HUMANIZAR A AÇÃO,
para Humanizar o ato de Cuidar
*Tânia Baraúna
Enfermeira,
Psicopedagoga.
Mestre
Mestre
Mestre em Educação e Sociedade-UAB-Barcelona
Doutoranda em Educação e
Sociedade- UAB-Barcelona
BAHÍA. BRASIL
A humanização é um processo de construção gradual, realizada através
do compartilhamento de conhecimentos e de sentimentos. Como enfermeira e
educadora, questiono: como obter esta parceria entre o conhecimento e o
sentimento? E como favorecer a uma aproximação mais real e verdadeira entre o
enfermeiro e o paciente?
Estes questionamentos me levam a refletir sobre um poema de Adélia Prado, “Ensinamento”:
“Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“ Coitado, até essa hora no serviço pesado “.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou
Essa
Sentimento e estudo...Creio que sem o sentimento o estudo
perde o seu sentido, por outro lado, sem o estudo, sem o conhecimento, o
sentimento pode acabar empobrecido.
Sentimento e estudo são como as asas dos pássaros, dos anjos, se auxiliam
no equilíbrio para o vôo, a uma maior valorização da vida.
Ao amor, a Adélia atribui a “essa palavra
de luxo”. Será que por isto é tão pouco lembrado nas nossas escolas, nos
nossos estudos com os nossos alunos, no nosso trabalho como educadores e enfermeiros?
As ações de humanização englobam muitas e diversificadas práticas profissionais que vêm sendo introduzidas no tratamento de pessoas hospitalizadas (a psicologia, a terapia ocupacional, a arteterapia, a contação de histórias, a arte do palhaço, as artes plásticas, o toque terapêutico, a massoterapia, etc.).
Práticas essas que passam pelo sentimento, o amor. Amar é
responder pela relação, é estar atento às necessidades do outro, respeitá-las,
escutá-las, dar-lhes uma resposta. Amar é prestar atenção em nossa maneira de
tratar o outro.
O amor está ligado ao respeito = respicere = olhar. É a capacidade de ver a pessoa tal como ela é,
estar consciente de sua unicidade, é desejar vê-la florescer conforme seus
desejos e meios.
Amar é abrir-se à realidade do outro como ele é sem procurar transformá-lo conforme as nossas expectativas, encorajando-o em seu caminho ao mesmo tempo em que respeitamos ambos as nossas necessidades: as dele e as nossas.
Nas ações da humanização, procuramos resgatar o respeito à vida humana, a nossa e a do paciente. Estando presente todo um universo social, ético, educacional e psíquico, observados em todo relacionamento humano. As ações da humanização envolvem um vínculo subjetivo, entre quem cuida e quem é cuidado.
Ao “ensinamento”, ao
aspecto técnico-científico, cabe a responsabilidade do educador, do professor.
Ensinar ao aluno, ao futuro profissional, de forma competente, a aplicar as
técnicas no atendimento ao paciente de maneira segura e eficaz, associadas a um
atendimento que considere e respeite a individualidade das necessidades do
paciente.
Na escola pouco se aprende sobre a afetividade: usar o corpo,
ter confiança em si, escutar, ter empatia, auto motivar-se, respeitar as
diferenças individuais, a humanizar-se.
Os seres humanos são seres de relações, são seres emocionais
e amorosos.
Amo o mar, amo os seres humanos, amo minha filha, te amo, amo
caminhar, amo ler, amo escrever...
Que confusões nascem pelo fato de termos um só vocábulo para
designar o amor. Mas o amor se encerra numa definição? Palavras são
insuficientes para descrever todas as sutilezas desse sentimento que nos liga
conosco, com os outros e com o mundo.O amor traz em si a responsabilidade da
humanidade, o respeito ao próximo.
Esta disposição para a importância do respeito da
individualidade do paciente estabelece um grau de adaptação e mudança; em
compensação, abre espaço para a criatividade tão fundamental no atendimento
humanizado. A criatividade aplica-se em todas as ações da Enfermagem, pois o
ato de cuidar é perceber o todo, é enxergar de uma forma global, criativa e
criadora.Temos que mudar a forma como aprendemos e a forma como mudamos.Temos
que sermos melhores no Ato de Criar, no Ato de Cuidar.
Humanizar é acolher esta necessidade de resgate e articulação
de aspectos indissociáveis: o sentimento e o conhecimento. Mais do que isso,
humanizar é adotar uma prática na qual o enfermeiro, o profissional que cuida
da saúde do próximo, encontre a possibilidade de assumir uma posição ética de
respeito ao outro, de acolhimento do desconhecido, do imprevisível, do
incontrolável, do diferente e singular, reconhecendo os seus limites. A possuir
uma pré-disposição para a abertura e o respeito ao próximo como um ser
independente e digno.
É necessário repensar as práticas das instituições de ensino,
que preparam os profissionais de saúde no sentido de buscar alternativas de
diferentes formas de atendimento e de trabalho que preservem este
posicionamento ético no contato pessoal e no desenvolvimento de competências
relacionais. Quanto mais articularmos o conhecimento teórico e técnico da
ciência aos aspectos afetivos, sociais, culturais e éticos da relação
profissional-paciente, mais estaremos no caminho para uma relação mais
humanizada e eficaz. Devemos ensinar que é possível contribuir na recuperação
de um paciente por meio de atitudes simples, de uma palavra ou de um ato de
carinho.
Alguns projetos já concretizam esses desejos, outros começam
a tomar forma, refletindo na necessidade de entendermos que a transformação dos
ambientes hospitalares depende de Conhecimento e de Atitude (sentimento), para
o desenvolvimento de fato, de ações e resultados. Assim pensando, o Hospital
Aliança (Salvador-Ba.), iniciou em
O hospital não é um hospital escola, com a finalidade de
ensino, mas possui uma história alicerçada na educação, com um foco voltado
para o desenvolvimento técnico e comportamental de todos os profissionais da
empresa, envolvidos direta ou indiretamente na assistência ao paciente.
Desenvolveu e desenvolve na sua trajetória assistencial, ações e projetos
voltados para a humanização.
Com esta história construída, agregamos, pois faço parte
dessa história, o Programa Enfermeiro Trainee, oportunizando ao recém formado a
uma inserção no mercado de trabalho. Com todos os sonhos do profissional que
inicia a sua caminhada.
O Programa considera o conhecimento uma aquisição de forma
contínua e sistematizada, com a qualificação técnica/científica, prática e
comportamental.
Está sendo desenvolvido em um ano, sendo os dois meses
iniciais do programa denominado de Programa Introdutório, onde são focados
temas comportamentais como: autocuidado, comunicação, postura profissional,
atividades direcionadas a humanização do processo de cuidar.
O programa tem também como objetivo desenvolver e fornecer
elementos para que o enfermeiro possa ser capaz de relacionar o conhecimento
adquirido com a sua prática cotidiana estimulando a sua percepção quanto à
importância para o seu crescimento pessoal e profissional.
Os instrutores são profissionais da empresa, especialistas da área, participando toda a equipe multiprofissional (enfermeiro, médico, fisioterapeuta, engenheiro clinico, nutricionista, assistente social...).Sendo uma aprendizagem de dupla mão.Uma oportunidade de crescimento para toda a equipe. Definitivamente, a Humanização Hospitalar está em ação.
A humanização em hospitais envolve essencialmente o trabalho
conjunto de diferentes profissionais, de toda a equipe. O trabalho interdisciplinar
pode favorecer a uma multiplicidade de enfoques e alternativas para a
compreensão de aspectos que estão envolvidos no atendimento ao paciente. Isto
tudo pode colaborar para o estabelecimento de uma nova cultura de respeito e
valorização da vida humana no atendimento ao paciente.
É
necessário mudar a forma como os hospitais se posicionam frente ao seu
principal objeto de trabalho - a vida, o sofrimento e a dor de um indivíduo
fragilizado pela doença. De nada valerão os esforços para o aperfeiçoamento gerencial,
financeiro e tecnológico das organizações de saúde. Pois a mais extraordinária
tecnologia, sem ética, sem delicadeza, sem respeito, não produz bem-estar.
Muitas vezes, desertifica o homem.
Afinal, "o que é humanização?". Questionado as Enfermeiras Trainee o
seu significado, recolhemos algumas definições:
-Respeitar o outro como a si mesmo; -É se colocar no lugar do
próximo ao cuidar dele; - Utilizar palavras simples como: bom dia, obrigada,
posso ajudar? -Tratar o paciente de maneira humana.
Repostas que não englobam a complexidade da palavra, mas expressam
que nas nossas relações diárias de trabalho há um espaço para os nossos
corações se manifestarem. E estas jovens enfermeiras já perceberam o quanto faz
diferença para elas e os pacientes. Observamos que, quando alguma coisa está em
voga, podem ocorrer duas situações: a oportunidade de aprofundar e, aprender;
ou o risco de banalizar e, com isso, perder o seu verdadeiro significado. E a
humanização está no topo das discussões.
Acreditamos que qualquer ação na área da humanização necessita ter em mente o
alcance e a delicadeza do tema. Esse tipo de cuidado pode resguardar sua
profundidade, do contrário corremos o risco de banalizar essa prática através
de ações bem intencionadas, mas talvez, pouco efetivas.
Educar com o coração, viver a vida com o coração, ser o mais
total e integral possível, ter na consciência o papel que exerce no universo e
representá-lo, tudo isto significa manifestar a inteligência do coração. Ou
melhor, ainda estabelecer a parceria entre o conhecimento e o sentimento.
São os seres humanos que formam a sociedade, mudar a sociedade sem mudar o ser
humano é ilusão.O trabalho, a criatividade, a educação e a vida social e
familiar não evoluem separados.
Complementando essas reflexões sobre o processo de
humanização recorro mais uma vez a beleza, a poesia através de um texto
narrativo de Marina Colasanti: “De Cabeça
Pensada”.
“Tinha 30 anos quando
decidiu: a partir de hoje, nunca mais lavarei a cabeça. Passou o pente devagar
nos cabelos, pela última vez molhados. E começou a construir sua maturidade”.
Tinha 50, e o marido já não
pedia, os filhos haviam deixado de suplicar. Asseada, limpa, perfumada, só a
cabeça preservada, intacta com seus humores, seus humanos óleos. Nem jamais se
deixou tentar por penteados novos ou anúncios de xampu. Preso na nuca, o cabelo
crescia quase intocado, sem que nada além do volume do coque acusasse o
constante brotar.
Aos
E tudo o que ela mais havia
temido aconteceu.
Levadas pela água, escorrendo liquefeitas ao longo dos fios para perderem-se no
ralo sem que nada pudesse retê-las, lá se foram, uma a uma, as suas lembranças
“.
A bem do paciente, devemos respeitar os seus desejos, as suas
inquietações, as suas lembranças...Respeitar a vida.
Somente dessa maneira, podemos falar, da humanização, do respeito ao próximo.
E resgatar outro sentimento sem o qual a vida fica sem
sentido: a esperança, que não espera acontecer, mas procura com toda a sua
garra e energia tornar realidade o desejo de muitos: transformar todos os
locais destinados a cuidar de pessoas, todas as escolas que preparam os
“cuidadores” e todos aqueles que ensinam a cuidar, em uma nova comunidade de
profissionais cuidadores da saúde e educadores, na qual exista um espaço para o
estudo e o sentimento, dando assim a dimensão real da humanização: o nosso amor
ao próximo, a nossa humanidade.
Lembrando, que se faz necessário: Humanizar
a Ação para Humanizar o ato de Cuidar.
*Tânia Baraúna
Enfermeira, Psicopedagoga.
Mestre
Mestre
Mestre em Educação e Sociedade-UAB-Barcelona
Doutoranda em Educação e
Sociedade- UAB-Barcelona
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