Ele é homossexual, mas é educado ou Você nem percebe que ele é gay.
A percepção ao homossexual é que aborrece as pessoas, enquanto ele estiver
invisível é aceito. O grupo ainda falou sobre o que o conceito de gay
para eles. Alguns disseram que o que define o gay é o desejo. ─ Eu
até transo com mulheres, mas não me considero bissexual. ─ pontuou
um dos rapazes. Para ser gay é preciso ter um modo de vida gay.
─ completou outro participante. Quanto a isso, falamos sobre as
múltiplas sexualidades e que quando estamos abertos para nos relacionarmos
com as pessoas podemos descobrir essa diversidade. Mesmo
com um rodízio de participantes, as discussões com o grupo eram muito
intensas e proveitosas. Num dos encontros conversamos sobre as Paradas Gays
realizadas no país, especialmente no Rio de Janeiro. A minha maior questão
era se realmente os gays buscavam nesses eventos o esclarecimento político e
uma visibilidade dos direitos dos homossexuais ou a pura diversão. Alguns
rapazes do grupo participaram da organização da Parada Gay do Rio e disseram
que há a preocupação política, mas há muita discussão e pouca objetividade.
Outro rapaz completou dizendo: Talvez isso aconteça porque o país está despolitizado. Esse tema voltou a ser debatido
nas apresentações do grupo. Seria uma forma de levantar a discussão sobre o
comprometimento dos homossexuais com as questões políticas. Outra
Técnica que foi muito interessante devido à reação dos participantes foi a Imagem
da Palavra[4]. Quando pedimos a imagem da
palavra Homem, apareceram imagens pesadas, fechadas e de força. Na
imagem da palavra Mulher apareceram imagens
de balé, maternidade, leveza e liberdade. Pedimos para fazerem a imagem da palavra Homossexual. Somente um deles,
um rapaz que diz ser heterossexual, fez uma imagem do gay estereotipado.
Perguntamos por que desta vez não apareceram tantos estereótipos como nas
imagens anteriores. – Mas ser gay é ser normal.- comentou um dos rapazes. Esse
grupo de pessoas, mostrava-se vendo a
homossexualidade de forma tranqüila e natural. Muitos participavam de grupos
gays organizados e pareciam esclarecidos sobre os assuntos que apareciam.
Mesmo assim aquela aparente naturalidade poderia estar escondendo
preconceitos e estereótipos. Poderia ser uma defesa, já que a formação do
grupo estava no início. Era uma descoberta para eles e para a equipe de
curingas. Apesar dessa possibilidade, trabalhavam os temas e discutiam as
questões que surgiam com densidade e propriedade. Independente
da rotatividade do grupo, a equipe propunha montagem de cenas teatrais a
partir dos conflitos vividos pelos participantes. Os temas das cenas eram
recorrentes aos das Técnicas, mas com as improvisações, podia-se fazer o Fórum
e promover um debate mais profundo. Numa
das cenas um rapaz entrou na improvisação e não conseguiu se assumir gay. Ele
conversava com o personagem de um médico que era preconceituoso. O rapaz se
colocou calmo diante da situação opressora, porém mascarou sua
homossexualidade e conseguiu ser atendido pelo médico. Depois da cena o grupo
conversou sobre a possibilidade de resolver o problema sem assumir sua
condição sexual. Alguns acharam que essa seria uma forma de mascarar o
problema, outros disseram que poderia funcionar, pois o médico fez o
atendimento. Um amigo do rapaz que fez a cena disse que essa característica
lhe era peculiar, pois na vida real ele sempre escondia sua homossexualidade.
No final da discussão o próprio rapaz disse que muita gente diz isso a ele,
porém somente naquele momento, fazendo a cena e se vendo em ação, percebeu
que realmente reprime sua sexualidade. O Teatro do Oprimido mostra o
que está escondido e desta forma temos a possibilidade de dialogar sobre o
que presenciamos. O oprimido se exerce como sujeito nos dois
mundos. No combate contra opressões que existem no mundo imaginário, ele se
exercita e se fortalece para o combate posterior que travará contra as suas
opressões reais, e não apenas contra as imagens reais dessas opressões. (Boal, 1999, pág.346) Outro tema recorrente nas cenas
improvisadas estava ligado à educação. Um rapaz contou um fato onde se sentia
pressionado pelos alunos a falar sobre sua sexualidade em sala de aula. Outro
participante, num outro encontro, falou também sobre a opressão sofrida por
conta de alunos rebeldes e preconceituosos. Nesses casos o preconceito parece
ser algo aprendido e reproduzido. Um adolescente acostuma-se em casa ou entre
os amigos a direcionar palavras de baixo galão e pejorativas em relação aos
homossexuais. Muitas vezes os diretores das escolas reforçam o preconceito
exigindo uma postura diferenciada do professor, como se os homossexuais
tivessem que mudar seu comportamento para serem aceitos. Conforme
as oficinas iam acontecendo e os temas sendo desenvolvidos, a equipe percebia
um comprometimento maior dos participantes. Mesmo sendo num pequeno número,
as cinco ou seis pessoas estavam empenhadas em montar um espetáculo e
discutir publicamente a questão da homossexualidade. As cenas antes
improvisadas iam formando um arsenal teatral, onde podiam ser abordados os
temas principais para o grupo. Num
dos encontros, quando o grupo decidia qual cena era a mais importante e que
representaria melhor a opressão sofrida pela maioria dos homossexuais, a
equipe perguntou como o grupo gostaria de ser chamado. Todos os grupos do CTO-Rio têm um nome que os caracteriza. Eles pararam para
pensar... Qual nome poderia representar um grupo formado por pessoas
militantes da causa homossexual? Escolheram o nome Direito de Ser.
Direito de Ser livre De amar quem eu quiser Direito de ter direito Chega de salve-se quem
puder Direito de Ser... Direito de admitir Direito de se assumir De estar apaixonado Direito a um beijo
molhado De renascer a cada dia Como alguém que faz
diferença Que marca sua presença E planta sabedoria Direito de ser (poesia da atriz do Grupo
Direito de Ser) Para
montagem do espetáculo escolheram uma cena onde um casal homossexual era
agredido e expulso de um bar dito heterossexual. O grupo queria com essa
peça, divulgar a lei 2475-96, criada pelo primeiro grupo homossexual que
existiu no CTO-Rio. Seria uma continuação da
trajetória do GHOTA? Montaram
o espetáculo “É Proibido Proibir”. Rafael e Gabriel são namorados
e chegam no bar de Olívia, que num primeiro instante
os trata muito bem. Paulão, um freguês de anos, chega ao bar e percebe que os
dois são homossexuais. Eles dançam e riem, estão felizes por estarem juntos.
Isso irrita Paulão que começa a se comportar de maneira hostil até o ponto de
agredir um dos rapazes. Olívia intervém a favor de Paulão. - “Aqui é um
bar normal, de pessoas normais.” - diz ela. No final da cena o casal
homossexual é expulso do bar. O
grupo fez oito apresentações do espetáculo, além do encontro (diálogo teatral)
com o grupo formado por evangélicos - Grupo Esperança. O
Diálogo Teatral foi um momento muito importante para o projeto, pois era o
encontro entre os grupos formados, de temáticas tão diferentes e distantes,
mundos tão diversos e antagônicos socialmente. Os grupos se encontraram na
sede do CTO-Rio, na Lapa, para se apresentarem.
Foram convidadas instituições parceiras do projeto para participarem do
debate entre religião e homossexualidade. Um dos momentos mais emocionantes
foi presenciar os componentes do Grupo Esperança entrando na cena do Grupo
Direito de Ser e dando sugestões para quebrar a opressão. Numa das
intervenções, a espect-atriz propôs que o
diálogo se iniciasse antes, ainda na família, pois um dos homossexuais tinha
medo do pai descobrir sua orientação. Se a construção da cidadania começasse
pela família, talvez aquele indivíduo estivesse forte para enfrentar o
preconceito. Um debate frutífero e inflamado deu seqüência ao encontro,
quando um dos convidados disse que havia lugares específicos para
homossexuais freqüentarem. Perguntamos: Ser homossexual restringe os
espaços nos quais as pessoas podem circular? - Mas será que o que eles
estão fazendo não é atentado ao pudor? - perguntou um dos
participantes do evento. Muita gente acredita que deva haver lugares
específicos para os homossexuais freqüentarem, os ditos guetos, caso contrário estarão agredindo a sociedade. O
substancial nesse evento foi que ambos os grupos perceberam que apesar de
distantes o diálogo é possível. - Quero dar parabéns ao grupo pela força e
pela coragem de mostrar que somos seres humanos e que podemos compreender e
viver com as diferenças. - disse um dos participantes do grupo Esperança,
no final das apresentações. O
espetáculo se apresentou em diversas instituições, além de uma praça pública,
no Dia Internacional de Luta Contra a Aids. Especificamente nesta
apresentação o grupo estava tenso, pois seria a primeira vez que estariam com
uma platéia tão variada ideologicamente. Mas aquele era o objetivo do grupo,
abordar a questão com o público comum e com toda nossa sociedade. No
início o público estranhou. Um grupo formado por homossexuais? Estavam
intrigados e curiosos pelo que viria para aquele palco, mas permaneceram
respeitosos e atentos ao que o curinga dizia. Fizeram os exercícios de
aquecimento com certa precaução. Pareciam não querer se envolver com o clima
da apresentação para não se comprometerem. Alguns estavam rígidos, talvez
para não serem classificados como gays ou não
transparecerem simpatia pelo tema. Nesse caso, o exercício poderia quebrar os
estigmas sociais que aprendemos, o ser homem, ser
mulher, criança ou adolescente. Eles agiam de forma dual, hora querendo
se entregar ao teatro e aproveitar, hora tentando permanecer no papel social
que lhe foi atribuído. Os
homens que realizam as mesmas tarefas assumem a máscara imposta por essas
tarefas; as mulheres que procedem sempre da mesma maneira diante de um mesmo
fato assumem a máscara determinada por esse procedimento. O burguês, o
operário, o estudante, o ator, não importa que tipo de
especialista, terminam por assumir a máscara de sua especialidade. (Boal, 2002, pág.140) A peça se iniciou
e ao passar das falas e das músicas a platéia foi se soltando e se
entregando. As couraças foram sendo transpostas e dava lugar ao sentimento de
empatia. A platéia se solidarizava com o grupo através do teatro. Fizeram o
Fórum e discutiram com aquelas pessoas de forma rica e propositiva. O corpo, no trabalho como no lazer, além de
produzi-los, responde aos estímulos que recebe, criando, em si mesmo, tanto
uma máscara muscular como outra de comportamento social que atuam, ambas, diretamente sobre o pensamento e as emoções
que se tornam, assim, estratificadas. Os jogos facilitam e obrigam a essa desmecanização sendo, como são, diálogos sensoriais onde,
dentro da disciplina necessária, exigem a criatividade que é a sua essência.
(Boal, 2005, pág. 16)
III – CONCLUSÃO Fica
a pergunta: O que acontece com os homossexuais que fazem Teatro do Oprimido?
Talvez o que acontece com muita gente: a descoberta de que se é cidadão e de
que todos têm direito ao respeito. O
Teatro-Fórum possibilita um aprendizado continuo e prático, unindo a
filosofia e a ação - Práxis. Augusto Boal criou
essa metodologia e descobriu que os efeitos do Teatro do Oprimido, em
especial o Teatro-Fórum não têm fim. Uma sessão de Teatro-Fórum não termina
quando se desmonta o cenário da peça ou a platéia vai para suas casas. É um
constante aprendizado e uma contínua reflexão sobre o que aconteceu no espaço
estético. É
justamente no espaço estético - na imagem do real, que é real enquanto imagem
- que o oprimido tem a oportunidade de pesquisar
alternativas. Ele penetra naquela imagem e atua, porém quando age o
faz concretamente, pois a imagem é real! Tanto o grupo que criou o espetáculo
(imagem) quanto o espectador que entra em cena e modifica aquela realidade
– (da imagem), percebe que é possível transformar a real
realidade, pois se podemos modificar as ações do personagem
e mudar o rumo da história, podemos transformar tudo, até a vida. O
ato de transformar e transformador! (Augusto Boal) O
Projeto Dialogar Para Aproximar foi um marco na trajetória do CTO-Rio, pois possibilitou reflexões sobre as
sexualidades e abriu espaço para as religiões se pronunciarem e se
aproximarem do Teatro do Oprimido. Para o movimento homossexual, creio que
seja mais um passo dado em direção a conscientização
de que é importante a luta contínua e que existem diversas formas de
manifestar a insatisfação – o Teatro-Fórum é uma delas. Independente
da finalização dos projetos ou término de alguns grupos populares, a semente
plantada dentro das pessoas que têm a oportunidade de conhecer o Teatro do
Oprimido vai ser semeada de alguma forma, durante muito tempo. |