A Creatividade na EducaÇâo: Necesidade, dimensiôes principais e autorealizaçâo

Porque a Criatividade está na Moda ou

Porque antes de Ser Professor sou Pessoa

Helena Gil da Costa (2002)

Defino a Criatividade actual como sendo o processo de fazer nascer alguma coisa nova. Os poetas e outras pessoas criativas são os que aumentam a consciência humana. A sua criatividade é a manifestação mais básica da realização humana. (Rollo May)

Quando alguma coisa está na moda, podem ocorrer duas situações: a oportunidade de aprofundar e, com isso, aprender; o risco de banalizar e, com isso, perder o seu verdadeiro significado. E a Criatividade está na moda.

Qualquer que seja a área em causa, é fácil ouvir dizer que é necessário ser criativo, inovar, tornar as pessoas mais flexíveis, ou mesmo aprender as técnicas que nos tornarão mais criativos e mais “modernos”. Como se, de um momento para o outro, tal realidade tivesse sido descoberta (ou inventada); como se, desde os tempos mais remotos, a criatividade não tivesse sido o motor do crescimento e do desenvolvimento humano - em qualquer do sentidos que esse crescimento e esse desenvolvimento possam ser considerados.

São múltiplas as investigações, os cursos, as palestras, os artigos de revista sobre este tema. E este é mais um. Talvez não venha a fazer muita diferença em relação a outros que já foram publicados. Mas o seu objectivo é procurar expor, não só a fundamentação teórica do tema, não só a possibilidade de aplicação a diferentes áreas, mas essencialmente (e é esse o grande desafio) procurar vislumbrar a via por que possa ser aplicada nas situações mais (aparentemente) simples do quotidiano de um professor.

É, por isso, constituído por duas partes. Na primeira, procura reflectir-se sobre os contributos de alguns dos autores que explicitam o conceito de Criatividade e a forma como se desenvolve em quatro dimensões básicas. Na segunda, a que, propositadamente, se chamou Memorandum (e correndo o risco de algumas repetições), procura-se relembrar o que todos já sabemos, mas às vezes esquecemos - porque são coisas simples... mas essenciais. Diria mesmo, vitais.

1. Entender a Criatividade

1.1. Criatividade enquanto Necessidade

Entender a criatividade como uma necessidade é o primeiro sinal de distinção e distância de quem a vê como um mistério, uma doença ou uma magia. Porque não é um mistério, a criatividade não é resultado de nenhuma força incontrolável do exterior. Se assim fosse, a criatividade não poderia ser estudada e os seus processos não poderiam ser compreendidos, nem controlados. Porque não é mágica, a criatividade não é um “truque” a que só poucos têm acesso: as pessoas não podem ser separadas em dois grupos distintos, os que têm e os que não têm criatividade (isto é, os que teriam acesso ao segredo e os que não teriam). Porque não é loucura, a criatividade não produz nem provém de comportamentos estranhos ou doentios que devam ser evitados (Isaksen et al., 1994).

Por isso, entender a criatividade como uma necessidade social significa que existe interesse em discuti-la, em perceber como é usada e em encontrar a via por que pode ser estimulada nas pessoas.

“Numa época em que o conhecimento, construtivo e destrutivo, avança a passos gigantescos para uma era atómica fantástica, a adaptação autenticamente criadora parece representar a única possibilidade que o homem tem de se manter ao nível das mutações caleidoscópicas do nosso mundo. Perante as descobertas e as invenções que crescem em progressão geométrica, um povo passivo e tradicional não pode fazer face às múltiplas questões e problemas” (Rogers, 1970).

Se o uso de uma criatividade construtiva é via de resolução dos problemas mundiais ao mais alto nível e da maior complexidade, significa que é também ao nível micro que ela tem de ser utilizada. Muito embora se entenda que, em termos sociais, o nível macro é maior e diferente da mera soma das partes, a verdade é que se a criatividade não existir ao nível das situações individuais e mais elementares, também não será despoletada, como que por encanto, para resolver as questões do nível macro.

Isto leva à consideração da criatividade enquanto necessidade pessoal, desenvolvida de forma plural, repercutindo-se num sistema e em relações sinergéticas que afectarão (e poderão resolver) a necessidade social. Refutar a afirmação anterior será talvez pôr em causa a importância do papel da educação no desenvolvimento e bem estar dos povos. Refutar aquela afirmação será talvez acreditar que a Educação acontece, enquanto qualidade total e inovação, porque há leis que a decretam, e não porque os agentes envolvidos são capazes de, em termos individuais e grupais, agir em conformidade.

Num tempo em que já é “cliché” chamar de mudança e de profundas transformações sociais, económicas, tecnológicas, políticas ou religiosas, colocam-se, genericamente, duas hipóteses a cada ser humano: ou sofrer os efeitos da mudança, ou ser, ele próprio, motor e decisor da mudança.

É evidente que há mudanças que nos transcendem. Contudo, sob a capa de um discurso fatalista que repete “as coisas são assim”, ou “gostava de fazer alguma coisa mas não posso”, “não tenho tempo”, “não sei”, ou “não tenho forças”, esconde-se muitas vezes uma atitude de “inconfiança” pessoal, de desconhecimento (ou esquecimento) do que potencialmente se é, de incomunicação com nós próprios. Isto é, os medos tornam-se maiores do que os sonhos e, por essa via, são os medos, e não as incapacidades, que impedem a realização das utopias, se utopia se quiser chamar à coragem de tomar nas mãos as rédeas da própria vida.

Scott Isaksen refere muitas vezes, e passo a citar sem tradução: “there is no more awesome force in this world than an empowered group of individuals, committed to a shared vision, aimed at a morally good purpose”. Assim, e não é demagogia referi-lo porque são múltiplos os exemplos dados pela história, o ponto de partida é a utopia (o sonho colectivo), a capacidade de transformar os medos em coragem e a vontade de perseverar, mesmo quando o vigente demora a coincidir com os sonhos.

Poderá haver quem considere que um projecto destes é pura utopia. De facto, é verdade, este projecto é uma utopia. Só por isso vale a pena.

“A Criatividade representa uma revolução mental, uma nova forma de conhecer e pensar que põe a ênfase, não na reprodução do sabido, mas na construção de novos conhecimentos e na dimensão inventiva e fantástica da mente humana que é aproveitada de uma forma limitada. A Criatividade não se ensina nem se aprende nos livros, mas na prática diária e reflexiva de todas as formas de expressão, unidas a uma imaginação transformadora e transgressora que converte o ser humano num crítico e num transformador do seu contexto” (Prado).

E não deixará de ser interessante fazer o paralelo entre a necessidade pessoal da criatividade e a hierarquia das necessidades apresentada por Maslow, já que, no pólo dessa hierarquia, se encontram as metanecessidades - isto é, as necessidades mais elevadas do ser humano, as necessidades de crescimento e as necessidades do ser. Entre outras: necessidade de significação, sentido, conhecimento, culminando com a necessidade de auto-realização pessoal. “As gratificações das necessidades superiores produzem resultados subjectivos mais desejáveis, quer dizer, mais felicidade profunda e riqueza de vida interior” (Maslow, 1991).

Julgo não ser preciso, pelo menos para já, desenvolver o quanto a auto-realização pessoal é impensável sem a existência de um viver criativo que faz de cada homem um ser original, único e irrepetível em dimensões cada vez mais amplas.

Tendo subjacente este conjunto de ideias e princípios, vamos continuar a considerar a análise da criatividade com a convicção de que o que quer que tenha sido feito a nível individual e pessoal tem consequências a nível social.

1.2. Criatividade enquanto Conceito Dinâmico

Ruth Noller desenvolveu uma definição de criatividade usando a forma simbólica de uma grandeza com as suas variáveis:

C = ƒa (Co, I, A)

Criatividade é função de uma atitude interpessoal virada para o uso positivo e benéfico da criatividade com a combinação de três factores: conhecimento, imaginação e avaliação.

Uma criança tem, normalmente, uma grande capacidade de imaginação, mas precisa de apoios para aumentar os seus níveis de conhecimentos e para ganhar capacidade para definir critérios de avaliação de ideias e de comportamentos. Os adultos ganharam muitas vezes em conhecimentos e capacidade de avaliação aquilo que perderam em uso da imaginação. Mas é pela conjugação dinâmica dos três factores que se pode aumentar os níveis de criatividade. Isto significa também, e em confirmação do que já foi dito anteriormente, que o processo criativo não acontece por acaso num contexto ou noutro, mas ocorre quando há domínio do conhecimento suficiente que a suporte e promova; tal como não acontece em espaços onde o conhecimento está presente mas onde não há imaginação. É necessário o equilíbrio dinâmico entre imaginação, avaliação e conhecimento. (Isaksen et al., 1994).

1.3. As Quatro Principais Dimensões da Criatividade

O conceito de criatividade é explicado por diversos autores de diferentes formas, mas uma síntese possível das suas abordagens faz realçar a existência de quatro grandes dimensões - Pessoa, Processo, Produto, Clima - a partir das quais pode ser estudada, sendo também na interacção dessas mesmas dimensões que a criatividade operará de forma funcional.

1.3.1. Pessoa

Um dos principais interesses dos psicólogos, e de todos os que se têm dedicado ao estudo da criatividade e suas manifestações, é perceber que características possuem as pessoas consideradas muito criativas. Estas características englobam atributos como: fluência, flexibilidade, originalidade, elaboração, curiosidade, complexidade, capacidade de assumir riscos, imaginação e abertura. Graciela Aldana (1996) apresenta os seguintes atributos como constituintes da criatividade:

·       Motivação intrínseca - jogando um papel chave, está associada a uma sensação de prazer, entusiasmo e satisfação. É a característica que permite desfrutar e valorizar tanto o processo como o resultado e usar as grandes doses de energia que são requeridas pelos processos verdadeiramente criativos.

·       Autonomia intelectual - também chamado o princípio do contraste, implica ter a força pessoal necessária para pensar e ser diferente quando vale a pena sê-lo, assumir o poder pessoal para tomar decisões necessárias, assumir as consequências das próprias acções e mostrar autonomia no desempenho das tarefas e atribuições.

·       Gosto pelos problemas - ter uma sensibilidade especial para detectar os problemas, em vez da tendência para a evasão, faz com que a pessoa criativa se concentre na produção das condições que permitam a sua resolução de forma eficaz e permanente.

·       Capacidade de romper esquemas - é a capacidade de desprendimento das formas já existentes, de descentração dos próprios pontos de vista, a capacidade de revisar os paradigmas pessoais, o distanciamento das perspectivas óbvias para que se possam encontrar perspectivas novas.

·       Autonomia do objecto - dar início ao processo criativo é ficar ao serviço da obra, como se o produto tivesse vida própria. É ter a sensibilidade de seguir o desenrolar das transformações geradas pela ideia inicial que enriquecem enormemente as possibilidades criativas.

·       Sinergia interna - aceitar as nossas próprias polaridades internas e usá-las para encontrar formas combinadas de resolução, já que a criatividade se nutre do múltiplo interno e externo.

·       Compreender e administrar os processos - aprender o valor da participação de todos, conviver com a incerteza de não saber antecipadamente aonde o processo vai levar, administrar de forma adequada a diversidade de enfoques; reconhecer o valor do conflito como dinamizador dos processos e a importância de uma comunicação aberta, permanente e frequente, para enfrentar as resistências à mudança dos diferentes actores envolvidos; perceber que os momentos difíceis (geradores da procura de soluções) são também parte dos projectos.

Mas, se é importante perceber como se “desenha” uma pessoa criativa, também é preciso compreender o que, com frequência, impede a criatividade e faz com que tal tipo de pessoa constitua uma percentagem muito reduzida relativamente às potencialidades existentes. Por isso, a mesma autora descreve um conjunto de bloqueios frequentemente presentes tanto nas pessoas como nas organizações:

·       Pouco respeito pela diversidade - porque a educação continua a colocar ênfase na uniformidade, no apego a rotinas e nos procedimentos distantes dos interesses dos educandos, não há entusiasmo frente a situações de diversidade enquanto fonte de sinergia e de descoberta.

·       Desrespeito pelo subjectivo e intuitivo - a valorização excessiva do científico e do técnico, como única fonte de certeza, leva à desvalorização da intuição, enquanto sentimento interno, visceral, que se alimenta da sabedoria mais profunda e da nossa verdade pessoal, essencial em processos de pioneirismo.

·       Medo da imaginação, da utopia, da mudança - o medo generalizado da mudança prende-nos em zonas de comodidade (ainda que temporárias) e faz desenvolver a capacidade de argumentação para encontrar razões pelas quais as coisas não vão funcionar. A atitude de procura permanente é, em contrapartida, a atitude positiva de procura permanente, de crítica transformadora, de compromisso com o que, à primeira vista, parece impossível.

·       Facilismo: sinónimo de felicidade - o gosto exagerado pelo conforto, a atitude paralizante frente aos problemas, a ênfase exagerada dos resultados e da avaliação e o condicionamento exclusivo para o êxito impedem desenvolver uma atitude de tolerância frente às frustrações e a capacidade de se aprender com o erro e com as experiências.

·       Relações baseadas em normas pré-estabelecidas - a imposição de estilos e normas de comportamento e de relações, a presunção de que conhecemos perfeitamente as outras pessoas, o apego ao “sempre foi assim” ou ao “já não é para a minha idade” empobrecem a espontaneidade e conduzem ao estabelecimento de relações estereotipadas com os outros e connosco.

·       A hiperactividade, o afã, a ausência de espaços de sentido - a corrida contra relógio, em que a maior parte das nossas vidas se coloca, impede desfrutar a vida, perceber as próprias prioridades, descobrir metas significativas e deixar que “a realidade supere os sonhos”.

·       Autoestima deficiente - a desvalorização constante dos nossos próprios pontos de vista, as estratégias permanentes de auto-sabotagem, a presença de um crítico interno activo e perfeccionista levam à dúvida constante, ao medo do fracasso e a perderem-se as oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal.

·       Medo do risco - educados para sacralizar a ordem existente (“não toques”, “não desarrumes”) não aprendemos a fluir com o tempo, a assumir riscos e a romper esquemas - isto é, não se “aprendem” as qualidades vitais para se sobreviver no nosso tempo. Quem cria as normas do futuro em matéria de inovação e desenvolvimento (tanto em termos pessoais como organizacionais) é quem se arrisca a ser pioneiro e a antecipar-se às necessidades da época.

1.3.2. Clima

Por outro lado, há ainda que considerar o ambiente criativo enquanto contexto, lugar, situação, pressão ou clima em que a criatividade ocorre. Tal como anteriormente já foi referido, é na interacção dinâmica das quatro dimensões que a criatividade ocorre, ou não.

Assim, é importante analisar que elementos do clima organizacional estimulam ou refreiam o aparecimento e o desenvolvimento de atitudes e comportamentos criativos. Isto é, uma mesma pessoa pode sentir-se mais capaz ou menos capaz, mais confiante ou menos confiante em si mesma e nas suas capacidades de acordo com a situação em que se encontra. Isaksen (1994) apresenta a seguinte lista de sugestões para ajudar a promover uma atmosfera adequada e propícia à criatividade e inovação:

·       Dar liberdade para tentar novas maneiras de realizar as tarefas; permitir e encorajar o indivíduo a obter sucesso numa área e por via que esteja ao seu alcance; encorajar abordagens divergentes dando recursos e espaço suficientes, mais do que exercendo controlo e impondo limitações.

·       Promover o valor das diferenças individuais, estilos e pontos de vista, permitindo actividades, tarefas e outros meios de ser diferente para muitos indivíduos.

·       Estabelecer uma atmosfera aberta e segura apoiando e reforçando ideias e respostas invulgares quando comprometidas com o desenvolvimento do pensamento criativo / exploratório e com o pensamento crítico / “desenvolvimental”.

·       Promover a sensação de controlo individual sobre o que é feito e sobre a melhor maneira de fazer as coisas, encorajando os indivíduos a fazerem escolhas e a envolverem-se no estabelecimento de objectivos e processos de tomadas de decisão.

·       Apoiar a aprendizagem e aplicação de técnicas específicas de resolução criativa de problemas no espaço de trabalho e na realização de tarefas próprias.

·       Dar tempo adequado ao cumprimento de tarefas, estabelecer prazos realistas para a sua execução.

·       Estabelecer um ambiente não punitivo comunicando que se tem confiança nas pessoas com quem se trabalha. Reduzir a preocupação com o insucesso usando os erros de forma positiva de maneira a que os indivíduos se apercebam deles, estabeleçam padrões aceitáveis e permitam um feedback afirmativo.

·       Reconhecer alguns potenciais desconhecidos e invulgares. Desafiar os indivíduos a resolverem problemas e trabalharem em novas tarefas de diferentes maneiras. Fazer perguntas estimulantes.

·       Respeitar as necessidades dos indivíduos de trabalharem sozinhos ou em grupo. Encorajar projectos de iniciativa pessoal.

·       Tolerar a complexidade e a desordem, pelo menos durante um certo período de tempo. Mesmo a melhor organização e o melhor planeamento requerem definição de objectivos e um certo grau de flexibilidade.

·       Criar um clima de respeito e aceitação mútua entre os indivíduos para que eles possam partilhar, desenvolver e aprender em equipa. Encorajar o sentimento de confiança interpessoal e de trabalho de equipa.

·       Encorajar relações interpessoais de grande qualidade e estar consciente da importância de factores como: espírito de cooperação, confrontação aberta, resolução de conflitos e encorajamento de expressão de ideias.

1.3.3. Processo

O processo é o modo como a criatividade ocorre. Inclui tanto as fases do processo, como as operações específicas que são realizadas.

É possível perceber o fio condutor, o princípio, o meio e o fim do processo. Quando procuramos resolver problemas abertos, isto é, sem uma resposta única, não há caminhos conhecidos a seguir. Assim, é necessário coexistirem o pensamento divergente, multidireccional e flexível e o pensamento tradicional, convergente e lógico.

Porque é um processo, desenvolve-se ao longo do tempo e pode ser dividido em fases. Churba (1995) apresenta um modelo de sete fases que explica o processo criador:

·       Incógnita para resolver - não sendo um problema fechado, há diversas respostas possíveis. Uma incógnita é um problema, um desafio, e importa formulá-lo da forma mais clara possível para que a tarefa seja bem orientada.

·       Informação - porque o problema é aberto, também a busca de informação tem de ser aberta, multidireccional, significativa. Nunca se sabe que informação ou estímulo podem provocar o surgimento de uma resposta adequada.

·       Incubação - todo o material recolhido vai ser submetido a um processo inconsciente de trabalho. Neste período de produção de ideias há necessidade de dar tempo suficiente para que o problema seja trabalhado.

·       Iluminação - é o momento privilegiado em que uma ideia ou imagem emerge do inconsciente e traz uma resposta possível ao problema.

·       Avaliação - analisar a ideia, confrontá-la com critérios previamente definidos que delimitam e especificam as condições a cumprir.

·       Elaboração - plasmar a solução possível com o máximo de detalhe. Devem ser utilizados os conhecimentos e técnicas de cada área temática.

·       Estratégias de realização e verificação - fazer uma planificação adequada que garanta a realização da ideia (procura de aliados para aprovação da ideia, forma de apresentação, momento e lugar oportunos, previsão de críticas, estudos de formas possíveis de melhoria da realização da ideia). Encontrar formas e ter informação sobre o que foi feito, comparar com os objectivos iniciais, para depois dar início a um novo ciclo do processo criador.

Não se trata, contudo, de um processo linear. O possível reconhecimento destas fases pressupõe a interacção das mesmas, de forma dinâmica, com retroalimentações permanentes, e poderá ser extraordinariamente enriquecido com o uso da Metodologia de Creative Problem Solving, enquanto “processo que proporciona uma estrutura de instrumentos de produção e selecção em desafios, preocupações e oportunidades importantes que necessitam desenvolver resultados novos e úteis” (Isaksen, 2000).

1.3.4. Produto

A identificação das características dos produtos criativos tem sido desenvolvida por diversos autores. O’Quin & Besemer apresentaram uma escala de análise em que os produtos são avaliados a partir de três diferentes aspectos: novidade; resolução; elaboração e síntese.

A novidade analisa o nível de originalidade contido num produto. A resolução examina o modo como o produto soluciona o problema ou situação para que foi criado. A elaboração e síntese direccionam-se para a compreensão das características do produto que estão para além dos requisitos básicos da resolução do problema, nomeadamente a consideração de aspectos como a apresentação, a elegância, a atractividade, etc. (Isaksen et al., 1994).

Contudo para aqueles, cujo principal enfoque se situa no âmbito do produto, mais do que no processo, há uma certa tendência para não identificar os traços comuns entre inovação e criatividade. É interessante notar como, nalgum tipo de discursos (políticos, empresariais ou educativos de certo tipo) o “elogio da inovação” não reflecte a preocupação com a criatividade que se desloca para outras áreas mais “artísticas”. Mas os produtos criativos podem ser encontrados nos mais diversos espaços ou situações - artes, ciências, humanidades, em qualquer disciplina ou domínio humano - e tanto podem ser resultado dos esforços de um único indivíduo como de um grupo de indivíduos.

1.4. Criatividade e Auto-Realização

“A confiança em si mesmo é uma fonte de actividade, de energia interna e de motivação. Quem não confia em si mesmo sente-se inibido e retraído em actuar, em se mover, em expressar-se, etc. Em consequência, é um ser médio, limitado na sua abertura aos outros e à transformação e interacção com o meio, por força de um déficit real ou fictício. Despertar a confiança nas próprias capacidades de pensar, desenhar, idear, actuar, transformar, etc. é um mecanismo “motivacional” básico” (Prado, 1995).

Auto-realização pessoal implica esperança, confiança, olhos postos no futuro. Perante os insucessos, dizer mais vezes “ainda não” do que “já não”. Implica olhar menos para o que ficou para trás e confiar mais no tempo que é, que está sendo, e no que há-de vir.

Aquele que confia em si próprio não olha para o passado (ou para o presente), por muito difícil que tenha sido ou seja, à procura dos erros cometidos. Porque cometemos menos erros do que as experiências que vivemos, quando a dúvida, a amargura, a tristeza e a solidão levam a pensar que tudo possa estar acabado, é preciso olhar esses processos de “morte” como processos de renascimento, e deles retirar a única coisa que importa - a experiência do vivido, o seu significado. E, com isso, mudar o que tem de ser mudado.

Assim, auto-realização é, inevitável e permanentemente, um processo de mudança. Problemas todos os dias acontecem, seja de que tipo forem e de que gravidade forem, mas a pessoa criativa encara-os como novos desafios ao crescimento. A sensibilidade para os detectar precocemente e uma atitude de “contentamento descontente” fazem com que os objectivos se desloquem na mesma medida em que as metas (sempre provisórias) são alcançadas - isto é, faz com que o processo de busca da qualidade total, em todas as dimensões da vida, seja um desafio permanente.

2. Memorandum

de: um professor

 

para: consigo próprio

Um dos aspectos mais interessantes sobre que me foi dado reflectir, desde o momento em que passei a dedicar-me ao estudo da Criatividade, foi o valor relativo de uma cultura académica essencialmente livresca que resulte só da mera acumulação de dados ou conhecimentos (por vezes até desajustados da realidade), mas que serão só soma ou justaposição de conhecimentos aprendidos (no sentido de memorizados), mas não apreendidos.

É preciso que aprender e apreender se tornem dois momentos de um processo único que incorpora e faz também “nosso” aquilo que procede do trabalho dos outros. Isto é, mais do que a capacidade de só repetir conjuntos estruturados de conceitos e de relações entre conceitos, interessa fundir esses conceitos e relações de conceitos (às vezes dispersos) num conjunto de amplo significado pessoal para que, como tal, faça sentido e potencie a mudança de quem os incorporou.

Também os Professores têm estudado muitos (talvez demasiados) modelos teóricos. Mas, a teoria, por si só, raramente impulsiona processos de mudança. Tal como saber as regras da gramática e da sintaxe não faz de ninguém um escritor, também a Criatividade se pode tornar numa “disciplina” igual a qualquer outra se não fizermos dela uma atitude, um projecto de vida, a procura da “lenda pessoal”.

Frequentamos tantos cursos de formação à procura do “segredo”, do “truque”, que nos torne melhores professores, talvez mais criativos (ou para fazer dos outros, pessoas mais completas, mais criativas)... Temos de descobrir que o segredo e o truque estão dentro de nós mesmos. É que, saber de Criatividade é diferente de ser criativo. Enquanto o primeiro pode ser só mental, o segundo é fruto das entranhas. Sei muitas coisas que não faço... nem sinto. Por isso EU tenho que mudar... o que sinto - reaprendendo as coisas simples - as mais profundas, as mais difíceis.

E, seguindo o conselho de Galileu de que “nada se pode ensinar às pessoas, mas sim ajudá-las a compreender que já possuem dentro delas tudo o que há para aprender”, vou só procurar relembrar:

1.    Eu sei que a pessoa criativa é uma pessoa positiva. Começo por mim - faço uma lista das minhas características positivas. Quantas consigo escrever ao fim de três minutos? Três? Deveria ter escrito trinta! Se não sei quais, pergunto a quem gosta de mim. E depois repito-as em voz alta e digo: Eu sou...!

2.    Ser pessoa criativa (ou ser pessoa?) é estar aberto, é ser (sempre) principiante. Somos sistematicamente sujeitos à cópia de modelos. É, afinal, o próprio objectivo da socialização. Mas, se quisermos ser diferentes, únicos, e escapar um pouco a este processo, é preciso ter consciência dele, ter vontade de mudar, ter imaginação para inventar o caminho e ter coragem para o fazer.

3.    A minha realidade é o que eu penso e os pensamentos moldam o destino - se eu mudar o pensamento, eu mudo a realidade. Conjugo vezes de mais o Imperfeito do Conjuntivo: “se eu fosse...” “se eu pudesse...” - tanta modéstia! E foi tão difícil aprender este tempo de verbo quando andava na escola - nem percebia muito bem para que servia. Reparo nas mudanças que se produzem no meu corpo quando passo do Imperfeito do Conjuntivo para o Presente do Indicativo. Isto significa que tenho capacidade de recriar.

4.    Sei bem que há relação entre o corpo e a mente - preciso estar atento aos sinais do corpo Porque “o corpo e a mente não são dois e não são um. O nosso corpo e mente são ambos dois e um - como a água e as ondas” (Shunryu Suzuki). Mudando a postura do corpo, mudo a “postura da mente”. Será que, com os olhos postos no chão e as costas redondas, eu consigo dizer “eu sou capaz”? Abandono, de vez, a “Postura da Vítima” e assumo a “Postura do Guerreiro”.

5.    A mudança é inevitável - é a única coisa constante. Por isso (repetindo-me), ou escolhemos ser decisores ou sofredores das mudanças que os outros nos impõem. Mas também é preciso perceber que alguma coisa está mal (ou pode estar melhor), e querer mudar isso. É, mais uma vez com Camões, um “contentamento descontente”. Porque os opostos vivem juntos - a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, a luz e a sombra, a inquietude e a paz.

6.    Muda quem está preparado... e pronto... e leve - quem não carrega lastros que prendem ao chão, ao passado. Se mudássemos de casa uma vez por ano, tínhamos mesmo de nos desfazer (ou nem sequer guardar) os trastes que não servem para mais nada. Hoje vou experimentar fazer uma coisa de maneira diferente - nem que seja comer a sobremesa antes da sopa, ou voltar para casa por outro caminho, ou dar uma aula do fundo da sala, ou... É só um treino - para quando chegar a maratona.

7.    Os problemas são desafios - estamos mais habituados a queixarmo-nos, estamos mais habituados a criar problemas. Não estamos habituados a resolvê-los. Não serei capaz de identificar uma situação má, ou difícil, do passado que acabou por se revelar numa oportunidade boa? Então, por que não encarar os problemas de outra forma?

8.    Correr riscos porque se fez (porque se é) diferente - é o risco de ir a territórios desconhecidos, sem garantia de êxito, a não ser o êxito de ter tentado. Com a certeza de que o erro é parte do processo e com a coragem de acreditar que o que acontece na vida é para melhor - mesmo que (aparentemente) se perca.

9.    Eu sei (cerebralmente) da relação que existe entre autoconceito, relação com os outros e visão do mundo. Como foram os resultados da minha lista de qualidades pessoais? Já cheguei às trinta? Então posso de tratar “dos outros” - porque os vejo à minha imagem e semelhança. Hoje vou fazer um elogio a uma pessoa a quem nunca fiz antes.

10. Procurar o novo / falar com desconhecidos - é assim que se aprende. E que tal deixar falar o desconhecido que há dentro de mim e passar a ter acesso à plenitude do Eu? Ser Mais Eu. Não o de ontem, também não o de amanhã - mas o Mais Eu que já sou hoje. Como sei onde ele está? Procuro nas entranhas!

11. A distância entre fantasia e realidade é mais pequena do que parece - então por que teimo em viver só com os pés postos na terra? E que tal manter a cabeça na lua e os pés na terra? Só preciso ser “grande”. É dos sonhos que nascem os projectos. Quais são os meus sonhos? Escrevo-os, coloco-lhes uma data e assim passam a ser projectos. E pergunto-me: o que já fiz hoje para que eles aconteçam? Se não fiz nada, então não são importantes. Ou então, já morri.

12. Eu sei que a incubação é uma fase fundamental do processo criativo. Mas passo a vida a apagar fogos. Preciso dar-me tempo para escolher e viver o essencial. O processo criativo nasce no silêncio.

13. Serenidade e confiança - as coisas acontecem no tempo certo. Não vale a pena apressar e também não vale a pena querer prender o que já passou. A água foge se, fechando as mãos, a tento agarrar. Só a seguro mantendo as mãos abertas. E não é a água símbolo de vida?

14. Centrar, agir, celebrar - só agir é acumular tensões, é estar distraído - longe do essencial. Relaxar é estar atento, focado, centrado - aqui e agora. A minha cabeça está quase sempre preocupada com o amanhã e o corpo a sofrer a “ressaca” do dia de ontem. O que me liga ao aqui e agora? A minha respiração. Pela forma como respiro me reconheço. E depois, claro, há que celebrar - antes de voltar a agir - para dar sentido e força ao agir.

Antes de ser Professor sou Pessoa!!!!!!!

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