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Revista Recre@rte Nº5 Junio 2006 ISSN: 1699-1834 http://www.iacat.com/revista/recrearte/recrearte05.htm |
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POESIA E EDUCAÇÃO: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE Maria Tereza Scotton[1]
Brasil O texto aqui apresentado é parte da tese de doutorado defendida em
março de 2006, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-Rio), Brasil. Investigar a escolarização do poema em salas de aula do ensino fundamental
foi o objetivo do estudo, por constatar, nos últimos anos, a transposição
para as práticas escolares dos diversos gêneros do discurso produzidos na
vida social e apresentados em variados suportes, por influência da política
educacional brasileira. O poema á aqui compreendido para além de um conjunto de palavras
rebuscadas e reconhecido quando se apresenta como novidade da vida, como
contínua recriação do mundo e do homem por si mesmo. Acreditando na possibilidade de uma
educação escolar que seja sobretudo poiesis, o
ato de educar é identificado com o ato poético, uma vez que educar envolve
criar seres humanos e a própria palavra poesia significa criação. E todo
discurso contemporâneo sobre educação, seja ele político, legislativo,
acadêmico ou escolar, sempre tem afirmado a formação para a cidadania como
componente essencial para a democratização da sociedade. A formação de cidadãos passa pelo
conhecimento de seus direitos e de sua história. Esta está relacionada ao
conhecimento do mundo, ao autoconhecimento e ao conhecimento do outro, que
dizem respeito ao processo de humanização. O discurso para a educação é
negado quando esses aspectos são ignorados em detrimento da formação
exclusiva para o ingresso no mercado de trabalho. No
diversificado mundo da linguagem, linguagem que nos constitui e é por nós
constituída, aprendida, criada, recriada e re-significada, o poema
possibilita o movimento do conhecimento de si e do outro por meio da
comparação que fazemos dos nossos sentimentos com os dos outros. Não só: o
poema, por meio de sua linguagem desdobrável, tem mostrado que a história e
os seres humanos também podem ser (KONDER, 2005). 1. O poema: uma das artes da palavra A palavra poesia se origina do grego poíesis que significa “criação”, “ação
de fazer algo” (FERREIRA, 1986, p. 1352). No Latim encontramos a palavra carmen, significando: “canto, cantiga, som da voz
ou de instrumento”, “palavras mágicas, encantamento”;
“poema, poesia lírica”; “palavras cadenciadas, verso,
poesia” (SARAIVA, 1925, p. 185); “tudo que é escrito em verso,
fórmula ritmada, fórmula mágica”; “palavras mágicas,
predição”; “poema, e especialmente poesia lírica ou épica”
(FARIA, 1955, p. 147). Na antiga civilização grega, uma linguagem diferente da usual precisou
ser criada para a preservação e transmissão de sua cultura - o que não quer
dizer que outras sociedades não a criaram. Sem dispor ainda da escrita, os
gregos desenvolveram uma tecnologia de uma fala que garantisse a memorização.
Para isto foi necessária uma linguagem que combinasse sons - as rimas - e que
estabelecesse um ritmo por meio da metrificação, resultando em frases curtas
e melodiosas, palavras ritmicamente organizadas e com muita sonoridade. A
poesia era voz proferida por “especialistas” da oralidade, aqueles
que melhor a dominavam; agentes que analisavam a sociedade, daí sua palavra
ser associada ao encanto, à magia, à profecia. Todo o conhecimento era
transmitido oralmente. A palavra deveria ser entoada com ritmo e as frases em
unidades métricas a fim de garantir a apreensão e fixação do conhecimento.
Fórmulas mágicas, sentenças oraculares, rezas, cânticos de trabalho e de
guerra, lamentos fúnebres, histórias heróicas, tratados de agricultura e
relatos históricos cabiam nos versos do poeta recitador-cantador que tinha
uma função social e política. A ele cabia garantir a circulação do
conhecimento, das idéias, da cultura que a sociedade produzia. A poesia
estava ligada ao ato de lembrar e relembrar enquanto uma tecnologia de
preservação da cultura (HAUSER, 2001; MACHADO, 1994). Com a invenção da escrita, essa tecnologia já não era necessária,
tanto é que as traduções da epopéia para as línguas ocidentais modernas
ganharam a forma de prosa em muitas adaptações (MACHADO, 1994). Mesmo assim,
o modo de escrever em versos perdura por muitos séculos. Os grandes gêneros
poéticos considerados por Aristóteles (s./d.) eram o épico e o dramático,
enquanto o gênero lírico foi por ele excluído, considerado gênero menor por
ser a expressão do eu. Paradoxalmente, no século XIX, os dois grandes gêneros
de Aristóteles, a narração e o drama, foram abandonando cada vez mais o verso
para adotar a prosa. Com o declínio do grande poema narrativo e do verso
dramático, e com o advento da modernidade, lírica e poesia passaram a confundir-se.
A poesia lírica tornou-se sinônimo de toda poesia. No século XX o verso livre
e o poema em prosa vêm confundir ainda mais o velho sistema de gêneros
(COMPAGNON, 1999). Estando superadas as limitações da memória pela invenção da escrita,
sua primeira forma é a manuscrita em suportes como tábuas de argila, papiros
(primeiros suportes maleáveis, feitos da haste do vegetal de mesmo nome) e
pergaminhos (feitos da pele de carneiro). Os suportes maleáveis dão origem
aos rolos que também eram chamados volumen, material precursor do livro
(WALTY et al, 2000). A poesia continuava a ser voz, canção, conforme
registros sobre as manifestações poéticas medievais, por exemplo, nas canções
de amigo e canções de amor, cantadas e dançadas por coloridos
jograis e bailadeiras, rebeldes à ditadura da escrita. Essas formas orais de poesia foram registradas depois em
livros denominados cancioneiros quando os textos deixam efetivamente de ser
música, dança e palavra falada e assumem traços sobre o papel (LAJOLO, 2001). Para Zumthor (1990, 1993, 1997), poesia é voz e não deve deixar
de ser. A origem da poesia está ligada ao desejo profundo da voz viva
dirigida à coletividade que a preenche. A voz é um objeto central dentro da existência de uma sociedade
humana, por ser possuidora de qualidades simbólicas, além de qualidades
materiais que se definem em termos de tom, timbre, alcance, altura e
registro. Na voz cristaliza-se um laço social e também uma poesia. Ao sair do
silêncio, a voz amarra fios de variadas realidades, assumindo valores
profundos e dando cor àquilo que, através dela, é dito ou cantado. A voz
ultrapassa a palavra, pois as emoções mais intensas suscitam o seu tom, não a
linguagem, o que adquire grande importância no poema uma vez que nele os
blocos de sons é que produzem sentidos. Constata-se nos elementos da voz uma
atribuição de valores simbólicos: o tenor corresponde ao justo perseguido; a
soprano – a feminilidade idealizada; ao baixo – a sabedoria ou a
loucura. As emoções mais profundas suscitam não a linguagem enquanto palavra,
mas o som da voz – murmúrios, gritos, gemidos. Zumthor (1993) não nega a extraordinária importância da invenção da
escrita, entretanto destaca o fato de a voz ter sido um fator constitutivo
das obras que foram denominadas, talvez contraditoriamente, de literatura (do
latim littera, que significa letra). O autor reconhece que a
voz também foi instrumento de jugo pelos legisladores, clérigos e doutores,
todavia compreende que a poesia não pode ser identificada automaticamente com
a escrita. Relativiza a importância da escrita no que diz respeito à
escravização às técnicas escriturais e à ideologia que elas secretam, o que,
historicamente, favoreceu a perda da faculdade de dissociar poesia de
escritura. Desprezou-se o oral, sendo este carimbado de forma depreciativa de
“popular” enquanto formas de expressão escriturais associaram-se
a termos como “erudito” e “letrado”. No caso da poesia, sua criação foi se desenvolvendo associada a uma
linguagem performativa, compreendendo-se performance como sendo a
materialização (concretização) de uma mensagem poética através da voz humana
e das expressões que a acompanham, seja a expressão facial ou mesmo a
totalidade dos movimentos corporais, em que locutores e interlocutores se
encontram em circunstâncias concretas. A performance poética não é apenas
divertimento, nem uma ocasião especialmente agradável; é oportunidade de
comunicação de vida sem reserva onde o homem aparece inteiro. Assim, Zumthor (1990) mostra-se contrário à concepção do discurso escrito
como linguagem relativamente autônoma, liberada de seu contexto, quando se
trata da poesia. Esta é um conjunto de textos poéticos, não obstante também
se compõe da atividade que o produziu: o ambiente, o corpo, os gestos, os
meios, abrangendo mais do que o texto que veicula. A tessitura da voz traz ao
texto a riqueza polifônica de suas significações. O autor faz então uma distinção entre obra poética e texto, sendo a obra
“o fruto da conjunção de um dado textual e de uma ação
sociocorporal, um e outro formalizados de acordo com uma estética”
(ZUMTHOR, 1993, p. 144), enquanto o texto é a “seqüência
lingüística que constitui a mensagem” (id., ibid., p. 142), tendendo ao
fechamento. Do texto extrai-se a obra. Enquanto o texto é visível, a obra é
audível e visível. O poema é o texto ou a melodia da obra, sem levar
em conta os outros fatores da performance. A escrita, pelo menos em tese, venceu. Por volta de 1450, Gutenberg
apresenta a primeira Bíblia impressa, resultado da tecnologia que abriu as
portas para a popularização do livro – a invenção da imprensa e o
aprimoramento da indústria do papel. As revoluções burguesas do século XVIII e XIX afastaram o Estado das
operações econômicas a fim de que o capital tivesse total liberdade para usar
o mercado a seu modo. A valorização do modelo de vida privada era útil à
burguesia no combate ao feudalismo e à aristocracia, como unidade e
fragmento, simultaneamente – laços internos sólidos e desagregação da
coletividade. No interior do modelo moderno de família, a leitura
constituiu-se em atividade adequada à privacidade da vida doméstica:
individual ou coletiva, em voz alta ou silenciosa. Transposta para o ambiente
urbano, práticas de leitura se fortalecem e se institucionalizam,
substituindo práticas associadas ao modo de narrar, de tipo oral, fundadas na
experiência vivida, de sentido comunitário e enraizadas no meio rural, cujo
desaparecimento foi lamentado por Walter Benjamin (LAJOLO e ZILBERMAN, 2003).
Acompanhando o desenvolvimento do capitalismo, também a leitura torna-se
atividade individual solitária de um sujeito ou de uma família. A existência do leitor, enquanto ”papel de materialidade
histórica” e a leitura, enquanto “prática coletiva”,
constituíram-se a partir do desenvolvimento de sociedades burguesas tuteladas
por uma economia capitalista no todo ou em parte (id., ibid., p. 16).
Concretizando-se em empresas industriais, comerciais e financeiras, na
vitalidade do mercado consumidor e na valorização da família, do trabalho e
da educação, a economia capitalista criou mercadorias específicas para os
leitores, concebidos como público consumidor da indústria do lazer, do
mercado religioso ou de formação. Sem dúvida, o livro é um suporte físico de um saber, no entanto também
é mercadoria na medida em que se constitui como objeto industrializado
submetido à compra e venda, identificando-se com os produtos lançados para a
sociedade burguesa ao se transformar em propriedade privada. O livro pode ser
considerado pioneiro no sistema de divisão do trabalho e da produção em
série, solicitando inúmeros profissionais até chegar como objeto nas
livrarias, com vistas ao lucro. Em dicionários mais recentes, já não
encontramos definições para a poesia que a identificam com a magia, o
encantamento e a profecia. No dicionário da língua portuguesa encontramos os
seguintes significados para a palavra poesia e suas derivadas - poema e poeta
(FERREIRA, 1993, p. 429): POESIA sf 1. ARTE
DE CRIAR IMAGENS, DE SUGERIR EMOÇÕES POR MEIO DE UMA LINGUAGEM POEMA sm. 1. OBRA Muitas pessoas não conseguem enxergar algum valor na poesia lírica,
considerando-a distante do raciocínio lógico; pessoas sensatas, ocupadas com
coisas práticas e úteis, ao contrário do poeta, que busca recriar a
linguagem, tornar-se um mágico, ainda que em sua obra estejam presentes
palavras que passam de boca em boca, por isso, é correta a concepção daquelas
pessoas de que a linguagem do poeta não é normal, não é aquela utilizada na
comunicação cotidiana (FISCHER, 2002). Ainda assim, poemas continuam a ser escritos em livros de diferentes
tamanhos, de capa dura ou mole ou em caixinha com laçarote de fita lilás como
Memórias inventadas: a infância, de Manoel de Barros (2003). E também
mimeógrafos e xerox contribuem para a circulação de poemas. Carentes de editores, os poetas anônimos publicam seus poemas na
internet. A tribo dos poetas é obstinada e sai para navegar no século XXI.
Existem milhares de sites de autores espalhados pelo espaço digital
que institucionalizam a figura do cyberleitor que tem modos de leitura
alterados – da página para a tela. Há, em contrapartida, um grave
problema de apropriação de textos alheios, ou então, a apresentação de textos
com autoria atribuída a poetas que jamais escreveriam o que entra em
circulação através da Internet. Também neste século temos à disposição poemas para crianças e jovens,
mulheres, negros, homossexuais, índios e imigrantes; poemas com rimas, poemas
sem rima, poemas curtinhos, poemas que são imagens ou imagens que são poemas. Muitas vezes minimizando o verbal e destacando o visual, o poema também
ressurge em suportes como discos, fitas, CDs, DVDs, homepages. Os vários
tipos de arte e de gêneros literários se entrecruzam, rompendo as fronteiras
sensíveis que os separam, expressando-se, simultaneamente, o artista nas
formas lírica, narrativa e dramática por meio da multiplicidade de seu
repertório: prosa poética, poesia em prosa, visual, verbal, vocal, dentre
outros (CAVALCANTI, 2004). A voz e o ouvido têm recobrado a importância que tiveram no passado, o
que não implica num retorno a ele. A sociedade se transformou, o espaço já
não é o mesmo de outrora, assim como a palavra que não é estática, porém
signo em rotação (PAZ, 2003). Para Paz (1993), a produção poética na história
representa um perpétuo recomeço e um contínuo regresso, reconciliando os tempos.
Nos dias de hoje, vemos o poema expandir-se na obra, ao ser
apresentado nos estádios em megashows e em teatros, onde os textos, através
da performance – como definida em Zumthor - são re-significados e
coletivizados. Sendo criação ou encantamento, magia ou
palavra profética, ainda que mudando de rosto ou de nome, a poesia parece se
manter “uma”, como parece reconciliar o tempo, confundindo o
princípio de mudança e o princípio de permanência (PAZ, 1993). Em que pese as transformações que sofreu, o fato de o poema se manter
durante milênios é um indício de que corresponde a uma necessidade dos seres
humanos (KONDER, 2005). Ele está relacionado a um encantamento da vida que
quer comunicar algo, diferenciando-se da informação e da comprovação
científica. Uma sociedade sem poema talvez fosse uma sociedade entristecida.
Até mesmo a publicidade busca inspiração na magia característica da linguagem
poética para tornar suas mensagens mais sedutoras. Para Octavio Paz (2003), a operação poética tem como característica um
dizer de algo datado e histórico. Uma experiência poética sempre elege
uma experiência histórica, podendo ser esta pessoal, social ou a imbricação
de ambas, que se expressa por meio do poema, que é a criação
de uma imagem (ou sentido) através de uma forma verbal, frase ou
conjunto de frases unidas, ditas ou escritas/desenhadas/pintadas pelo poeta. Se as imagens do mundo se concretizam na escritura dos poemas, são
válidas: como obras, existem na realidade objetiva. No entanto o poema,
enquanto objeto feito de palavras, ao criar uma imagem, é tocado pela poesia,
tornando-se a outra voz (PAZ, 1993). A outra voz afasta-se da
percepção automática do óbvio da linguagem que nomeia o mundo para imprimir
aquilo que diz outras verdades, outros sentidos, enfim, a pluralidade
possível da realidade. Ao criar outras imagens sobre o mundo e afirmá-las, ainda que pareçam
absurdas, revelam para nós o que somos. Isto porque o poeta não descreve, não
explica, não representa, mas apresenta a imagem. Não há no poema um querer
dizer; o poeta diz (PAZ, 2003). Para construir o sentido do que
está sendo dito pelo poeta, o leitor é desafiado a ressuscitar, reviver e
recriar a sua própria experiência do real. O poema o leva a ir ao outro, colocar-se
fora de si mesmo e, simultaneamente, voltar-se para si mesmo. E o mesmo
exercício de liberdade que o poeta viveu, o leitor vive também, por isso, o
poema nos faz recordar o que pode estar em nós esquecido: o que somos
realmente. O leitor recria a experiência e cria-se a si mesmo, descobrindo
sua outridade. Muitas vezes o poema não tem um sentido explícito e imediato para o
leitor, por tratar da versão do real de outro eu. Lançar-se na busca
do sentido é buscar o homem – a si mesmo e ao outro – o que
significa refazer a história. No instante do encontro do eu poético com o
leitor, as forças desconhecidas se polarizam, criando-se uma tensão entre o
eu e o outro na interpretação – interpretar no sentido de vontade de
compreender e de se compreender (CYNTRÃO, 2004). A pesquisa foi realizada em quatro salas de aula de diferentes
escolas, situadas na cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais
– Brasil, no horário das aulas de Língua Portuguesa, no período de 22 de
março a 3 de novembro de 2004, variando o tempo de permanência em cada uma
delas: uma quarta série de uma escola pública e a mesma série de uma escola
confessional católica; uma oitava série de uma escola/cooperativa de
professores e a mesma série de uma escola/cooperativa de pais de alunos. Do
objetivo traçado – investigar a escolarização do poema em salas de aula
do ensino fundamental – foram delineadas as seguintes questões de
estudo: -
Como são desenvolvidas as práticas de
oralidade/leitura/escrita nas aulas de Língua Portuguesa? - Como o poema é inserido nessas práticas? -
De
que maneira a interação com poemas proporcionada pela escola possibilita às
crianças e jovens manifestarem sua identidade, fazerem escolhas, expressarem
suas visões de mundo? Na convivência nas quatro salas de aula foi possível observar que as
práticas de oralidade/leitura/escrita desenvolvidas têm como referência a
leitura de texto (s) para o desencadeamento de atividades orais e de escrita
a serem realizadas pelos alunos. Ficou constatado, nas salas de aula investigadas, que os poemas não
mais são utilizados para exercícios de gramática ou ortografia, como
pseudo-textos de auto-ajuda ou para identificação de estrofes e rimas. A
dimensão estética do texto está sendo levada em conta, vinculada à composição
lingüística que configura o poema como um trabalho artístico e sua relação
com a vida. O poema mediou encontros sociais e culturais, ao possibilitar a
manifestação da visão de mundo dos alunos – e até o desgosto por determinados
poemas - destacando-se entre os diversos gêneros e representando a outra
voz, até mesmo quando negado por uma das professoras e trazido para a
sala de aula por intermédio de uma jovem aluna. Há a primazia da utilização dos textos dos mass media. Ainda
que a quantidade se equipare, o tempo dedicado aos textos não-literários é
mais extenso, causando a impressão de uma maior vivência ou interação dos
alunos com textos da mídia impressa. A Teoria dos Gêneros do Discurso, apropriada pela política educacional
do país e traduzida nos documentos oficiais para a educação, tais como os
Parâmetros Curriculares Nacionais e o Programa Nacional do Livro Didático, ao
privilegiar a utilização, pela escola, de todos os textos que circulam na
sociedade – colocando os gêneros literários no mesmo nível de um
folheto de supermercado ou de um lead – parece ter trazido como
conseqüência a valorização do poema pelos alunos, por ser ele a voz da
exceção, a voz que parece fazer a diferença no emaranhado de gêneros do
discurso e tipos textuais. A diversidade de tipos textuais e gêneros discursivos nas práticas de
oralidade/leitura/escrita revelou que as palavras do poeta não são melhores
ou piores do que a dos cientistas, dos jornalistas ou dos publicitários.
Apenas mostraram que “é a linguagem da expressão - às vezes
desconcertante - da extrema diversidade da condição humana” (KONDER,
2005, p. 16), tanto no que diz respeito às vozes dos poetas lidos quanto nos
poemas produzidos pelas crianças e pela aluna poeta da oitava série. Há equívocos quanto à identificação dos gêneros pertencentes ao
domínio jornalístico, como notícia, artigo, reportagem, lead.
Transmite-se aos alunos a falsa crença na objetividade e imparcialidade da
linguagem da informação, negando a leitura crítica e plural. A leitura é
feita apenas para repetir o que é dito, como se cada fato se encerrasse em si
mesmo, raramente discutindo-se as condições em que o texto foi produzido. Não se trata de negar a
importância que tem para a formação do leitor os textos veiculados pelos
meios de comunicação. Trata-se de pensar até que ponto se está dando acesso
aos alunos aos bens simbólicos da cultura criadora. A estrondosa penetração,
nas escolas, dos textos divulgados pelos meios de comunicação requer do
professor que ele não subestime seu papel de intelectual e, ao optar pela
leitura desses textos para/com seus alunos, discuta as condições em que são
produzidos e colocados Inspirando-nos em Queirós (1997), podemos
afirmar que não houve somente grandes avanços tecnológicos no mundo
contemporâneo. Simultaneamente, em grande medida, vem ampliando o conceito de
homem, de existência. Daí a importância que as artes da palavra assumem hoje
no currículo escolar, porque possibilitam o conhecimento do mundo e do
sentimento do homem diante dele. Somente com acesso à ciência e à informação
corremos o risco de cair num cerebralismo monstruoso (KONDER, 2000). Foi o
que os alunos demonstraram, ao acolher com prazer o poema. Ficou evidente que
a maioria dos alunos aprecia poemas e a diferença que parecem estabelecer
entre a fugacidade que marca o texto jornalístico ou o caráter utilitário de
alguns outros gêneros e o poema - que perdura no tempo, que fala do mundo, de
gente e da gente, sem prazo de validade. É texto escrito, todavia se mostrou,
sobretudo, voz, corpo, performance. Said (2005) alerta para a
importância que os meios de comunicação vêm assumindo, na medida em
que se tornam palavra de autoridade. Quem a elabora? Quem a transmite?
Para que? O autor mostra que essas questões são muito bem pensadas. E o são
por pessoas que desenvolvem atividades intelectuais. O autor enumera diversas
profissões que emergiram ou se expandiram no final do século XX e que vêm
se legitimando como vozes de autoridade, dentre elas: locutores de
rádio e apresentadores de programas de TV, analistas de Informática,
advogados das áreas de esportes e de meios de comunicação, autores de
relatórios de mercado especializados e o moderno jornalismo de massa. São
eles, enquanto intelectuais - e não as classes sociais - que se afirmam como
essenciais para o funcionamento da sociedade moderna. Por isso Tezza (2003)
reconhece a necessidade da linguagem poética se fazer ouvir neste tempo fragmentário,
desutópico, individualista e descentralizado em que vivemos, por ser ela
soberana, isolante e possuidora de um único centro de valor – o do
poeta ou da poeta – portanto voz de autoridade. BIBLIOGRAFIA ARISTÓTELES. Arte
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Janeiro: Ediouro, s/d. BARROS, Manoel. Memórias
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1997. [1] Doutora em Educação pela PUC-Rio e Professora das disciplinas Literatura e Escola e Práticas de Leitura e Produção de Texto do Curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais – Brasil. |
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